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Vitor Vogas

Julho do torniquete para Ricardo Ferraço

O senador é visto hoje, neste pouco mais de um mês que nos separa do início da campanha, como principal aposta do mercado político para substituir Hartung

Publicado em 09 de Julho de 2018 às 22:59

Públicado em 

09 jul 2018 às 22:59
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Crédito: Amarildo
Em uma dessas grandes ironias de que a política está repleta, o senador Ricardo Ferraço (PSDB) é visto hoje, neste pouco mais de um mês que nos separa do início da campanha, como principal aposta do mercado político para substituir o governador Paulo Hartung (MDB) na cabeça da chapa da situação ao Palácio Anchieta. E é apontado por governistas como principal aposta do próprio Hartung para preencher seu lugar na chapa.
Talvez seja exagero afirmar que o governador, de certo modo, está hoje nas mãos de Ferraço. Mas não há exagero algum na constatação de que Ferraço não poderia estar em posição mais confortável para negociar com Hartung os termos dessa possível substituição de última hora. Isso pouco mais de oito anos após o abril sangrento de 2010, quando Ferraço sofreu o maior baque de sua trajetória. Na ocasião, o então vice-governador sangrou pelas mãos do próprio Hartung, sendo ele mesmo não o substituto, mas o substituído. Eis aí a grande ironia.
Hartung se pôs nessa situação delicada ao anunciar sua não candidatura tão em cima do início da campanha e sem ter preparado, ao longo do atual mandato, nenhum “sucessor natural”. Agora, sem o tempo mínimo necessário para alguém se preparar devidamente para entrar numa disputa como essa, Hartung anuncia: não serei candidato. Ok, mas então quem o será em seu lugar? Os nomes citados por ele em abril foram cinco: Colnago, Vidigal, André Garcia, Erick Musso e Amaro Neto. Nenhum deles parece reunir os três pré-requisitos básicos para derrotar Casagrande nas urnas: experiência, competitividade e identidade com PH.
Por isso, oito anos após ser rifado, Ferraço pode surgir como a salvação do governador. Do contrário, restará apelar para Amaro Neto, numa dobradinha que será difícil explicar aos eleitores.
Não por acaso, Hartung vem fazendo um trabalho forte nos bastidores para convencer Ferraço a topar a empreitada, além de algumas “cantadas” públicas em eventos. O senador tem a experiência de quem acumula quase 30 anos de mandatos. Tem a tatuagem hartunguista de quem já foi seu vice-governador. Mas terá a viabilidade? Terá tempo de se tornar competitivo? E mais: o que Ferraço ganharia trocando, na bacia das almas, a tentativa de reeleger-se senador por uma campanha duríssima ao governo?
Talvez, para começo de conversa, a possibilidade única, que lhe foi negada em 2010, de chegar ao Palácio Anchieta, e desta vez com tapete estendido pessoalmente por Hartung. E aqui é que está o trunfo do senador: a esta altura, para topar o plano, Ferraço poderá exigir de PH todas as facilidades, todo o apoio pessoal do governador e toda a máquina estadual jogando a seu favor. Se isso lhe for assegurado, pode ser uma proposta tentadora. Além disso, quem garante que a eleição de Ferraço ao Senado será mais fácil do que seria uma eventual batalha pelo governo? “Eu disse a ele: se você ganhar, vai ganhar para o governo. Se perder, vai perder para o Senado”, confidenciou um colaborador de Ferraço.
Há ainda quem aposte que, se Ferraço garantir o apoio de Amaro, Magno Malta e Rose de Freitas, mais a máquina e a base hartunguista em peso com ele, pode ter uma eleição menos dura do que seria sua campanha ao Senado. Contaria ainda a seu favor o fato de ele nunca ter sido governador, ao contrário de Hartung e Casagrande – o que permitia aos marqueteiros explorar o aspecto “novidade”.
Mas atenção à possível armadilha: com um timing tão apertado, Ferraço pode estar sendo jogado em uma candidatura suicida ao governo. Algo assim como um “enterro de luxo”. Vacinado como ele é, deve saber melhor do que ninguém que o momento exige cautela redobrada. E, se ele de fato não topar, a situação eleitoral de Hartung fica ainda mais complicada.
Amaro mantém plano
Amaro Neto não quis antecipar se está disposto a trocar a candidatura ao Senado pelo disputa ao governo, se Hartung recorrer ao seu nome. “O ‘se’ não joga. Não posso dizer para você se aceito ou não aceito. Minha candidatura ao Senado não é kamikaze. É para valer. Agora preciso me reunir com o grupo. Não só eu como o Ricardo. E outras pessoas que podem colocar o nome à disposição.”
Consenso ou racha
Amaro demonstra algum incômodo com as especulações de que Ferraço teria hoje a predileção de PH. “Acho que agora o nosso movimento tem que conversar para escolher um candidato de consenso. Se a gente não conversar, o movimento vai rachar e cada um vai caçar seu rumo.”
De manhã
Antes de anunciar sua decisão ao secretariado na tarde de ontem, Hartung fez o anúncio em primeira mão a um círculo seleto de aliados pela manhã, na Residência Oficial. Estavam presentes: o senador Ricardo Ferraço (PSDB), o vice-governador César Colnago (PSDB), os ex-chefes da Casa Civil José Carlos da Fonseca Junior (PSD) e Roberto Carneiro (PRB), o chefe de gabinete, Paulo Roberto Ferreira (MDB), e o deputado federal Lelo Coimbra (MDB).
De tarde
Na reunião com o secretariado, Hartung não citou nenhum nome como possível substituto na chapa. Segundo um auxiliar de alta patente, ele vai deixar o próprio mercado político decantar o seu anúncio e encontrar um nome para a missão.
De noite
Após a reunião com secretários, Fonseca Junior, Carneiro, Erick Musso (PRB) e o presidente do TCES, Sérgio Aboudib, reuniram-se com o governador no Palácio, atendendo a chamado dele.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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