Distanciados pela disputa política. Aproximados pelo pensamento político. Cada vez que um ouvinte atento escuta bem os discursos de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, essa convicção se cristaliza. Mais ainda quando as respectivas falas são feitas bem perto uma da outra, permitindo a comparação. Foi o que se deu no último Encontro de Lideranças realizado pela Rede Gazeta. Na sexta (23), falou Hartung a uma plateia de políticos e empresários, ladeado pelo apresentador Luciano Huck. No dia seguinte foi a vez de Casagrande discursar para o mesmo público, no mesmo palco.
Na fala de Hartung, bem como na de Huck, sobressaíram alguns tópicos recorrentes nos pronunciamentos do governador. Entre eles, a importância da aprovação de “reformas estruturantes” no Brasil, sobretudo a previdenciária, a tributária, a federativa e a político-partidária; a necessidade de renovação política e de formação de novos líderes; a qualificação da atividade política e a construção de um Estado mais moderno e eficiente, como instrumentos para cumprir aquela que é a finalidade maior dessas criações humanas: melhorar a vida das pessoas e atenuar as injustiças sociais (ponto este que foi especialmente realçado por Huck, logo após Hartung). E, naturalmente, a ênfase dada à responsabilidade fiscal.
Aí, no dia seguinte, a palavra foi dada a Casagrande. Confiram comigo no replay e concluam vocês mesmos se há ou não há pontos de evidente convergência:
Reforma política
Hartung costuma criticar o nosso número absurdo de partidos (“Quem tem 35 não tem nenhum”) e dizer que nosso sistema político “deu água”. Casagrande também criticou a existência de 35 siglas e defendeu “reaglutinação e fusões partidárias”. “Acho fundamental, porque os partidos têm que ter opinião, têm que ter posição, têm que ter propostas.”
Reformas estruturantes
Casagrande entende que a eleição de 2018 representa o fim de um ciclo político inaugurado em 1985, com a eleição indireta de Tancredo. Tal como Hartung, porém, ele não joga na lixeira esse período. Destaca as grandes conquistas obtidas desde então, como a estabilização da economia e a da própria democracia. Mas, também como Hartung, critica a não realização de reformas essenciais, razão que, no seu entendimento, nos conduziu ao momento crítico em que hoje nos situamos. “Temos muitos desafios. E os desafios não enfrentados nos trouxeram até aqui, vivendo essa fase de transição porque, neste período, o Brasil não conseguiu fazer as grandes reformas estruturantes.” Parece Hartung falando...
Como ele, Casagrande destaca a urgência de reformas como as dos sistemas previdenciário, federativo (para desconcentração dos tributos que hoje ficam nas mãos da União) e, principalmente, tributário. “Foi por isso [pela não realização de tais reformas] que não demos o salto que precisaríamos ter dado nesse tempo. Esse novo quadro político que se estabelece nos impõe esses desafios e muitas incertezas”, afirmou Casagrande.
Injustiça social
“A gente vive num país muito injusto”, declarou Huck, novo aliado de Hartung. É óbvio – mas para alguns talvez nem tanto. Para Casagrande, sim, é mais que óbvio. E é ela, a injustiça social, o problema mais grave a ser combatido pelos governantes, na visão do governador eleito. O primeiro passo seria a já citada reforma do sistema tributário, “que é regressivo: quem ganha mais paga menos proporcionalmente. E vocês sabem que um dos instrumentos bons de distribuição de riqueza e de justiça social é o sistema tributário.” E prosseguiu:
“Se você [o governo Bolsonaro] só fizer a reforma da Previdência, mas não avançar na área da educação, da inovação, do sistema tributário, você vai crescer de forma deformada, com essa injustiça social e com essa concentração de riqueza, que é o maior problema do Brasil hoje. A campanha eleitoral não discutiu distribuição de renda. Não teve espaço para isso. A campanha nacional discutiu temas periféricos, superficiais. Ninguém entrou nos temas objetivos para melhorar a vida das pessoas. Então é bom que a gente possa fazer esta análise.”
Em tempo: o modo como os temas realmente cruciais para o Brasil foram tangenciados ou negligenciados na campanha presidencial é objeto de crítica constante por parte de Hartung.
“Temos que estar aqui prontos para que possamos libertar o nosso país dessa desigualdade que temos hoje presente aí”, disse Casagrande, que encerrou seu discurso apregoando medidas “para que este Estado possa ser cada vez mais inclusivo”.
Formação de líderes
“Após encerrar o mandato, vou me dedicar a formar novas lideranças”, tem repetido Hartung – e é por isso, entre outras razões, que colou em Huck e vai colaborar com o RenovaBR. Já Casagrande indicou que já está fazendo isso, imbuído da mesmíssima preocupação, a começar pela montagem de sua equipe.
“O resultado dessa eleição mostra a necessidade de nós fazermos a transição política. Se vocês olharem aquilo que já apresentei de composição de governo, vocês vão ver que estou apontando para lideranças novas. Algumas das pessoas que anunciamos aliam experiência com disposição de trabalhar, com combustível ainda no tanque para trabalhar muito, e alguns estão com o tanque cheio porque têm idade menor e apontam para gestores novos na gestão pública. Então fui contratado por vocês para poder fazer a transição política no Estado. E estou representando essa transição na composição do nosso governo, para que, depois de nós, outras pessoas possam conduzir com eficiência e competência a gestão pública em parceria com o setor privado.”