
Thiago Barbosa*
Quase que indizível a tragédia do Museu Nacional no Rio de Janeiro, uma perda sem tamanho para o patrimônio histórico do país. Os 200 anos de dedicação à preservação do conhecimento foram consumidos pelo fogo no final de semana, efeito de uma resiliência comunitária atrofiada, dia a dia, como que a pinçadas e com muita indignação por conta da negligência de quem prometeu cuidar.
Se nunca ouviu falar de resiliência, a grosso modo podemos dizer que é a capacidade de alguém enfrentar os desafios e imprevistos com menos desgaste (porque ele vai haver), o que só dá para acontecer se o indivíduo possui um bom conhecimento de sua capacidade e limitações.
No coletivo, a chamada resiliência comunitária, falo de como a nação se vê, como cuida de sua identidade cultural, o seu sentimento de pertença e a noção de que a atuação individual afeta a sociedade como um todo.
Pergunto: será que ela existia? O cotidiano me prova o contrário: a cidadania já se liquefazia dia a dia com os tantos jeitinhos que acontecem Brasil adentro para "ninguém sair perdendo", a nossa falta de crença em nós mesmos só aumentando com o consumo e hiperestima da cultura alheia e o desejo de "sumir" para outro país quase gritado pelas vias públicas.
Sem exageros, é o que ouço de amigos por aí e cato de conversas paralelas no ônibus. A nação já lutava contra a falta de incentivo e da inabilidade de apostar na sua própria criatividade tão múltipla. Vide a dificuldade de se difundir cultura e o cansaço de quem se esforça pra mudar esse quadro tão sintomático.
O Brasil vem somatizando em seu corpo geográfico todos os sinais de que algo não vai bem. E tem tempo, não é de agora. Afinal, não lhe é permitida a melhora numa espécie de descompromisso com o futuro enquanto que repete erros passados.
As memórias não têm valor, o autocuidado não existe e as perspectivas são tão incertas quanto cinzas ao vento. Sem cuidado, sem história e sem memória o Brasil sofre de uma profunda depressão.
*O autor é psicólogo clínico