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Aproximação digital entre político e eleitor deve ter moderação

Contato com eleitor é benéfico, mas precisa ter alguns limites

Publicado em 03/03/2019 às 23h16

A internet já vem sendo explorada por políticos na campanha eleitoral e também durante o mandato há alguns anos. No entanto, a força das ferramentas digitais tem ganhado nova dimensão com a chegada ao poder de parlamentares e gestores que nasceram ou se impulsionaram justamente nas redes sociais, com seus vídeos, transmissões ao vivo e suas postagens em massa e milhões de seguidores.

Nos cargos, os políticos têm adotado um comportamento sensível em relação às redes, tanto como ferramenta para nortear seus mandatos quanto para prestar contas aos eleitores.

Uma demonstração de que estão mais conectados foi dada durante a eleição para presidente do Senado, no dia 1º de fevereiro.

Uma ofensiva contra a eleição de Renan Calheiros (MDB) e em defesa do voto aberto se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter.

Enquanto isso, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) chegou a realizar uma enquete em suas redes sociais para decidir em quem votaria. Depois, justificou o voto no candidato eleito, Davi Alcolumbre (DEM). “O senhor acabou convencendo o meu público, de quase 9 milhões de seguidores, e o senhor obteve 77% dos votos. Eu obedeci aos meus eleitores, os meus seguidores”, disse.

A proposta de conectar o eleitorado ao trabalho no Congresso e ganhar força para as próprias pautas, contrapondo-se à imagem de um Parlamento fechado e com conchavos às escuras, é válida e benéfica, na avaliação do professor de Marketing Político da Mackenzie, Roberto Gondo. No entanto, é preciso ter limites.

“É preciso um amadurecimento do político. Ele está lidando com temas absolutamente delicados e não pode ser simplesmente uma ‘Maria vai com as outras’. O eleitor votou nele porque concorda com suas ideias, não tem que ficar consultando para tudo. Senão a interação tecnológica se torna populismo”, afirma.

No Poder Executivo não tem sido diferente. Quebrando protocolos, Jair Bolsonaro (PSL) fez por meio de live seu primeiro pronunciamento após eleito, no ano passado. Agora, já no cargo, continua adepto das transmissões e do Twitter.

No Estado, o governador Renato Casagrande (PSB) também tem preferido fazer diversos anúncios por meio das transmissões ao vivo. Em suas redes sociais encontra-se desde postagens sobre ações do governo, até momentos de lazer com a família.

O professor de Mídias Sociais e Novas Tecnologias da Faesa, Felipe Tessarolo, entende que essa nova forma de se comunicar esteja em expansão porque o público espera menos terceirização e mais atuação em primeira pessoa.

“O eleitor cobra a autenticidade. A fala sem produção, sem cortes, ou a mensagem que foi a própria pessoa que escreveu. Mas também não é postar por postar, só para jogar para a audiência. Os políticos devem usar seu potencial de engajamento para um fim democrático, para discutir temas, para fazer com que mais pessoas acompanhem as sessões. Hoje, os compartilhamentos dos discursos nas redes sociais chegam a muito mais pessoas do que a TV Câmara, por exemplo”, ressalta.

POTENCIAL

O Instituto FSB Pesquisa divulgou na semana passada um levantamento que mediu quem são os parlamentares mais influentes nas redes sociais.

No país, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) foi o maior destaque, seguida por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Sargento Fahur (PSD-PR). No Espírito Santo, entre os deputados federais, Lauriete (PR) é a mais influente. Entre os senadores, Fabiano Contarato (Rede) foi o mais bem colocado, segundo o levantamento.

DEPUTADO FAZ PROJETO PARA PROIBIR "LIVES" EM PLENÁRIO

A deputada federal Lauriete é destaque nas redes. Crédito: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
A deputada federal Lauriete é destaque nas redes. Crédito: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Enquanto as “bancadas dos conectados” só crescem, principalmente no Poder Legislativo, um deputado estadual de São Paulo quer restringir postagens e transmissões ao vivo, por live durante as sessões, audiências e comissões.

Campos Machado (PTB-SP), que está em seu sétimo mandato e é considerado da velha guarda da Assembleia Legislativa de São Paulo, apresentou um projeto para proibir o uso pelos próprios parlamentares de smartphones, tablets e “similares”.

Ele alega no texto que as “lives” são atividade paralela, exclusivas para seguidores de redes sociais, que impedem o uso de um aparte e podem levar à incitação de movimentos de protestos e até à violência. No projeto, o deputado nega se tratar de censura, e diz que a manifestação dos parlamentares será sempre “assegurada e garantida, mas das legítimas tribunas a que têm direito”.

No entanto, o contexto da Assembleia Legislativa é de pressão nas redes sociais por renovação na Casa, mais transparência e combate ao corporativismo. A deputada Janaína Paschoal (PSL), campeã de seguidores nas redes sociais, é tida como mentora dessa ação digital, por ser candidata a presidente da Casa.

O senador Fabiano Contarato é destaque nas redes. Crédito: Fernando Madeira
O senador Fabiano Contarato é destaque nas redes. Crédito: Fernando Madeira

INFLUÊNCIA

A pesquisa

Redes sociais

A agência FSB fez um levantamento para monitorar e medir a repercussão de todos os posts dos congressistas nas redes sociais e descobrir sua influência. O período avaliado foi de 1º a 20 de fevereiro.

Critérios

A performance de cada parlamentar (senadores e deputados federais) é medida considerando o número de seguidores, o alcance e o volume de posts, o número e a intensidade das interações no Facebook, no Instagram e no Twitter, gerando-se um índice. Ao todo, 577 parlamentares foram avaliados.

Entre Deputados

Lauriete (PR)

Posição: 43

Helder Salomão (PT)

Posição: 75

Soraya Manato (PSL)

Posição: 141

Da Vitória (PPS)

Posição: 147

Norma Ayub (DEM)

Posição: 148

Sérgio Vidigal (PDT)

Posição: 179

Evair de Melo (PP)

Posição: 281

Felipe Rigoni (PSB)

Posição: 292

Amaro Neto (PRB)

Posição: 392

Ted Conti (PSB)

*O deputado não figurou no ranking pois é suplente, e assumiu o mandato ao longo dos primeiros dias de fevereiro, e por isso só passará a ser incluído no FSB Influência Congresso a partir de março, de acordo com a empresa.

Entre Senadores

Fabiano Contarato (Rede)

Posição: 14

Marcos do Val (PPS)

Posição: 15

Rose de Freitas (Podemos)

Posição: 36

PARA POLÍTICOS, INTERNET FACILITA INTERAÇÃO

O fácil acesso que os eleitores têm hoje aos políticos por meio das redes sociais representa, para eles, mais benefícios do que problemas. Na avaliação deles próprios, por mais que estejam em posição de pressão da opinião pública, o uso da internet possibilita um termômetro, em tempo real, das reações dos eleitores sobre sua conduta.

Na bancada federal entre os senadores, os novatos Fabiano Contarato (Rede) e Marcos do Val (PPS) foram considerados os mais influentes pelo Instituto FSB Pesquisa.

Do Val, embora esteja na segunda colocação entre os senadores capixabas, é o que possui o maior número de seguidores no Facebook, Instagram e Twitter.

Os perfis dele e de Contarato possuem, em sua maioria, fotos e vídeos da atividade do mandato, e também alguns registros de sua vida pessoal.

O senador da Rede afirma que embora tenha uma equipe de assessoria em comunicação, ele próprio gosta de responder os internautas, sempre que possível.

“As pessoas mandam mensagem privada, além dos comentários, e respondo várias. Aviso que sou eu mesmo quem está falando. Sempre mantive essa relação com as pessoas, desde quando era da Delegacia de Trânsito. Entendo que já passou da hora do poder público se aproximar do cidadão. As pessoas precisam ver que não somos inacessíveis”, afirma Contarato.

Já o uso das redes para conduzir seus posicionamentos, a exemplo do que fez o senador Jorge Kajuru (PSB-GO), por meio de enquete, Contarato não apoia.

“Enquetes podem servir para mensurar, para buscar uma opinião, e não para ser um fator decisivo em como você vai votar. Tenho que respeitar os 4 milhões de habitantes do Espírito Santo, e não 1 mil que votaram em uma enquete”, opina.

CÂMARA

Entre os deputados federais, Lauriete (PR) é a maior expoente no ambiente digital. No entanto, os perfis dela resumem-se a divulgar trabalhos de sua outra atividade, a de cantora gospel.

No Facebook, por exemplo, onde possui 5 páginas, a maioria das postagens é de participações em igrejas e compartilhamentos de pregações evangélicas.

A deputada afirma que ela própria é a responsável pelas publicações e que sua equipe apenas a auxilia em aferir informações e mensurar o resultado das postagens. Ela também afirma que vai mudar a forma de usar as redes sociais.

“Após o carnaval, lançaremos nossa fanpage e o site, dando destaque ao meu mandato de deputada federal, o dia a dia no Congresso Nacional, as votações nas comissões e no plenário, além dos meus pronunciamentos”, relata.

Segundo colocado no ranking, Helder Salomão (PT) tem apostado principalmente nos lives – transmissões ao vivo – desde o mandato anterior.

“A ideia é investir nisso ainda mais. Como ficamos de três a quatro dias em Brasília, isso limita a presença no Estado e as redes sociais ajudam a suprir um pouco. É um espaço aberto, democrático.”

Contarato e Helder afirmaram já ter protocolado projetos de lei que tiveram origem em mensagens de eleitores pelas redes sociais.

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