Um verdadeiro exército da fé se formou ao longo dos anos no Espírito Santo. São cerca de 15 mil pastores espalhados por todos os cantos dos municípios capixabas. O número de líderes evangélicos é tão alto que se tornou 45 vezes maior que o de padres, que somam 333 no Estado. Muitos pastores, entretanto, lideram comunidades sem nenhuma formação teológica e se tornaram a única referência das comunidades.
Os dados do número de pastores foram disponibilizados pela Revista Comunhão, especializada em conteúdos cristãos, com base no cruzamento de informações entre as denominações evangélicas e grupos religiosos. Já o levantamento sobre a quantidade de padres foi repassado pela Arquidiocese de Vitória e pelas dioceses de São Mateus, Cachoeiro de Itapemirim e Colatina.
Professor de Teologia e Filosofia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Gerson Moraes entende que essa diferença do número de pastores e padres está associada a diversos fatores. Um deles foi a migração das pessoas do campo para a cidade, que provocou crescimento considerável do número de igrejas evangélicas a partir de 1950 e, consequentemente, o de pastores. A população encontrava na igreja um local de acolhida e de identidade.
“Nas igrejas católicas existem regras e hierarquia que impediram o crescimento exponencial dos líderes, enquanto a formação em algumas denominações evangélicas é rápida. A partir da vinda das pessoas para a cidade, as igrejas evangélicas foram crescendo e em todas sempre havia um pastor. Em muitos ministérios independentes as pessoas se organizam em torno do carisma de um líder, que se diz dono de uma revelação, passando a se tornar pastor”, explica o professor.
Em muitos casos, segundo Moraes, as igrejas e líderes evangélicos também surgem da divisão, seja por discordarem da interpretação da palavra ou da condução da igreja em diversos outros temas. O pastor da Igreja Assembleia de Deus Rodolmario Almeida dos Santos, de 48 anos, se tornou um líder evangélico ao querer aprender mais sobre a bíblia em 2010. Para isso, estudou Teologia e passou a pregar na Igreja do Evangelho Quadrangular, inclusive era o responsável pela formação de novos líderes.
Na igreja permaneceu até 2015, quando ele decidiu sair por não consentir com as decisões que a igreja tomou. Para continuar na pregação, fundou a igreja Assembleia de Deus em Jockey de Itaparica, em Vila Velha, após seguir todos os trâmites para ser consagrado pastor pela denominação. A escolha foi feita por acreditar no trabalho da instituição, seguir a mesma linha de pensamento e por valorizar, principalmente, o trabalho social.
FORMAÇÃO
O professor de Teologia e Filosofia da Mackenzie acrescenta que outro fator para o abismo entre o número de pastores e padres é a formação longa exigida para o sacerdote, que dura em média de 7 a 10 anos. Somente no seminário realizam, em um ano, o curso propedêutico, introdutório antes dos cursos superiores de Filosofia e Teologia. Após o término das duas graduações ele é ordenado diácono e somente um ano depois é ordenado padre.
O professor de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutor em ciências da religião, Edebrande Cavalieri concorda que o tempo de formação aumentou consideravelmente essa diferença. Ele avalia que é um problema ter um grande número de pastores, principalmente quando muitos deles não possuem uma formação adequada para exercer o papel intelectualmente, teologicamente e historicamente.
O professor destaca que os líderes religiosos devem sempre estar preparados devido a grande importância social, pois a fé tem um significado na vida das pessoas, servindo, inclusive, para orientá-las nas tomadas de decisões. Alguns dos fatores que levam as pessoas a buscarem ajuda na vida espiritual é de ordem financeira e social, como a carência, pobreza e a doença.
INFLUÊNCIA EVANGÉLICA
Os líderes religiosos, inclusive, têm influência no bairro, na cidade e até nas decisões políticas do país. Em relação aos evangélicos, estudiosos identificaram que o crescimento tem sido acompanhado do aumento de sua presença em espaços institucionais como o Congresso Nacional, por exemplo. A bancada evangélica no Congresso possui 195 dos 513 deputados, o equivalente a 38% do total de parlamentares.
“Talvez o segmento religioso seja o que exerça maior influência sobre as pessoas. Imaginávamos há 50 anos que a religião fosse desaparecer, mas ela está com muita força e ainda exerce um papel forte na vida social das pessoas e até nas decisões políticas, como vemos no Brasil. Por isso, quem trabalha com a fé precisa ter responsabilidades éticas e morais enormes”, ressalta Cavalieri.
No Espírito Santo, o Censo do IBGE mostra que houve crescimento de 50% do número de fiéis evangélicos no período de 10 anos. No Censo de 2000 foram 773.129 mil pessoas que se declararam evangélicas. Em 2010 (último Censo realizado) esse número saltou para 1.164.242 milhão de pessoas, o que correspondia a 33% da população capixaba.
Apesar desse crescimento, a predominância de fiéis do Estado é católica e corresponde a 53% do total da população. O número, entretanto, reduziu 4% de um Censo para o outro: em 2000 foram 1.958.507 milhão de pessoas que se declararam católicas enquanto que em 2010 esse número era de 1.878.779 milhão de fiéis.
SEM CONTROLE
O presidente da Associação de Pastores Evangélicos da Grande Vitória (APEGV), Enoque de Castro Pereira, esclarece que não existe um controle para se tornar pastor ou criar uma denominação, somente em Vitória são mais de 250 diferentes. Ele diz que por não haver restrição, a recomendação para o fiel é que ele pesquise sobre a denominação e sobre a vida do líder religioso para que só depois passe a frequentar a igreja. O motivo é para não sofrer futuras decepções.
“A Igreja Batista, por exemplo, possui critérios e o indivíduo precisa fazer seminário, mas existem muitas denominações que olham a capacidade oratória de uma pessoa e o torna líder religioso. Acho um problema termos pastor sem conhecimento mais profundo porque ele vai lidar com pessoas com problemas, casamentos. O conhecimento ajuda a embasar o que você fala e as decisões que toma”, assinala Enoque Pereira.
COMO É A FORMAÇÃO EM CADA IGREJA