Inauguração
No local onde existia o chamado Estádio de Zinco, desde 1910, que o Governador Bley foi construído pelo Rio Branco-ES e erguido entre 1934 e 1936, tornando-se um marco do futebol capixaba. Na época, era considerado o terceiro maior estádio do Brasil, atrás apenas de São Januário, do Vasco da Gama, e das Laranjeiras, do Fluminense, ambos no Rio de Janeiro, então capital federal.
Para Marcus Vinicius Sant'Ana, historiador, mestre em geografia de territórios e especialista em cultura capixaba, a construção da arena quase centenária mostrava a adesão dos capixabas em relação ao esporte e, principalmente, a importância que o futebol local tinha àquela altura.
"O Rio Branco crescia como torcida, o futebol ia crescendo como um esporte realmente popular, e o bairro de Jucutuquara também ia crescendo bastante, tudo na mesma medida. Então surgiu-se a necessidade de se ampliar o Estádio de Zinco. E aí, com os esforços dos torcedores e dos dirigentes, principalmente um homem chamado ‘China’, que investiu dinheiro próprio no estádio, houve a construção em 1936", disse Marcus.
Foi no dia seguinte à sua inauguração que o Governador Bley recebeu a sua primeira partida de futebol, em 31 de maio de 1936. Na ocasião, o Rio Branco-ES recebeu o Fluminense, em um amistoso interestadual que lotou o estádio. Porém, os cerca de 15 mil torcedores presentes acabaram vendo o time capa-preta ser derrotado por 2 a 0 pelo Tricolor.
O Governador Bley foi palco de muitas conquistas da história do Rio Branco, como o hexacampeonato capixaba, de 1934 à 1939, os seis títulos na década de 1940 e mais quatro na década de 1950.
Impacto geográfico e social na capital capixaba
Além da importância esportiva, o Estádio Governador Bley se consolidou como um dos principais espaços públicos de Vitória ao longo do século XX desde os primeiros anos de funcionamento. A praça teve um papel que extrapolou o futebol e ajudou a moldar o desenvolvimento urbano e a estrutura social da capital capixaba.
Em uma época em que Vitória ainda estava concentrada no Centro Histórico, a construção do estádio em Jucutuquara representou um marco na expansão da cidade para novas regiões. O bairro passou a ocupar posição estratégica no processo de modernização, funcionando como ligação entre o centro antigo e áreas que posteriormente se consolidariam como importantes polos residenciais e comerciais da capital.
A partir disso, o local passou a receber não apenas partidas de futebol, mas também eventos oficiais, desfiles cívicos, apresentações escolares e até cortejos das chamadas ‘Batucadas’, que viriam a se tornar as atuais escolas de samba. Em um período com poucos espaços voltados para grandes eventos, o Governador Bley assumiu a função de centro social e cultural da cidade.
"É legal dizer, por exemplo, que o Morro do Rio Branco, que fica no entorno do Governador Bley, é um dos poucos locais, logradouros do Brasil, que têm um nome por causa do futebol, e não ao contrário. O Morro do Rio Branco tem esse nome porque as pessoas vinham para cá e torciam pelo time de cima do barranco. E aí depois colocam o nome do time no bairro", ressaltou o historiador.
E a relação do torcedor com o morro é ainda mais próxima. Muitos riobranquenses assistiam aos jogos de cima dele, como é o caso da esposa de Derly Soares, dono do Fusca do Brancão. Ela, que vinha de família humilde e, para acomapanhar o time do coração, subia o barranco.
"A única história que eu tenho ali é da minha esposa. Ela tinha aí seus 14, 15 anos, morava ali perto e tinha uma família bem carente, bem simples. Ela ia assistir jogos lá no Governador Bley, em cima do barranco, na parte de trás lá. Quando eu conheci ela, em 1978, ela me contava essas histórias, e foi quando eu comecei a conhecer e torcer pelo Rio Branco", disse Derly.
Quando o Governador Bley recebeu um jogo do Santos de Pelé
O Governador Bley viveu um momento histórico ao receber Pelé para uma partida de futebol. Na ocasião, o Rei marcou seu único gol em solo capixaba, durante amistoso entre Santos e o antigo Santo Antônio, no dia 28 de julho de 1965.
"Foi dentro de um contexto muito específico de salvar as finanças do Santo Antônio Futebol Clube. O jogo não ia ser no Governador Bley, mas sim no estádio Rubens Gomes. Acabou que aconteceram alguns problemas logísticos e o jogo foi para o campo de Jucutuquara", explicou Marcus.
O Peixe venceu a partida por 3 a 1. O também campeão mundial Coutinho abriu o placar logo aos cinco minutos de jogo, mas Ciro empatou para a equipe capixaba ainda no primeiro tempo. Antes do intervalo, porém, Coutinho voltou a marcar e recolocou os paulistas em vantagem.
Até aquele momento, Pelé tinha atuação discreta, o que começou a gerar insatisfação entre os torcedores presentes no Governador Bley. Depois de provocações vindas da arquibancada, o eterno camisa 10 santista marcou, aos 28 minutos do segundo tempo, gol que seria o seu 736º da carreira.
Venda do estádio e afastamento do Rio Branco
Em 1972, durante a gestão do presidente Kleber Andrade, o Rio Branco-ES decidiu vender o Governador Bley, como parte de um projeto mais amplo de expansão do clube. Naquele período, o clube vivia uma das fases mais vitoriosas de sua história, tendo vencido sete Estaduais em dez anos, e a diretoria estudava a construção de um estádio maior na região conhecida como bairro da Bomba, na altura do atual bairro de Santa Luíza, em Vitória, mas o projeto não avançou.
Mesmo após a negociação, o estádio continuou sendo utilizado pelo clube até 1974, ano em que recebeu suas últimas partidas oficiais. A partir dali, o Brancão passou a mandar os jogos no Estádio Engenheiro Araripe, da Desportiva Ferroviária, e transferiu o terreno do antigo estádio para a iniciativa pública e direcionou os investimentos para uma nova área em Campo Grande, Cariacica.
"Eu digo que foi uma iniciativa ousada. O Rio Branco tem a maior torcida do estado, mas a gente vê em Jucutuquara e no entorno de Vitória uma torcida muito territorializada. Então esse rompimento pode ter significado um relativo afastamento de parte da torcida. Mas, para a época, fazia total sentido. Diante do tamanho da torcida do Rio Branco e de um cenário que é completamente diferente de hoje: dos times capixabas figurando na primeira divisão do Campeonato Brasileiro", concluiu o mestre em geografia.
Últimos jogos no Governador Bley
Os dois últimos jogos da história do estádio Governador Bley aconteceram em 1975 e reuniram grandes equipes do futebol sul-americano em amistosos que marcaram a despedida do tradicional palco esportivo de Jucutuquara. O primeiro deles foi no dia 23 de janeiro, quando o Rio Branco-ES empatou em 1 a 1 com o Defensor, um dos maiores clubes do Uruguai.
Pouco tempo depois, no dia 6 de fevereiro, o o estádio recebeu sua última partidaantes do encerramento das atividades esportivas. Em uma noite histórica, o Rio Branco venceu o Cruzeiro por 2 a 1, de virada, em amistoso disputado diante de arquibancadas lotadas. A equipe mineira contava com nomes importantes do futebol brasileiro, como Dirceu Lopes, Piazza e Raul, mas o Capa-Preta reagiu após sair atrás no placar e encerrou a trajetória do estádio com uma vitória emblemática diante da Raposa.
O Governador Bley hoje
Desde a venda do Governador Bley, em 1972, o estádio passou a fazer parte da estrutura da então Escola Técnica, atual Instituto Federal do Espírito Santo - Campus Vitória. Ao longo das décadas, o espaço deixou de receber partidas profissionais e passou a ser utilizado para atividades esportivas, projetos educacionais e a formação de gerações de estudantes.
Recentemente, em 2019, o Rio Branco-ES chegou a anunciar que voltaria a utilizar as dependências do estádio, mas como local de treinos para o Estadual daquele ano. A escolha de “voltar para casa” seria mais uma ação do chamado "Projeto Loco Abreu", iniciativa lançada pelo clube após a contratação do experiente atacante uruguaio, mas não a ideia não foi para a frente.