A cada quatro anos, em toda eleição a deputado estadual (casada com a de deputado federal), a história se repete: com mandato prestes a se encerrar na Assembleia, Hércules Silveira (PMDB) é fortemente cotado, na temporada de apostas, para arriscar um voo mais alto e concorrer a um dos dez assentos do Estado na Câmara Federal. Mas, na hora H, a da definição de candidaturas, ele acaba refugando, para frustração de alguns aliados e alívio de alguns concorrentes. E decide permanecer onde está, pleiteando mais um mandato na Assembleia.
Em 2018, a história tem um remake. O contexto é outro, mas o desfecho será o mesmo. Inicialmente cotado para enfim alçar voo a Brasília, Hércules tende mesmo a buscar a renovação do mandato de deputado estadual. A frustração desta vez cai no colo do prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB), hoje um dos dois maiores aliados de Hércules – que consegue a raridade de transitar bem entre Max e o governador Paulo Hartung (PMDB). Já o alívio compete aos ex-prefeitos Rodney Miranda (DEM) e Neucimar Fraga (PSD). Hoje acomodados no governo de Hartung, ambos são pré-candidatos declarados à Câmara. E é precisamente isso o que explica o “problema” gerado a Max por Hércules a partir do seu recuo.
Para tentar minar a votação para deputado federal de seus dois grandes adversários em Vila Velha, Max precisa lançar um candidato ao mesmo cargo que possa contar com o selo dele perante os eleitores canelas-verdes. Esse nome, a princípio, seria Hércules, muito identificado com ele, sobretudo desde a eleição municipal de 2016, quando foi um dos primeiros a oferecer apoio a Max, mesmo com seu PMDB apoiando Rodney – diga-se de passagem, Hércules foi fundamental para Max naquela vitória, dando algum lastro, desde o início, a uma candidatura que nasceu quase isolada.
Estrategicamente, a candidatura de Hércules calharia aos planos de Max porque a votação do deputado é muito concentrada em Vila Velha. Em 2014, para estadual, mais de 4/5 dos seus votos saíram da cidade – 36,3 mil de 43,8 mil.
Para preencher o vazio de Hércules, o que Max aventa fazer é abraçar a candidatura de Luiz Paulo, seja pelo partido que for. É, por sinal, uma possibilidade que vem ganhando força. Os dois hoje estão muito próximos, dentro do mesmo grupo no PSDB, relação que se estreitou desde que uniram forças na malfadada tentativa de derrotarem a chapa de César Colnago pela presidência do partido no Estado, há três meses. Apesar de seus dois mandatos como prefeito de Vitória (1997/2004), a aposta é que Luiz Paulo, com o apoio de Max, poderia beliscar votos preciosos em Vila Velha. Sua família inclusive tem história na cidade (especificamente, na região da Glória).
E quanto a Hércules, por que não foi desta vez (e, pelo jeito, nunca será)? Sua resposta indica que o deputado não quer trocar o certo pelo duvidoso, mesmo porque, na realidade, sente-se muito realizado onde está e fazendo o que faz hoje.
“Quem me estimula muito a me lançar a federal é o próprio Max Filho, porque Vila Velha precisa de um deputado federal alinhado à prefeitura. Mas também recebo muitos apelos para que eu continue na Assembleia, no trabalho com ONGs. Criei e sou presidente da Frente Parlamentar do Terceiro Setor. A saúde, especialmente o terceiro setor, está me deixando em cima do muro... Mas meu coração diz que eu fico mais perto do povo aqui. Acontece que ajuda não é só dinheiro. É a presença, é o calor humano, é ir lá visitar, ver os pacientes no leito. O que eu poderia fazer em termos de lei federal para ajudar essa gente? Aqui eu visito essas entidades, recebo essas pessoas no meu gabinete. Tem uma tendência muito grande de eu ficar aqui.”
Ao contrário do semideus da mitologia grega (xará do deputado), que encarou os doze trabalhos, o Hércules aliado de Max prefere evitar a fadiga.
IDADE AVANÇADA
Hércules jamais o admitiria, mas um fator pessoal com certeza também tem grande peso em sua decisão de não ir para Brasília: sua idade. Ele completará 80 anos em 2019. Ao fim do próximo mandato, terá 84. Muitos apostam que será a sua última legislatura.
BASTA OLHAR AO REDOR
Duvida que, para Max Filho, seria importante eleger um deputado federal de confiança? Pergunte a Audifax Barcelos como é a sua relação com Vidigal (o representante da Serra na Câmara)? A Juninho como é a sua com Helder Salomão (o deputado de Cariacica)? A Luciano Rezende como ele se relaciona com Lelo Coimbra (representante de Vitória)?
“OPOSIÇÃO SE ARTICULA”
Como publicamos ontem no Gazeta Online, o deputado federal Marcus Vicente, presidente estadual do PP, reuniu-se com o ex-governador Max Mauro para discutirem possível lançamento de candidatura de Max Filho ao governo do Estado. O que mais chamou atenção foi o título da nota divulgada pela assessoria de Vicente sobre o encontro: “Eleições 2018 – Oposição se articula”.
COLNAGO REAGE
Presidente estadual do PSDB, o vice-governador César Colnago reagiu aos focos de dissidência surgidos ao longo da semana, por parte de Luiz Paulo e de Max Filho – derrotados por ele na convenção da sigla há três meses. Fará chegar hoje uma nota ao tucanato capixaba, na qual prega que o partido chegue à campanha com um “projeto de consenso”.
PALAVRAS DO PRESIDENTE
“Tenho convicção de que só há uma coisa que possa salvar este país: é a união das forças vivas da sociedade. Então, vamos começar pela nossa casa, o ninho tucano. Esta é minha disposição e determinação. Tenho trabalhado para unir o partido, para que juntos possamos construir um programa e um cenário para os próximos meses”, diz Colnago aos seus. No Gazeta Online, a coluna traz a íntegra da nota.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.