*Erlon José Paschoal
Um grupo de teatro se manter junto por muito tempo, pesquisando e produzindo, é algo incomum no Brasil, sobretudo no Espírito Santo. Mas manter-se por 25 anos ininterruptos montando espetáculos infanto-juvenis e adultos, organizando encontros e executando projetos diversos, ao Sul do Estado, na cidade de Anchieta, e, além de tudo isso, com uma sede própria, onde desenvolve inúmeras atividades, de oficinas diversas a exibição de filmes, é algo que merece o aplauso de todos!
Com 25 espetáculos no currículo, o grupo - cujo nome é o mesmo dado ao povoado em 1579 pelo padre José de Anchieta, Rerigtiba (lugar de todas as conchas) - realiza na sua cidade e na região um trabalho intenso e profícuo de difusão, por meio de uma agenda de apresentação de espetáculos teatrais e uma programação mensal de filmes em seu cineclube, inaugurado neste ano em sua sede, e de formação de novos atores e grupos, através de oficinas e cursos. Sempre interessado em aprimorar seu fazer artístico, através de intercâmbios com diretores e encenadores de outros centros culturais, o grupo já teve diversos parceiros trabalhando em sua sede, tais como Amir Haddad, do Grupo Tá na Rua; a diretora Fabianna de Mello e Souza, ex-integrante do Théâtre du Soleil e fundadora da Cia dos Bondrés; a diretora Anie Welter da Cia. Noz de Teatro; o diretor Miguel Vellinho da Cia PeQuod; e o diretor Ednaldo Freire da Fraternal, Cia de Arte e Malas Artes.
Mais relevante e significativa ainda se torna a trajetória do grupo, pois o Espírito Santo é um Estado com pouca tradição teatral. As possibilidades de estudar e se aprimorar nesta atividade são menores ainda no interior do Estado. Sua importância social ainda é muito pequena, embora possa cada vez mais se tornar um local de estímulo à reflexão sobre a realidade social. Por isso, a persistência dos integrantes do Rerigtiba faz dessa comemoração uma referência marcante para todos aqueles que estudam e praticam essa arte milenar.
Vale destacar dentre os seus espetáculos em repertório “Partituras”, pela beleza cênica das máscaras de Bali, tendo a Lua como fio condutor; “Uma Viagem no Tempo”, pela qualidade e sutilezas do texto e pela riqueza de detalhes na composição no cenário e nos figurinos – característica, aliás, de praticamente todas as suas montagens – e “Sono e Sonhos” pela delicadeza e bom gosto em abordar o universo infantil, com suas descobertas e seus medos.
Quando o grupo começou muitos de nós ainda desconhecíamos os apelos das realidades virtuais, incumbidos de proporcionar ao cidadão a sensação de estar sintonizado com o mundo. Com as novas mídias, o teatro ocupa agora um espaço diverso na sociedade moderna. Vivemos um momento de reconstrução de sua função, em uma sociedade com tantas ofertas de consumo. Afinal, se não se tornar um local de reflexão sobre a existência e a sociedade, acabará sendo consumido como um entretenimento vazio.
Que o grupo continue então em sua rica trajetória. Que venham mais 25 anos de todas as conchas e de belos espetáculos!
*Autor é gestor cultural, diretor de teatro, dramaturgo e tradutor.