Cariê Lindenberg*
Não é apenas o direito de ir e vir dos brasileiros que ainda está sendo testado e medido com os piquetes de greve instalados nas rodovias do país. Esse sagrado direito preservado na Constituição é um dever primário do Estado. Cumpre aos governantes providenciá-lo em qualquer circunstância, até mesmo pela força, para fazer cumprir as decisões judiciais.
O movimento paredista está desde seu início sendo debitado equivocadamente apenas aos caminhoneiros, já que demoraram muito a responsabilizar as empresas pelo locaute fantasiado de greve. Entretanto, a categoria advertiu explícita e antecipadamente o governo de seus problemas através de dois documentos, antecipando inclusive a data da greve de proporções impensáveis. Aos costumes, contudo, o governo esteve mais ocupado e empenhado em debelar a anunciada crise decorrente da terceira denúncia prevista contra o presidente. Os responsáveis por esse desfecho infernal desdenharam da capacidade da categoria patronal de produzir efeitos tão desesperadores quanto esses que estamos vivendo. E estamos aprendendo lições inesquecíveis.
Devemos nos conscientizar de que o transporte é algo extremamente mais necessário e insubstituível do que um governo ineficaz e estático, ainda carente de um comando mais eficaz que imponha a ordem. Por outro lado, é mister que se deplore a insensibilidade inescrupulosa de quem se aproveita desse deletério espetáculo. Essa inflação artificial dos preços essenciais em feiras livres, supermercados e bombas de combustíveis é o exemplo do que jamais poderia ser aproveitado para praticar a lei inexorável da economia, a da oferta e da procura.
O povo paga o preço de abusarem cada vez mais da prática do “aproveitamento do êxito”, como se costuma fazer nas guerras. A consequência é a exasperação dos brasileiros. Estamos todos certamente muito mais desnorteados do que os ocupantes dos quadros governamentais que dialogam inutilmente com farsantes em vez de cuidar com mais atenção e decisão da serena normalidade do país.
O governo federal pecou em não oferecer diálogo no tempo oportuno, quando deveria ter avaliado e negociado serenamente as mazelas contidas nas várias advertências da classe empresarial, até mesmo aos próprios grevistas e caminhoneiros que querem trabalhar exercitando o direito de ir e vir.
A falta de escrúpulos persistiu até após o governo ceder e atender às exigências da categoria. Para minorar as penúrias da urgência do abastecimento, foi preciso que o poder público lançasse mão de uma operação logística escoltada. Uma vez mais o governo federal se descuidou. Preferiu manter um interminável diálogo com supostos impostores inconfiáveis – que não comandam mais nada nem ninguém – a dispersar os piquetes ou conter os grevistas, medidas bem mais eficazes.
* O autor é empresário