Quando Mark Zuckerberg e seus amigos lançaram o Facebook, em 2004, eles imediatamente se surpreenderam com a facilidade com que as pessoas lhes confiavam informações pessoais e abriam mão de suas privacidades. A constatação inicial já permitia vislumbrar uma poderosa máquina de fazer dinheiro, principalmente, a partir de um revolucionário e personalizado marketing de vendas.
Quatorze anos depois, passamos a ter a certeza de que essa poderosa máquina de informações pessoais seria mais do que uma arma de marketing e vendas. O escândalo protagonizado pela empresa de consultoria Cambridge Analytica, acusada de ter invadido e manipulado dados de 50 milhões de pessoas, revela o quanto mais perigosa se tornou a rede social daqueles jovens universitários. Tudo indica que foi, ao menos em parte, graças à interferência da Cambridge Analytica (com ou sem o consentimento do Facebook?) que os Estados Unidos elegeram o presidente errado, e que o Reino Unido interferiu no destino da União Europeia, a partir da votação do Brexit.
Antes das eleições norte-americanas de 2016, o tecnólogo formado no MIT, Aviv Ovadya, alertou sobre o perigo das fake news. Agora, ele volta para chamar a atenção sobre o que chama de “Infocalypse”. Aviv e alguns seguidores apontam um futuro distópico em que ferramentas impulsionadas pela inteligência artificial e máquinas integrantes de uma rede neural (capaz de aprender sem supervisão humana: GAN – Rede Adversária Gerativa) podem acabar com a pedra fundamental do fato jornalístico: a credibilidade.
O princípio deste “Infocalypse” baseia-se na ideia de que o excesso de fake news leva o público a acreditar que nada é real. Seria o “Fake News Horror Show”
Neste cenário, haveria uma tempestade de desinformação constante que provocaria a desistência das pessoas em se informar ou de prestarem atenção às notícias. O princípio deste “Infocalypse” baseia-se na ideia de que o excesso de fake news leva o público a acreditar que nada é real. Seria o “Fake News Horror Show”!
O futuro apresentado por esses visionários do caos informativo revela-se plausível. Já há diversas ferramentas informacionais que permitem a manipulação perfeita de imagens e áudios que tornam praticamente impossível separar o falso do real. Por exemplo, uma espécie de photoshop de áudio que sincroniza movimentos labiais permitindo inserções de recortes de falas que fazem com que autoridades, por exemplo, apareçam dizendo coisas que nunca falaram. Neste cenário, alguém pode ofender um inimigo e provocar uma guerra, sem que jamais o tenha feito...
Outras ferramentas de vídeo tiram e colocam pessoas na cena, assim como trocam cabeças e corpos, não da maneira grosseira que já vemos por aí, mas com produção e técnica sofisticadas.
A solução apontada por este pesquisador, num raro momento de pouco pessimismo, é chamar a atenção das pessoas e autoridades para as implicações morais e éticas dessas ferramentas. As fake news poderão ser algo ainda muito mais grave do que jamais poderíamos prever. Mas Aviv Ovadya está gritando, novamente!
*O autor é jornalista e professor de Jornalismo da UVV