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Freud explica?

Para Cabral é vício, mas há outros motivos para alguém virar corrupto

Especialistas em Biologia, Psicanálise e Psicologia avaliam o que faz alguém seguir o caminho do crime

Publicado em 09 de Março de 2019 às 02:23

Maíra Mendonça

Publicado em 

09 mar 2019 às 02:23
Sérgio Cabral, ex-governador do Rio, acabou condenado e preso pelo que considera "vício" em dinheiro Crédito: Giuliano Gomes/PR Press
Em tempos de Operação Lava Jato e de revelações de esquemas de propina envolvendo servidores públicos e agentes privados, a corrupção tornou-se tema recorrente para os brasileiros. Mas, recentemente, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) apresentou uma nova justificativa para os crimes que pesam contra si. Em depoimento, ele atribui a culpa de suas ações ao que chama de "vício".
"Esse foi o meu erro de postura, de apego ao dinheiro, ao poder. Isso é um vício", disse Cabral, cujas condenações por corrupção e atos de improbidade somam 198 anos e seis meses de prisão.
Teria essa declaração um fundo de verdade ou seria apenas uma estratégia de defesa? A resposta para tal pergunta varia de acordo com a ótica de diferentes especialistas, que se debruçam sobre pesquisas em áreas como psicanálise, psicologia e evolução humana. Todos, no entanto, defendem um ponto em comum: a punição é condição fundamental para a redução da corrupção.
"Usar a expressão vício, que remete a uma psicopatologia, reduz muito a complexidade desse fenômeno", pontua Ronaldo Pilati, que é professor de Psicologia Social da UnB e membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Psicologia. Para ele, o comportamento desonesto é fruto não só de uma característica ou da história do indivíduo, mas sim o resultado de múltiplos fatores.
"No caso dos crimes de colarinho branco, o comportamento corrupto só é possível quando existe um ambiente social que permita isso, pois a pessoa precisa ter acesso ao poder e ao dinheiro", analisa.
Por outro lado, o professor aponta que quanto mais permissiva a sociedade é, mais os casos de corrupção tendem a surgir. "A punição é fundamental, mas não suficiente. Mesmo atos grandes de corrupção são influenciados por comportamentos tolerantes no dia a dia. Se um pai leva o filho para a escola e estaciona em uma vaga proibida para ter um benefício, ele está criando um tipo de comportamento permissivo", explica.
PSICANÁLISE
Sob a ótica da psicanálise, a corrupção depende de fatores psíquicos individuais, interpessoais e culturais, conforme diz a psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo Marion Minerbo. Segundo ela, o desejo dos seres humanos de ter sempre tudo é comum. Embora esteja adormecido, ele pode ser despertado por alguém ou por um grupo de pessoas. "Se, para completar, a corrupção foi institucionalizada como modo de vida, se a lei que coloca limites foi desqualificada, o desejo de ser e de ter tudo pode ser satisfeito sem medo das consequências", explica Marion.
Sentir-se no "direito" de levar vantagem pode levar à repetição dos atos corruptos. No entanto, Marion não descarta que a sensação de "poder tudo" provoque uma excitação tão grande a ponto de viciar os indivíduos, como uma droga. "Ela pode se tornar necessária para a manutenção do equilíbrio psíquico dessas pessoas. Se perderem esse barato, ou mesmo se se sentirem ameaçadas, podem se deprimir ou surtar", justifica.
BIOLOGIA
Mas para Vitor Haase, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, existe, sim, uma razão biológica que justifique a existência de corruptos. Ele se baseia na Teoria da Evolução, de que genes são transmitidos de geração em geração.
"Corruptos são psicopatas, não sentem culpa pelo que fazem. Na neurociência há evidências de que eles possuem estruturas cerebrais diferentes. Um dos modelos que explicam sua existência é a Teoria dos Jogos. Nela, esses indivíduos ajudam as pessoas a desenvolverem mecanismos emocionais, cognitivos e sociais de detecção de trapaças, que são uma vantagem evolutiva e que ajudam a restringir a existência dos próprios corruptos", afirma.
Da Biologia o professor também tira a explicação para o comportamento tolerante da sociedade brasileira perante tais práticas. "Uma explicação é a do conto do vigário. A pessoa faz promessas e as pessoas votam com o bolso, pensam a curto prazo. Mas há também a teoria que chamamos de nepotismo, na qual há uma tendência de que se favoreça quem compartilha nossos genes, ou seja, familiares. Sendo assim, tudo acaba sendo na base do jeitinho", associa.
ANÁLISES
O que diz a Biologia?
Corruptos são psicopatas, não sentem culpa por prejudicar os demais. Há evidências na neurociência de que eles têm estruturas cerebrais diferentes. Mas do ponto de vista da teoria evolutiva, a evolução da psicopatia traz uma vantagem evolutiva. Um modelo que explica isso é Teoria dos Jogos. Segundo ela, se todos fossem bons e pró-sociais, a sociedade estaria vulnerável a invasões de psicopatas de fora. Por isso, esses caras são importantes para desenvolverem nas pessoas mecanismos de defesa emocionais, cognitivos e sociais para a detecção de trapaças. Mas por que no Brasil a sociedade é tão tolerante? Há dois modelos para entendermos isso. Um é o do conto do vigário. O cara faz promessas e as pessoas votam com o bolso, pensam a curto prazo. Outro modelo é o do nepotismo. Na Teoria da Evolução existe o conceito de seleção por parentesco, ou seja, uma tendência de se beneficar sempre familiares. Aqui no Brasil não conseguimos evoluir para uma democracia como a da Inglaterra. Dependemos muito de relações familiares. Sendo assim, tudo acaba sendo na base do jeitinho, o que gera certa insegurança jurídica.
Vitor Haase, Professor do Departamento de Psicologia da UFMG
O que fiz a Psicologia?
Usar a expressão vício, que remete a uma psicopatologia, reduz muito a complexidade desse fenômeno. O comportamento desonesto de forma geral é provocado por múltiplos fatores, que vão além de uma característica individual, como padrões de influência social. No caso dos crimes de colarinho branco é preciso ter uma posição social específica que favoreça esse comportamento. Outra característica brasileira é que indivíduos que detêm algum tipo de poder se sentem mais no direito de justificar seus atos corruptos em relação aos demais. A ideia da carteirada, do “olha com quem você está falando”, como uma ameaça, mostra isso. A indicação de que existe punição para as infrações é fundamental, mas não suficiente. Uma sociedade permissiva para comportamentos desonestos pode criar bases sociais para a repetição desses comportamentos. Os grandes escândalos sociais são influenciados por essa cultura permissiva até certo ponto. Se um pai leva o filho para a escola e estaciona em uma vaga proibida para ter um benefício, ele está criando um tipo de comportamento permissivo.
Ronaldo Pilati, membro do Conselho da Sociedade Brasileira de Psicologia
O que diz a Psicanálise?
Do ponto de vista individual, todos nós tivemos de nos conformar com o fato de que não podemos ter/ser tudo, mas esse desejo não desaparece nunca. Fica adormecido e pode ser acordado por fatores interpessoais e culturais. Se alguém, ou um grupo de pessoas, sinaliza que você é melhor do que os outros, que tem mais direitos, o desejo pode despertar. E se, para completar, a corrupção foi institucionalizada como modo de vida, se a lei que coloca limites à desmesura do nosso desejo foi desqualificada, a fome se junta com a vontade de comer: o desejo de ser/ter tudo pode ser satisfeito sem medo das consequências. Essas pessoas não acham que estão envolvidas em crimes, acham injusto estarem sendo expostas publicamente, e encontram uma maneira de justificar seus atos. Mas posso imaginar uma dinâmica bem diferente. A sensação de poder tudo é excitante e vicia, como uma droga, pode se tornar necessária para a manutenção do equilíbrio psíquico dessas pessoas. A impunidade é o fator interpessoal que cria a cultura que confirma ao indivíduo que ele pode ser/ter tudo. Já a aplicação justa da lei é o fator interpessoal que desconstrói essa cultura.
Marion Minerbo, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP

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