Além do pouco carisma, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, precisa superar uma grande dificuldade para conseguir fazer a “campanha de chegada” que visualizou na última quinta, durante visita a Vitória: neste cenário tão polarizado entre petistas e antipetistas, nessa dicotomia (muito artificial) criada entre “direita” e “esquerda”, o PSDB ficou meio no limbo, para o qual sua candidatura também acabou arrastada.
Nascido em 1988 como partido de esquerda e como legítimo representante da social-democracia no Brasil, o PSDB se deslocou para o campo de centro-direita ao longo das décadas de polarização política travada com o PT. Pelo mesmo motivo, o candidato tucano encontra enorme resistência por parte dos eleitores identificados com a esquerda. Ali ele não vai atrair votos, até porque esse campo já está superpovoado, disputado por Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), além de Marina Silva (Rede), esta numa posição mais de centro-esquerda.
O que sobra então a Alckmin senão os eleitores situados do centro para a direita? Nesse hemisfério, porém, Jair Bolsonaro (PSL) se estabeleceu e tem se consolidado, “roubando” boa parte do eleitorado outrora cativo do PSDB.
Por isso, como não poderia deixar de ser, a estratégia prioritária da campanha de Alckmin é recuperar eleitores atraídos por Bolsonaro. Estes, simplificadamente, são de dois tipos – além de um terceiro que combina características de ambos. O primeiro é aquele que defende realmente, em alguns casos apaixonadamente, as ideias extremistas do militar da reserva. É aquele eleitor – em geral um homem com boa escolaridade – que concorda ou simplesmente não se importa com as barbaridades ditas pelo candidato, como suas constantes declarações desrespeitosas e discriminatórias contra mulheres, negros e homossexuais. Esse eleitor está lá na extrema-direita, e Alckmin pode esquecê-los.
Mas há um segundo grupo, e este é o que mais nos interessa nesta análise. É o grupo de cidadãos que não aprovam tudo o que Bolsonaro diz – e talvez até se sintam um pouco constrangidos –, mas que decidiram votar no deputado, basicamente, porque estão “pê da vida” com a situação política do país, com o grau de degradação e de corrupção desnudado pela Lava Jato; que não aguentam mais os privilégios e desmandos da classe política; e que resolveram acreditar na promessa de Bolsonaro de que ele é o único em condições de mudar “tudo isso que está aí”. Passaram a enxergar em Bolsonaro o único candidato fora do establishment e portanto capaz de representar uma mudança radical nos rumos políticos do Brasil.
Sim, é um voto com um fortíssimo componente anti-PT – afinal, foi o partido que governou o país em 13 e meio dos últimos 16 anos. Mas é mais que isso: é, acima de tudo, um voto “anticorrupção” e “antissistema”. E é aqui que Alckmin esbarra em uma dificuldade extra. Na visão de grande parte dos eleitores, PT e PSDB são parte desse mesmo sistema – visão essa reforçada pelos anos de polarização entre as duas forças – e mais importante: confundem-se quando o assunto são esquemas de corrupção, numa espécie de disputa informal de “quem roubou mais”: Aécios ou Lulas, Azeredos ou Dirceus?
E aí qualquer tentativa de Alckmin de emplacar um discurso moralizador anticorrupção acaba se voltando contra sua própria candidatura. Mais ainda numa semana como esta, marcada por operações deflagradas pela Polícia Federal que atingiram em cheio dois governadores do PSDB. Por mais que Alckmin, presidente nacional da sigla, procure se dissociar desses fatos, é evidente que eles também afetam a sua campanha.
Tucanos e tico-ticos
Na última terça, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), foi preso por suspeita de arrecadar propina (chamada de “tico-tico”), na Operação Radiopatrulha. No dia seguinte, o do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), teve mandados de busca e apreensão cumpridos em seu gabinete e em seu apartamento, na Operação Vostok, pela mesma razão. Ambas foram deflagradas pela Polícia Federal e apuram esquemas de cobrança de propinas nos dois governos tucanos.
“Vão prestar contas”
Como presidente nacional do partido, fica muito difícil para Alckmin manter a aura de “Santo”. Mas ele se empenha. “Defendo as instituições, transparência absoluta. Todos vão prestar contas. Vida pública é prestação de contas.”
“Nada a ver com isso”
Difícil também se dissociar totalmente da corrupção quando o PSDB apoiou esse governo Temer eivado de denúncias. Mas Alckmin também tem se empenhado em se afastar ao máximo do governo emedebista. Em Vitória, chamou de “ridícula” a PEC do Teto de Gastos.
“Mais com Casagrande”
O prefeito Max Filho (PSDB) disse que apoia Alckmin para a Presidência. “É o mais preparado.” Sobre as eleições estaduais, saiu (um pouquinho) do muro. “Meu movimento está mais próximo de Casagrande”, admitiu.
Max “Muro” Filho
Indagado se isso pode ser traduzido como apoio a Casagrande, o prefeito voltou a se equilibrar: “Tenho muita simpatia pela Rose. Quando ela se filiou ao Podemos (no dia 7 de abril), eu estava na casa dela. E, nessa ocasião, quem estava com ela era o próprio Casagrande.”
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.