Fernando Pessoa, dizem, encontrou-se uma única vez com Sigmund Freud, e por acaso, em um restaurante do Chiado, em Lisboa. Não tenho notícia se tiveram qualquer discussão ou conversa sobre a psicanálise.
Sabe-se que o escritor português opinava, aqui e ali, sobre a novidade que eclodiu na Europa, pelo menos nas classes raciocinadoras: o descobrimento do inconsciente. Se considerarmos que a poesia é uma forma simbólica de falar, pode-se dizer, quem sabe, que Pessoa falava em versos a partir de uma instância inconsciente.
Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, em Lisboa, e morreu em Londres, no dia 30 de novembro de 1933. E Sigmund Scholomo Freud já estava nesse mundo de descobertas, pois morreu em 23 de setembro de 1939. Apesar da distância, não é difícil perceber que aqui e ali as ideias se entrelaçavam, sem que isso gerasse risco ou reconhecimento a respeito. Mas às vezes ocorria, mesmo sem exatidão acadêmica. Sabemos nós, navegar não é preciso.
Certa vez rabiscou Pessoa: “Ora, a meu ver – que é sempre a meu ver – o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo. É imperfeito se julgamos que nos vai dar a chave, que nenhum sistema nos pode dar, sobre a complexidade indefinida da alma humana”.
“É utilíssimo porque chamou a atenção dos psicólogos para três elementos importantes na vida e na alma, e, portanto, na interpretação. E a sexualidade, cuja importância havia sido, por diversos motivos diminuída ou desconhecida anteriormente, reapareceu”.
Finalmente, Fernando produziu o que chamou de “Translação”, ou seja, a conversão de certos elementos psíquicos, não só sexuais, em outros, por estorvo ou desvios dos originais. Lançou a possibilidade de determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de elementos do pensar, que de alguma maneira se relacionam com o irrrelacionado.
Não sei se Fernando ou um de seus heterônimos - Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos – é o autor da observação sobre a natureza humana: na classificação dos sistemas filosóficos temos a considerar duas coisas, a constituição do espírito e o cerne da ideação metafísica.
Teria pensado Pessoa em uma via direta do inconsciente à palavra?
Em uma das vezes que estive em Lisboa, visitei seu monumento, uma casa modesta, subindo a rua da ladeira. Estava em companhia de João Martins.
Depois vim a saber que o único livro sobre Psicanálise que havia na casa era assinado por Freud.
Viver é preciso.