Seis monstros da lagoa musical brasileira emergiram no palco da área de eventos do Shopping Vila Velha, na noite do último sábado, e proporcionaram ao público um espetáculo que foi, antes de tudo, uma grande homenagem à democracia; um show em defesa das liberdades democráticas e contra qualquer tipo de retrocesso nesse campo.
Ivan Lins, Toquinho e o quarteto MPB4 se revezaram no palco e, em alguns momentos, o dividiram, a praticamente uma semana do 1º turno, em apresentação marcada por um teor político que saltou de cada detalhe: da escolha do repertório, cheio de hinos de protesto contra a ditadura militar, a momentos sutis, mas nem por isso menos clars, nos quais Ivan Lins se dirigiu ao público.
De maneira mais ou menos direta, o recado foi passado: não dá para aceitar retroagir em valores democráticos.
A mensagem política, necessária e até urgente, ganha ainda mais relevância devido não somente à proximidade do pleito, mas sobretudo à atual conjuntura, em que muitos brasileiros (candidatos, inclusive) se mostram dispostos a trocar liberdades fundamentais por um governo mais fechado desde que ele “mude o Brasil”, enquanto outros (candidatos, inclusive) chegam a negar a existência da ditadura militar que censurava artistas dessa mesma geração; gênios como Chico Buarque, que, para driblar a censura, especializou-se no uso de metáforas como aquelas de “Roda Viva”, “Cálice” (homófono de “cale-se”) e “Apesar de Você”.
Não por acaso, essa “trilogia” do compositor em protesto contra o autoritarismo do governo militar foi interpretada pelo MPB4, que completou 50 anos em 2014. (Simbolicamente, o quarteto nasceu em meados de 1964, ano do golpe militar, com a reunião de Aquiles, Magro, Ruy e Miltinho, que então integravam o Centro Popular de Cultura, afiliado à União Nacional dos Estudantes.)
Antes, contudo, de chegar aos hinos de Chico, o quarteto executou uma canção que pode ser interpretada como um elogio à amizade, ao diálogo, à capacidade de se ouvir o outro, algo também tão perdido, e tão urgente, neste Brasil radicalizado em que as pessoas se fecham em suas bolhas: “Amigo é pra essas coisas”, de Aldir Blanc e Sílvio da Silva Júnior (1970), canção que reproduz um bate-papo entre dois velhos amigos que se encontram num bar. Enquanto um desabafa, o outro lhe empresta os ombros e os ouvidos.
Mas o momento mais político do show ficou a cargo de Ivan Lins, que, sucedendo Toquinho, comandou o terceiro bloco. O pianista e compositor iniciou sua performance com o clássico “Madalena”. Em seguida, dirigiu-se ao público: “A gente tava conversando ali dentro. A gente fica praticamente no mesmo camarim. E a gente fica lembrando as histórias. Somos praticamente da mesma geração. Vivemos o mesmo momento. Vivemos a ditadura. Não queremos a volta da violência.”
Neste ponto, parte do público começou a gritar “Ele não!”, frase que virou o mote dos eleitores que não querem Bolsonaro no poder. Outra parte do público respondeu com gritos de “Mito!”, como o deputado federal é tratado por muitos de seus apoiadores. Ivan Lins, então, abriu os braços, deu de ombros e encerrou: “Como sempre, o que a gente quer é apenas poder cantar”. E voltou a atacar as teclas.
“Uma das coisas mais importantes nesta vida é ter delicadeza, educação, respeito. Essa sempre foi a cara do brasileiro”, disse Lins à plateia, antes de tocar a romântica (e delicadíssima) “Lembra de Mim”.
Na sequência, voltando ao setlist mais político, o músico cantou “Desesperar Jamais”: “No balanço de perdas e danos / Já tivemos muitos desenganos / Já tivemos muito que chorar / Mas agora, acho que chegou a hora / De fazer valer o dito popular”. Ao cantar o último verso, Lins apontou para o alto, e o colunista jura que ele trocou “dito” por “voto popular”.
A esta altura, o show já estava tão politizado que até outra música romântica soou como parte do repertório político escolhido sob medida. Antes de cantar “Vitoriosa”, Lins saudou o público: “A letra desta música vocês exerceram ela hoje”. Na interpretação da letra, o músico enfatizou justamente o verso “Quero toda a sua louca liberdade”. Liberdade.
Em “Depende de Nós”, um hino ao poder de mobilização popular, Lins voltou a apontar o dedo para cima, no verso “Apesar do que os homens têm feito”.
Por fim, se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o recorte específico do repertório, Lins escolheu “Deixa eu dizer” para encerrar seu bloco solo: “Você não tem direito / De calar a minha boca (...) Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso desta vida / Preciso demais desabafar”.
Antes de cantá-la, ele mesmo fez o seu derradeiro desabafo, frisando que a música foi escrita contra a censura. “A gente passou por cima e conseguiu fazer que este país voltasse a ser uma democracia.”
Após o show, no camarim, Ivan Lins confirmou à coluna que sua intenção foi mesmo a de transmitir uma mensagem neste momento, mas com uma ressalva importante: “De modo sutil, né? Sempre com elegância, sempre com delicadeza. Isso é muito importante. Tem candidato aí que não gosta muito dessas coisas: elegância, delicadeza...”, completou, sem citar nomes. Entendedores entenderam.
Os artistas, sobretudo os melhores, falam por meio de sua arte.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.