No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarava que uma pandemia estava em curso. O Sars-CoV-2, mais conhecido como novo coronavírus, se espalhava com uma velocidade surpreendente. Até a noite da última sexta-feira (17), os casos confirmados de Covid-19 no mundo haviam ultrapassado 2 milhões, atingindo 185 países e territórios e matando mais de 150 mil pessoas. O enfrentamento à "maior crise sanitária mundial" da época, conforme definido pela OMS, ainda não possui um protocolo comum nos países.
No Brasil, a falta de consenso entre as diretrizes do Ministério da Saúde e do presidente da República, Jair Bolsonaro - ao menos até a demissão do então ministro Luiz Henrique Mandetta - , tem marcado o combate à Covid-19.
Para uma das principais antropólogas do país, Lilia Schwarcz, a pandemia expõe desigualdades e características de um regime autoritário que ela descreve no livro "Sobre o autoritarismo brasileiro". Em entrevista para A Gazeta, Schwarcz comenta o cenário político atual, fala sobre expectativas na sociedade pós-pandemia e como o Brasil mostra sua veia autoritária em momentos de crise.
Quais os reflexos desta veia autoritária do brasileiro neste cenário de pandemia?
O autoritarismo em um momento de anomalia e emergência, como é esta pandemia, é particularmente perverso. O autoritarismo gerou este país tão desigual, foi criado sob a desigualdade máxima da escravidão, em um momento em que alguns têm tudo e outros têm nada. Um país que contou com a escravidão até o século XIX e fez com que a escravidão se tornasse uma linguagem comum é marcado pelo autoritarismo. Nós temos visto que a pandemia ataca a todos, sem distinção de gênero, não distingue pobres e ricos, ela pode atacar a todos, mas ataca muito mais os mais vulneráveis. O que está acontecendo no Brasil é que a desigualdade está ficando alarmante e que os números não são mais invisíveis, então esta pandemia escancara a desigualdade. Em São Paulo, o número de mortes nas periferias é muito maior já do que nas áreas consideradas "nobres". [O vírus] Veio do exterior trazido por elites, políticos, intelectuais. Você tem inicialmente uma concentração nas classes mais altas, mas a pirâmide inverteu e as periferias estão sendo mais atacadas.
Como este autoritarismo se manifesta na política brasileira atual?
Nós temos um chefe do Executivo particularmente autoritário, que não acredita em democracia, que pratica uma política na base do populismo, vendendo a ideia que ele tem uma comunicação direta com o povo e, portanto, ele não precisa das instituições democráticas, não precisa de políticos, não precisa sequer do próprios ministros, de jornalistas, nem mesmo da ciência ou dos acadêmicos. Ele usa de uma linguagem que é muito autoritária, mas que se disfarça de um regime aberto, próximo ao povo. Nós temos ao centro da liderança um presidente que não dialoga, não admite qualquer divergência. Em qualquer divergência, o adversário é transformado em inimigo, é atacado. A queda do ministro da Saúde mostra isso. Foi um ministro que buscou seguir as diretrizes, os protocolos da OMS, tentou se basear na ciência, não tentando acreditar em milagre, que é o que ele acredita e oferece ao povo. Não admite qualquer outra proeminência e isso é muito grave. Faz parte destes dirigentes populistas e autoritários não permitir que qualquer outra pessoa se destaque, não admite estar na sombra. É um governo que prometeu especialistas, técnicos, mas entregou um grupo de pessoas que estão mancomunadas em um só tipo de ideologia, e a democracia é a convivência das diferenças, o que este atual governo não permite.
E quais são os efeitos que esta prática populista tem na população neste momento?
Em momentos de pandemia é muito importante que as pessoas tenham informações claras e isso precisa ser dado por pessoas que tenham especialidade nisso. Em 1904 a Revolta da Vacina deixou isso claro. O governo tinha diretrizes médicas muito boas, mas não informou a população de forma adequada, fazendo com que as pessoas se revoltassem e não deixassem os sanitaristas entrarem nas casas. Hoje, temos de um lado o Ministério da Saúde dando uma diretriz, técnica e baseada em órgãos competentes, e do outro o presidente que trata a questão como fortes e fracos. Então, estamos dando mensagens muito ambíguas para a população em um momento que carece de um discurso unificado. Quando eu vivo uma situação de anomalia, eu tenho que fazer um esforço muito grande para acordar e dizer: estou vivendo um momento de exceção, a vida não está normal. E a gente percebe hoje é que uma população que começou de alguma forma acatando as orientações, e obedecendo na medida do possível, agora é uma população dividida e em frente ao medo, à insegurança, à falta de dinheiro tem a atitude mais "normal" que é o negacionismo.
Este negacionismo que a gente observa, tanto na fala do presidente quanto em parte da população, é comum?
Todas as vezes que temos uma pandemia como esta, a primeira reação é de uma atitude de negação. Então, a gente vê crescer falas como "este não é um país de idosos", "o clima do Brasil é tropical", que são formas de negacionismo. Não há nenhuma prova que em países quentes a pandemia não se multiplique e o Brasil tem uma população que vem envelhecendo grandemente nos últimos anos. Existe o estatuto do idoso e o governo é obrigado a proteger estes cidadãos. Escantear essa população é muito autoritário. Nenhum governo tem direito de dizer quem vai morrer e quem vai sobreviver.
Sabemos que há uma subnotificação grande dos casos de coronavírus e isso, além de ser grave, ajuda o governo com a mensagem que ele quer passar, sem ter qualquer dado científico ou comprovação de que a doença ataca apenas senhores, pessoas de idade. Só que esta mensagem vai ao encontro da população que está desesperada, sem dinheiro e, claro, prefere ouvir e acatar uma palavra de ordem deste tipo. Porque a opção que está sendo dada às pessoas é de ficar em casa, mas para muitos o lar é um local perigoso. A gente consegue ver isso nos números de violência doméstica e infantil, que têm crescido durante esta pandemia. Nem todo lar é um local de segurança, nem todo lar eu posso conversar com as pessoas. Nós temos casas abarrotadas, cheias de gente, com pessoas que estão ficando sem dinheiro. Então, qual a mensagem estas pessoas querem acatar? A de que isso não é nada. A ideia de um falso alarme é miraculosa. Todo mundo quer isso diante do desconhecido. A mensagem do presidente é muito mais fácil de ser acatada, porque é o que todo mundo quer ouvir. Porém não tem embasamento científico nenhum.
É possível comparar o momento que vivemos com outros períodos da História?
Há comparações com a quebra da Bolsa, que parecia inimaginável e, de fato, imobilizou o mundo. Há quem compare com a Segunda Guerra Mundial. Eu prefiro comparar com outros momentos em que enfrentamos pandemias, como a Gripe Espanhola em 1918. As autoridades brasileiras já sabiam o que estava acontecendo, mas não agiram. Muita gente acreditou que não fosse chegar até aqui, por causa do clima. A gripe entrou da mesma forma que a Covid-19, trazida por uma elite, de fora do país. E se pegarmos as imagens da época, vamos ver que as medidas de isolamento foram aplicadas, até mais acatadas, porque é a forma técnica e científica de se lidar com a pandemia.
Hoje, nós temos mais tecnologias e estudos científicos do que tínhamos durante a Gripe Espanhola. Todos estes avanços se mostram ineficientes ou mal aplicados diante de uma pandemia?
É inegável o que a tecnologia fez por nós e como ela pautou a nossa vida no século XX. Mas eu arrisco dizer que esta pandemia nos mostra o limite da tecnologia e marca o início do século XXI. A tecnologia pode muito, mas não pode tanto. Diante de um ser invisível, como um vírus, a realidade nos mostra que a tecnologia não está apta para combater e lidar com uma pandemia deste tipo. Muitas pessoas comparam essa situação com um cenário de guerra. Mas se estivéssemos mesmo em guerra, deveríamos nos proteger tendo um exército. Mas nós não temos um exército reserva de médicos e sanitaristas prontos para agir e, sobretudo, para prever uma pandemia como esta. E isso escancarou a "fragilidade" da tecnologia e da expertise para combater esse perigo iminente. E em um governo como o nosso, que cortou verbas da ciência, de laboratórios, estamos ainda mais despreparados para ter um exército.
Que outras fragilidades da sociedade esta crise sanitária expõe?
Acho que a principal fragilidade é a desigualdade que vivemos. Neste cenário, os pobres se mostram vulneráveis não só pela situação de pobreza, mas pela falta de equipamentos sanitários. Vemos uma vasta população que vive em comunidades sem tratamento de esgoto e água, que não tem acesso a saúde. As pesquisas mostram que essa população também é a que tem mais problemas de saúde, pressão, diabetes, questões cardíacas. Isso mostra o tamanho do rombo da desigualdade social no Brasil. E o governo não tem dado provas de que vai se voltar para isso ao passar pela crise.
Como a senhora enxerga a sociedade pós-pandemia?
A gente trabalha com muita subjetividade. Mas há quem diga que, ao passar por experiências como uma guerra ou uma anomalia, que as pessoas sempre saem diferentes. O que esta diferença vai mostrar, eu não sei. Minha aposta é que talvez a sociedade civil se mobilize, e essa prática do voluntarismo, que temos visto hoje, de cada um contribuindo como pode, seja doando, contando histórias, se mantenha. O grande paradoxo dessa pandemia é que estamos demonstrando nossa solidariedade cidadã ficando afastados. Talvez a gente aprenda com esta situação de isolamento, compreenda outras temporalidades, discuta questões de gênero tão forte neste país, o machismo, a homofobia, as pessoas dentro dos lares passem a respeitar mais e dialoguem as diferenças. A sociedade civil brasileira tem capacidade de fazer desta crise uma oportunidade para se voltar mais para o cuidado da população. Eu espero que a gente se mantenha solidário e responsável quando sairmos dessa situação que vivemos.
O que esperar do mundo em termos políticos?
A gente vem de um momento em que uma onda autoritária e retrógrada tem se abatido sobre nós por meio de governos no mundo todo. Eu não vejo problema em termos líderes conservadores, até porque a democracia funciona melhor na diferença, mas as lideranças autoritárias e retrógradas, que a gente tem observado um fortalecimento em 2018 e 2019, são perigosas, porque elas não respeitam bases democráticas. O meu grande medo diante desta situação política atual é que estes líderes transformem essa situação de anomalia e emergência em algo perene. A gente já vê isso acontecendo com o Orbán na Hungria, tolhendo o direito das pessoas, cada vez mais se sobrepondo com autoritarismo. Uma situação dessa de emergência, por mais que exija um endurecimento do sistema, não pode ser usada para transformar governos em ditaduras. É difícil prever, mas aqui no Brasil eu tenho muito medo do que esse enrijecimento pode nos trazer.