Gênio, artista, autêntico... Há 100 anos nascia Zizinho, um camisa 10 nato que, ao encantar uma geração com seus dribles, não só deixou pinturas nos gramados, mas também foi o "arauto" do que viria a ser um reinado no futebol brasileiro.
Nascido em 14 de setembro de 1921 em São Gonçalo (RJ), Thomaz Soares da Silva foi mestre em dribles e em raça e fez história com as camisas do Flamengo, Bangu e São Paulo. Com grande visão de jogo, toque de bola refinado e personalidade (dentro e fora de campo), alcançou a Seleção Brasileira e ficou para a eternidade por ter um fã nobre: Pelé, o "Rei do Futebol", seu sucessor natural na Seleção.
O técnico Flávio Costa o lançou na equipe e, pouco a pouco, foi se firmando até ganhar seus primeiros títulos. Ao lado de nomes do quilate de Domingos da Guia, Pirilo e Perácio, o camisa 8 conquistou o tricampeonato carioca de 1942, 1943 e 1944.
- Era um jogador extraordinário, um homem muito bom. No tempo no qual conversamos, quando fomos convocados juntos para a Seleção foi muito gratificante. Certamente é um dos meus grandes ídolos - afirmou, ao LANCE!, Evaristo de Macedo, meia que levou o Rubro-Negro à conquista do tricampeonato carioca de 1953, 1954 e 1955.
O impacto de Zizinho se estendeu a quem despertava para sua paixão rubro-negra.
- Zizinho foi meu primeiro ídolo, meu ídolo de menino. Eu era criança, começava a acompanhar futebol pelo rádio e aos poucos ouvia o que ele fazia e era impressionante. Não à toa era o meu "cobra" no botão (risos) - detalhou Washington Rodrigues, comentarista esportivo da Rádio Tupi.
Repórter com passagens pelas Rádios Globo, Nacional, Tupi e por jornais como "Última Hora" e "O Globo", Deni Menezes detalhou como o "Mestre Ziza" era querido.
- Assim que iniciei na Rádio Nacional, em 1958, conversei com colegas que viram a geração de ouro dos anos 1940 e 1950, entre eles o Jorge Curi (locutor esportivo), com quem cobri em 1970 minha primeira das oito Copas consecutivas que fiz. Quando perguntava sobre Zizinho, dizia logo: "Mestre "Ziza" foi um monstro" - destacou.
Suas atuações no Rubro-Negro levaram o camisa 8 a ter as primeiras oportunidades com a camisa da Seleção Brasileira. Além de ter disputado edições do Campeonato Sul-Americano, jogou a Copa Roca (duelo entre Brasil e Argentina, hoje "rebatizado" de Superclássico das Américas) e se mantinha em alta forma. Contudo, em 1946, veio uma fatalidade: uma dividida com o zagueiro Adauto, do Bangu, causou uma grave lesão.
O meia retornou aos gramados após um longo período mas, logo de cara, fraturou a perna devido a uma entrada que sofreu de João do Morro do Pinto, do America. Em meados de 1947, teve novo retorno a campo pelo Flamengo, mas só alcançou sua boa forma nos dois anos seguintes. Em compensação, Zizinho engatava uma boa sequência de jogos na Seleção Brasileira em um momento decisivo.
O troféu colocaria fim a uma longa seca brasileira, que não conquistava a competição desde a edição de 1922. A expectativa pelo título na Copa de 1950 se acentuou.
O meia foi decisivo, ao marcar na vitória por 2 a 0 sobre a Iugoslávia, em jogo que valia a vaga para o quadrangular final. Depois, deixou o seu no 6 a 1 sobre a Espanha. No jogo decisivo no Maracanã, bastava um empate para a Seleção Brasileira e Friaça abriu o marcador. Mas Schiaffino e Ghiggia selaram a derrota por 2 a 1 para o Uruguai naquela que seria a mãe de todas as derrotas de uma Seleção.
Deni Menezes contou como o "Mestre Ziza" (apelido que ganhou no Mundial realizado no Brasil) abordava este assunto.
- Zizinho disse que o abatimento foi normal por um certo período, praticamente repetindo o que me disse Barbosa, com que estava sempre no Maracanã. Invadiram a concentração de São Januário no domingo da final. Os políticos queriam aproveitar a situação e aí ele desabafou: "Não tivemos paz nem na hora do almoço". Ele me contou também que, ao passar pela Quinta da Boa Vista, o ônibus enguiçou e alguns jogadores desceram para empurrar... - contou.
Mesmo recolhendo os cacos do título, o craque saiu da competição com grande notoriedade. Jornalista que cobriu a Copa pela "Gazzetta dello Sport", Giordano Fatoria afirmou: "O futebol de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando alguma coisa rara".
- Os outros jogadores do Bangu é que tiveram de se adaptar a ele - garantiu o radialista Deni Menezes.
O meio-campista chamava atenção por manter sua categoria com a camisa banguense.
- Quando comecei a frequentar o Maracanã, o Zizinho já jogava no Bangu. E impressionava a visão de jogo fora do comum, sabia sempre o que fazer antes do marcador chegar. Além disto, ele não perdia a viagem. Partia com tudo, apanhava, mas batia - recordou Washington Rodrigues, o "Apolinho".
O encanto com o futebol do "Mestre Ziza" era nítido entre os torcedores em Moça Bonita.
- Os torcedores do Bangu o acompanhavam até mesmo nos treinos, como me disse anos depois o presidente Fausto de Almeida - detalhou Deni Menezes.
Na equipe alvirrubra, Zizinho formou a linha de frente com Moacir Bueno, Menezes, Vermelho e Nívio. O Bangu foi finalista do Carioca de 1951 (perdido para o Fluminense). Já em 1952, "Ziza" e Nívio marcaram, cada um, 19 gols no Carioca. A postura de goleador fez com que Zizinho se destacasse em sua passagem no clube, onde anotou 120 gols.
DESAVENÇA E BOICOTE NA SELEÇÃO BRASILEIRAInsubordinação fez José Lins do Rêgo causar afastamento de Zizinho da Seleção (Fotos: Reprodução/ saopaulofc.net; Acervo/Museu José Lins do Rego/Funesc)O desempenho no Bangu levou Zizinho a ser convocado para a Seleção Brasileira. Capitão da equipe de Aimoré Moreira, atuou ao lado de nomes como Didi, Nilton Santos e Julinho Botelho, mas sua participação foi afetada por problemas de fora de campo.
Além de jogar no sacrifício e contestar métodos dos médicos, o meia queixou-se do valor do "bicho". Chefe da delegação, José Lins do Rêgo (escritor que tem entre suas obras "Riacho Doce e "Fogo Morto") e o treinador Aimoré Moreira escreveram um relatório no qual criticaram o meia e o responsabilizaram pela derrota por 3 a 2 para o Paraguai no jogo-desempate que valia o título.
O "Mestre Ziza" ficou de fora da Copa do Mundo do ano seguinte. Anos depois, ele retornou e ganhou outras competições de menor porte, como Taça Oswaldo Cruz e Copa Rio Branco.
E ele entrou para a equipe não perder mais: foram dez vitórias e dois empates. O Tricolor paulista colecionou resultados expressivos nas primeiras partidas. Logo na estreia, um 4 a 2 sobre o Palmeiras. Em seguida, um 7 a 1 no XV de Novembro.
Diante do Santos, Zizinho mediu forças com Pelé, seu súdito que se tornaria "Rei". O time comandado por Béla Guttmann venceu por um sonoro 6 a 2 o Santos. De tanto perseverarem, os tricolores levaram o Paulistão com um 3 a 1 sobre o Corinthians.
TÍTULO E ÍDOLO QUE NÃO SAEM DA CABEÇA DE UM ILUSTRE SÃO-PAULINO'Deveria haver um panteão para um grande mestre do futebol como Zizinho', declarou Tony Ramos (Montagem LANCE!)A elevação que Zizinho trouxe para o futebol do São Paulo povoou a mente de um jovem torcedor da época. O ator Tony Ramos, que tinha nove anos, até hoje guarda na ponta da língua a escalação da equipe campeã de 1957 e detalha o jeito do "Mestre Ziza" jogar.
- O time maravilhoso contou muito com a qualidade do Zizinho. Mesmo já na reta final da carreira, dava gosto vê-lo jogando de cabeça erguida, conduzindo a equipe, com força, com brio - disse.
Aos seus olhos, o ídolo de Pelé merece todas as honrarias.
- Deveria haver um panteão para um grande mestre do futebol como Zizinho. Ele, assim como Didi, Nilton Santos, Garrincha e tantos outros trazem a mística do futebol brasileiro - afirmou o ator, que está no filme "45 do Segundo Tempo", de Luiz Villaça, curiosamente interpretando um palmeirense.
Com trabalhos marcantes em sua carreira, como os filmes "Se Eu Fosse Você", o Antenor em "Paraíso Tropical", o Opash em "Caminho das Índias" e o Juca de "A Próxima Vítima", o ator conta uma peculiaridade sobre Zizinho.
- Além de um grande jogador, sempre foi muito articulado. Era muito comum vê-lo em teatros, gostava de frequentar. Uma pena que nunca coincidiu de assistir a uma peça comigo em cartaz. Seria um grande prazer, pois era uma pessoa fantástica - declarou.
Após Zizinho sair do São Paulo, ainda jogou por clubes como Uberaba e Audax Italiano (CHI), onde pendurou suas chuteiras no início da década de 1960. Trabalhou como Fiscal da Fazenda do Rio de Janeiro. Em 8 de fevereiro de 2002, morreu aos 80 anos, em Niterói, em decorrência de uma parada cardíaca.
- O Zizinho foi expulso no intervalo! Na penúltima rodada do segundo turno, no Maracanã, o Bangu vencia o Vasco por 1 a 0, com gol de Wilson, quando o árbitro marcou pênalti para a equipe cruz-maltina. Vavá foi e converteu. Na saída para o vestiário, Entrevistado pelo repórter Luis Fernando, da Rádio Continental, Zizinho soltou os cachorros e finalizou: "Esse é o famoso Larápio de Queiroz que a gente já conhece!" - recordou Deni Menezes.
Ao retornar ao gramado, o meia se descontrolou com o árbitro pela maneira como estava conduzindo a partida e isto custou sua expulsão de campo. O Vasco virou o jogo para 2 a 1 e se sagrou campeão carioca com uma rodada de antecedência.
Já Washington Rodrigues destacou um dia no qual foi surpreendido por uma constatação do ex-meia.
- Ele gostava muito de assistir a jogos do Maracanã, qualquer tipo de jogo. Aí, enquanto a partida corria, olhou para o campo e exclamou meio que para ele mesmo: "nasci na época errada, os caras hoje ganham bem mais do que na minha época" (risos). Agora, você imagina o que ele não falaria com os salários de hoje, com Neymar, Gabigol? - brincou o "Apolinho".
Um dos fãs do "Mestre Ziza" que entraram para a história da Seleção Brasileira, Amarildo é categórico ao valorizar o impacto do atleta na sua carreira.
- Ele foi meu professor. Quando o enfrentava às vezes no meu início de carreira, podia ver de perto o estilo dele e tentava aprender como o Zizinho fazia aquelas jogadas. Ele era daquelas pessoas que só ensinam com o olhar - declarou.
O "Possesso", campeão da Copa do Mundo de 1962, ainda exaltou outro aspecto que aprendeu em campo.
- Tem qualidade e sabe que precisa aprimorar seus fundamentos dia a dia, manter a essência, a identidade do seu jogo. Ele é um dos jogadores que ficam para a eternidade do futebol - complementou.
A genialidade do "Mestre Ziza" continua a emocionar quem gosta do futebol brasileiro.