Dez anos? O tempo está de sacanagem, Doutor.
Sei que não gosta de botar futebol no meio de coisa séria e institucional como mesa de bar, mas, com licença, vou ligar para atleticano Reinaldo, um dos melhores caras que você me apresentou naquela viagem & delírio em BH. Galooo!
A democracia, meu velho, é que não anda tão bem das pernas. Vez por outra sofre uma falta bruta do elenco dos quartéis. E em uma grave hora no começo de 2020 — você vai vibrar com essa! —, sabe quem saiu para defendê-la? A Gaviões da Fiel, camarada, em uma aliança inédita e urgente com as alas que se proclamam antifascistas das torcidas do Palmeiras, Santos e São Paulo.
Nunca testemunhei cena tão comovente, Magrão. Vai se danar, mas recordo que eu dizia ser algo parecido com um filme do Frank Capra. Você corrigiu: “Na hora eu só pensei no Carlitos, no Chaplin, porra”.
O Mazinho? Não conseguiu vender ainda as terras que herdou do cacique. Deixa quieto, Doutor, que figura o velho Maza. Outro dia, fizemos um “zoom” com o Gustavo e o Duzão, tuas belas crias, só para tirar uma buena onda.
Indispensável dizer que passar nas calçadas dos nossos bares é um motivo de muita alegria, Magrones. Cada lembrança que daria um livro da Sherezade e as mil e uma noites.
Na sua ausência, andei lendo e relendo até as biografias. Óbvio que fiquei pensando no que o amigo diria pela minha escolha de leitura: “Ô maluco, cê também perde tempo com a vida de qualquer tranqueira, né não?”
Relaxa, Doutor, saiu agora a tradução ao português do livro do escocês Andrew Downie, “Doutor Sócrates” (Grande Área). Aproveitei o embalo e peguei de novo o “Sócrates” (Objetiva) do Tom Cardoso. Com o intimismo de “Sócrates Brasileiro: minha vida ao lado do maior torcedor do Brasil” (Prumo), da sua Kátia Bagnarelli, em parceria com a jornalista Regina Echeverria, só chorei, pela parte que nos toca e as mensagens nas garrafas (e escritas nos guardanapos) para sempre.
Outro dia o Vladir Lemos veio aqui em casa, a gente reuniu aquelas fitas-cassetes de gravações sem fim dos nossos papos. O Victor Birner está cada vez melhor como comentarista, o bicho é estudioso do esquema, a gente tirava onda e ele abria o sorriso mais generoso do mundo — só a sua cachorra Dayse era capaz de merecer uma recepção mais bonita. Viva nossa bancada no “Cartão Verde” da TV Cultura. O jogo hoje é veloz e segue atropelando na curva.
Ah, Doutor, sei que ficaria chateado que a coisa descambasse para a choradeira, mesmo que tenhamos chorado juntos até em improváveis noites das boates azuladas do interior.
Naquela mesa redonda ou quadrada está faltando Ele. E a saudade Dele, caríssimo Sérgio Bittencourt, está doendo não apenas na massa do Corinthians, mas em todos os torcedores da Democracia Brasileira.