
Vitor de Angelo*
Em meio à paralisação dos caminhoneiros, eis que surgiram, aqui e ali, pessoas afirmando estarmos diante de um movimento parecido com o de 2013 – uma espécie de “novo R$ 20 centavos”. O paralelo entre essas duas conjunturas parece ser um exagero.
Há cinco anos, foi um movimento de esquerda, com pautas progressistas, já antigas e razoavelmente abrangentes que tomaram as ruas de algumas metrópoles brasileiras para manifestar contra o aumento no preço da passagem do transporte público. O governo Dilma, então no seu terceiro ano de mandato, tinha aprovação superior a 60%.
Mas, aos poucos, as manifestações foram ganhando novos apoios, diluindo o conteúdo da agenda dessa “nova esquerda” e conferindo às manifestações um caráter cada vez mais ao centro e, em alguns casos, à direita. As novas pautas estavam ligadas à redução de impostos e ao combate à corrupção, dentro da lógica da melhoria da qualidade de vida. Tudo isso, com um forte componente crítico às instituições políticas e ao governo do PT, em particular.
Algumas lideranças dos atuais protestos também estiveram à frente da paralisação de caminhoneiros ocorrida em 2015 em apoio ao impeachment de Dilma
Hoje, não só alguns elementos próprios daquela conjuntura desapareceram, a exemplo de um governo petista, como a deflagração dos atuais protestos parece ter começado exatamente onde terminaram os de 2013, isso é, na perda de espaço de atores e pautas à esquerda.
Algumas lideranças dos atuais protestos também estiveram à frente da paralisação de caminhoneiros ocorrida em 2015 em apoio ao impeachment de Dilma, revelando as conexões políticas de parte do setor, ao menos, com a base social e econômica mais ampla que apoiou sua destituição.
Os caminhoneiros parecem contar com certa simpatia da população em virtude de sua oposição a um governo com apenas 5% de aprovação. No entanto, suas pautas são essencialmente setoriais e particularizantes, com fortes indícios, inclusive, conforme investigação do Cade, de envolvimento do empresariado do setor de transportes.
Os protestos não defendem a simples redução da carga tributária regressiva, que penaliza sobretudo os mais pobres, mas, sim, a diminuição dos custos da atividade econômica dos próprios caminhoneiros. A agenda não vai além disso, e atendê-la representará um ônus adicional que será quitado, contraditoriamente, ao preço de novo reajuste tributário a recair sobre os contribuintes. Porém, a um governo fraco politicamente só restará isso ou apelar à força.
*O autor é doutor em Ciências Sociais e professor do mestrado em Sociologia Política da UVV