A primeira sessão plenária do ano na Assembleia Legislativa deixou duas sensações no ar. A primeira é que o bloco de oposição ao governo Paulo Hartung (PMDB) voltou do recesso animado. Seus poucos integrantes vieram para 2018 com a faca nos dentes e mostrando-se dispostos a bater ainda mais no governo do que já vinham fazendo em 2017. A segunda sensação é que o governo Paulo Hartung simplesmente não está nem aí para isso. Vai deixar os opositores falarem sozinhos no plenário.
Na fase das comunicações, os deputados Euclério Sampaio (PDT), Josias da Vitória (PDT) e Sergio Majeski (PSDB) se sucederam na tribuna, todos fazendo pronunciamentos duríssimos e repletos de críticas à administração de Hartung. Até o deputado Freitas (PSB), normalmente mais tímido no plenário apesar de ser do partido do ex-governador Renato Casagrande, pediu um aparte a Euclério para criticar a ordem do governador Paulo Hartung, dada no início de janeiro, para que secretários enfim acelerem os investimentos nos seis primeiros meses deste ano – últimos meses antes da realização das convenções e da campanha eleitoral.
Todos os deputados da base, que formam ampla maioria em plenário, ouviram a tudo passivamente. Nem o líder do governo, Rodrigo Coelho (PDT), nem o vice-líder, Jamir Malini (PP), esboçaram reação. Nessa fase da sessão, anterior à das votações, o único deputado governista a discursar, interrompendo a artilharia dos oposicionistas, foi José Esmeraldo (PMDB), mas ele não assumiu o papel de advogado de defesa.
Em seguida votaram-se os projetos em pauta, fase que durou poucos minutos, e passou-se ao momento reservado aos pronunciamentos dos líderes partidários. O líder do governo podia ser o primeiro a discursar, mas se absteve de usar a palavra. Aí Majeski voltou à tribuna e, comentando o aniversário de um ano da greve da PM-ES, disparou o seguinte: “Se ali houve culpa dos policiais, culpa maior teve o governo, que não teve habilidade para dialogar. Se os policiais são punidos, o governador e o secretário de Segurança precisam ser punidos também. Se não são punidos pela lei, que sejam punidos pelas urnas porque são culpados, sim”.
Neste momento, intencionalmente ou não, Coelho evidenciou a estratégia do “tô nem aí”. Sentado à Mesa Diretora, na cadeira do presidente, manteve-se de costas para Majeski, conversando tranquilamente com Padre Honório (PT).
Questionados pela coluna, tanto o líder como o vice-líder afirmaram que não há orientação específica do governo para que eles ignorem as críticas dos opositores, mas que preferem não responder a esse tipo de fala em plenário, para não dar mais palanque aos adversários. O raciocínio é: se eles não rebatem as acusações no ato, o discurso da oposição morre ali; se revidam, porém, podem alimentar um debate, fazendo com que o discurso adversário alcance maior repercussão.
“Não respondemos por não querermos esticar a corda em um assunto que não vemos fundamento. A reclamação é aberta, é democrática. A gente deixa os colegas de oposição reclamarem. Eles têm direito de fazer isso. Esse crescimento do governo Paulo Hartung que temos sentido tem incomodado a base contrária do governo. É normal isso”, diz Malini.
Coelho é mais enfático: não vai retrucar nem entrar em polêmicas, pois acha que não adianta tentar convencer quem tem posição pré-formada. “Nós não queremos polemizar posições. Queremos fazer um debate com a população dos feitos do governo nos canais a que temos acesso, porque aqui nós podemos polemizar posições que não mudaremos. Então esse não será o nosso foco, porque isso vai permitir um canal que não nos interessa. Vamos fazer a discussão com as pessoas interessadas lá na ponta com a qual os projetos têm relação.”
Conclusão: o governo está no modo “deixa que falem à vontade”. Não vai debater com a oposição no Parlamento.
Líder: "fóruns adequados"
Rodrigo Coelho destaca: “As posições dos parlamentares em relação ao governo, cada um tem uma posição, e nós não vamos polemizar isso aqui na tribuna. E vamos fazer os debates sobre os feitos do governo nos fóruns que para nós adequados, no objetivo de tentar fazer o convencimento das pessoas da qualidade das ações que estão sendo implementadas”.
Perda de importância
As considerações de Rodrigo Coelho deixam claro que o governo Paulo Hartung vai seguir ignorando os pronunciamentos dos deputados de oposição na Assembleia. Vai debater em “outros fóruns”, “outros canais”, mas não no Parlamento. Se o governo acha que pode dar a mínima para o que diz a oposição na Assembleia, deve ter elementos para concluir que o estrago representado por esses pronunciamentos é pequeno. Sinal de que a Assembleia talvez tenha perdido peso como espaço primordial do debate político no Estado e deixado de ser a maior caixa de ressonância da população capixaba.
PH e o mercado
Autor de palestras para investidores e executivos dos bancos Brasil Plural e BTG Pactual, ontem, o governador PH repete o que ensaiou em 2016: projeção nacional pelas mãos do setor financeiro.