Bruno Faé*
No dia 29 de abril, o deputado Jair Bolsonaro esteve no Gideões Missionários, maior evento pentecostal do Brasil. Em seu discurso, o pré-candidato disse que era “temente a Deus” e que o Brasil precisaria “eleger uma pessoa assim”, principalmente para defender a família. Já no dia 20 de maio, uma missa foi celebrada no santuário de Aparecida, maior centro Católico do Brasil, em favor do ex-presidente Lula. O evento contou com a participação de militantes, que rezaram para que fosse feita a “verdadeira justiça” e o quanto antes ele estivesse “entre nós”.
Não é novidade o uso, e abuso, da igreja cristã para fins partidários. Mas, o que motiva isso? E quais as possíveis consequências desse fenômeno?
Por trás de tais iniciativas, está certamente o oportunismo de políticos, partidos e movimentos sociais que, associados com líderes eclesiásticos que se aproveitam de sua posição privilegiada, usam a influência da igreja para promover suas ideias e candidatos, demonstrando que não têm conhecimento e/ou respeito pelo sentido último de um culto cristão, que é adorar a Deus.
Esses líderes eclesiásticos, muitas vezes, buscam mostrar diante de seu povo que possuem uma rede privilegiada de relações, no intuito de fortalecer sua reputação e autoridade
Esses líderes eclesiásticos, muitas vezes, buscam mostrar diante de seu povo que possuem uma rede privilegiada de relações, no intuito de fortalecer sua reputação e autoridade. Alguns também têm esperança de que, futuramente, eles mesmos ou sua comunidade serão recompensados por algum benefício em troca do apoio prestado (uma clara demonstração do resquício da cultura de união entre igreja e Estado). Outros, por ingenuidade e encantados com a proximidade do poder, não percebem que estão sendo apenas manipulados por políticos mais sagazes do que eles. Claramente, falta compreensão, por parte desses líderes, dos políticos e dos militantes, de qual é o propósito da igreja. Não que os cristãos, como cidadãos, não possam apontar injustiças na política, propor melhores caminhos para ela e apoiar candidatos, mas isso é algo totalmente diferente de a instituição assumir uma posição partidária.
Como resultado, produz-se, em primeiro lugar, membros desiludidos com o papel pastoral, que é primordialmente de cuidado e ensino, e consequente desencantamento com a igreja, que cai no descrédito, especialmente por parte daqueles que discordam da posição partidária por ela manifestada. Também não se estimula o voto consciente, no qual o eleitor escolhe o candidato por seu histórico e propostas. Ao invés disso, o cristão acaba votando por mera indicação da igreja. Além disso, há um perigoso fomento ao messianismo, em que políticos são tratados como escolhidos de Deus, e acabam se tornando inclusive imune a críticas. Por fim, a missão da igreja, que é pregar o Evangelho e levar o amor de Cristo às pessoas, é sufocada pelo envolvimento crescente em questões partidárias.
O uso da Igreja para fins partidários é prejudicial não apenas a ela mesma, mas à sociedade como um todo.
*O autor é auditor de Controle Externo no TCE-ES, bacharel em Teologia, pastor Batista e mestrando em Sociologia Política