Na coluna de segunda-feira (05), defendi que o projeto Escola Sem Partido, além de partir de premissas e conceitos equivocados, representa um paradoxo: quer banir a “doutrinação ideológica” das escolas, mas, ao mesmo tempo, é todo enviesado pela doutrina ideológica dos seus próprios defensores. Aliás, a pretexto de banir a “doutrinação ideológica”, o que o projeto faz é patrulhamento ideológico.
Hoje trago exemplos concretos de como, também na educação, a tal “doutrinação ideológica” parece estar sempre no outro para quem o dedo aponta, mas nunca naquele que aponta o dedo.
Em 2017, um pastor da Igreja Batista exigiu a retirada de um mural que continha bonecas negras feitas pelas crianças da parede de uma escolinha que funcionava no imóvel da igreja, em Jardim da Penha. A poucos dias do 2º turno, o mesmo pastor recomendou expressamente a seu rebanho que votasse no então candidato Jair Bolsonaro porque é “um homem de direita”. Por acaso não há viés ideológico nessas duas ações? Aliás, “doutrinação ideológica na escola” não pode. Na igreja, tudo bem?
Em setembro deste ano, em plena campanha eleitoral, o Colégio Santo Agostinho, tradicional escola particular do Rio de Janeiro, retirou da bibliografia da turma de sexto ano a obra “Meninos sem pátria”. O motivo: pressão de um grupo de pais, que ficaram escandalizados e viram no enredo “apologia do comunismo”.
Baseada em histórias reais como a do hoje jornalista Ricardo Rabelo, a obra narra a vida de crianças que viveram no exílio com os pais durante a ditadura. Segundo a ideologia dos pais desses alunos, a mesma que tem sido alimentada em muitos setores, nem sequer teria havido ditadura militar no Brasil, logo ninguém foi exilado, assim o livro não passaria de “propaganda comunista”.
Por acaso não é ideologicamente enviesada a atitude desse grupo de pais?
Por fim, por acaso não é motivada por “viés ideológico” a ação da deputada estadual eleita pelo PSL em Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo, defensora do Escola Sem Partido, que conclamou estudantes a filmarem as aulas dos “professores doutrinadores” que fizessem manifestações “político-partidárias ou ideológicas” após a vitória eleitoral de Bolsonaro no 2º turno? Assédio, ameaça, perseguição em ambiente escolar, ataque à liberdade de ensinar do professor.
Se essa coação da deputada bolsonarista – ela mesma professora de História – visasse escolas de ensino básico, já seria inaceitável tentativa de intimidar professores. Mas pior: pôs na mira mestres universitários. Aí, para além de inaceitável, é simplesmente ridículo.
A universidade é precisamente o espaço onde o aluno deve ter contato com as formas e correntes de pensamento as mais diversas possíveis, de modo a adquirir uma formação a mais “universal” (daí o termo “universidade”). Num curso de exatas, não faz sentido o professor citar Marx para ensinar uma equação. Nos cursos de humanidades, os alunos devem, sim, ser apresentados ao pensamento de Marx, como também ao de Weber, Durkheim, Nietzsche, Platão, Descartes, Freud, Adam Smith, Stuart Mill, Maquiavel, Rousseau... (e poderíamos ficar aqui até quinta-feira).
Agora, visualizem a situação contrária. Há muitas faculdades, sobretudo particulares, de Administração, Business etc., que seguem linha abertamente liberal na economia. Imaginem o patético da situação se um deputado de partido de esquerda conclamasse os alunos a filmarem e coagirem os professores desses cursos por “doutrinação liberal”. Faz algum sentido? Não faz. A professora em questão, autora do “canal de denúncias”, ia para a sala de aula com a camisa de Bolsonaro. Quer dizer: Escola Sem Partido. A menos que seja o meu partido.
Humanidades
É um mito a ideia de que os cursos de humanidades das federais só possuem professores marxistas. E é curioso ouvir isso de pessoas que nunca estudaram em uma federal ou que passaram por lá há muito tempo. “Marxistas raiz” mesmo formam uma minoria.
Cada professor tem (e deve ter) autonomia para montar o seu programa. Alguns tentam abarcar um pouco de várias correntes de pensamento e dão um curso panorâmico; outros passeiam por várias correntes, mas dão ênfase a uma delas, de acordo com o próprio pensamento; outros se concentram em uma linha de pensamento (e é importante que deixem isso claro, para que todos saibam desde o início qual é o seu lugar de fala).
Caça às bruxas
Mas a pergunta certa é: como é que chegamos a este ponto, em que algumas pessoas se sentem tão à vontade para promover essa “patrulha do pensamento alheio”? É surreal que estejamos presenciando no Brasil, 60 anos depois, a reedição do que foi o macartismo nos Estados Unidos nos anos 1950: está lançada uma espécie de comando de caça aos “comunistas” entre artistas, jornalistas e intelectuais. Uma caça, é claro, que também possui “viés ideológico”.
O próprio Bolsonaro teve responsabilidade em alimentar esse macartismo tropical fora de época, assim como alguns de seus diletos aliados. Em sua propaganda eleitoral a senador do Espírito Santo, Magno Malta (PR), outrora aliado do PT, chegou a dizer estas palavras sobre as universidades brasileiras: “Muitas viraram muito mais foi reduto de vermelhos para pregar ideologia comunista de professores comunistas e sindicalizados, e reduto de maconheiros”.
Militante
No dia 15 de fevereiro de 2017, a professora Ana Caroline Campagnolo participou de audiência pública na Câmara sobre o Escola Sem Partido. Deu palestra com o tema “doutrinação ideológica”
Juizados mudarão
O presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Sérgio Gama, prepara projeto de lei que reformulará todos os juizados especiais do Espírito Santo. Ele deve se reunir amanhã com o presidente da Assembleia, Erick Musso. O objetivo é que o projeto seja aprovado ainda neste ano.
Camata na transição
Derrotado na eleição a deputado federal, o ex-secretário da ONG Transparência Capixaba Edmar Camata (PSB) tem colaborado com a equipe de transição de Renato Casagrande (PSB) nas áreas de Justiça e Segurança. Ele é cotado para assumir a Secretaria de Controle e Transparência.
Vem bomba aí
A escolha para a Secretaria de Estado de Segurança promete surpreender.