Como seguidor de Jesus, entendo o Evangelho do Reino não como instrumento de salvação simplesmente da alma, mas horizonte de enfrentamento a qualquer projeto pecaminoso de desumanização. Naturalmente, justiça social, direitos humanos, relação igualitária de gênero, luta por políticas públicas que produzam dignidade e qualquer ação relacionada ao bem comum pertencem à vocação da tradição judaico-cristã. A pobreza, a má distribuição de bens, os autoritarismos opressores e a ganância geradora de desigualdades sempre foram criticados pelos profetas, denunciados nos Salmos e expostos como pecado por Jesus. Além disso, historicamente a tradição protestante sempre esteve envolvida em questões da esfera pública a partir da fé evangélica. Um cristão evangélico pode ser de esquerda ou direita liberal, mas não deve confundir qualquer dessas posições com o próprio Reino ou anular seu senso crítico a ponto de não se dar conta da transitoriedade de qualquer projeto político e ideológico. Mais do que isso, negar a possibilidade de um cristão evangélico ser socialista ou de esquerda, por si só, já seria antiprotestante, porque viola a liberdade e autonomia do sujeito. Então, não diria que sou um pastor de esquerda, porque ao mesmo tempo em que encontro vários pontos louváveis nesse horizonte político, sei de suas contradições e fragilidades. No máximo, aplicaria a mim o termo usado “protestante progressista”.