As investigações sobre o desaparecimento da engenheira Vitória Spíndola de Souza, de 28 anos, levaram a Polícia Civil a identificar uma estrutura de controle e intimidação de moradores no Morro do Romão, em Vitória. Durante a apuração, testemunhas relataram que a jovem teria sido morta e que o corpo havia sido ocultado na região.
As investigações resultaram na operação Hidra, realizada na quarta-feira (7), que teve como alvos integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP) nos morros do Romão e Forte São João. Onze pessoas foram presas, entre elas dois homens apontados como líderes do tráfico, conhecidos pelos apelidos de Messi e Tio Patinhas.
De acordo com a delegada Gabriela Enne, do gabinete do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), testemunhas ouvidas durante o inquérito relataram que Vitória teria sido morta após um desentendimento relacionado a uma suposta dívida com o tráfico de drogas.
Segundo a investigação, uma liderança criminosa teria ordenado o assassinato, mas não seria a responsável direta pela execução. O corpo da engenheira ainda não foi localizado, apesar das buscas realizadas na região.
A delegada afirmou que as investigações continuam e que não é possível divulgar detalhes do inquérito que possam comprometer as diligências. Segundo ela, os depoimentos e os demais elementos reunidos durante a apuração indicam que Vitória foi morta.
Vitória deixou o Mato Grosso do Sul e veio para o Espírito Santo há cerca de 3 anos. De acordo com informações repassadas pela família na época, ela enfrentava problemas relacionados à dependência química. No Estado, a jovem se envolveu com um traficante que a levou para morar no Morro do Romão.
Mesmo após o fim do relacionamento, ela permaneceu na comunidade, entre outros motivos, por causa do valor do aluguel que pagava.
“A gente pode falar de homicídio. A morte dela seria ligada a uma suposta dívida que gerou um desentendimento entre eles (vítima e líder do tráfico). Esse desentendimento foi o estopim para ele mandar matar de forma brutal. Ele não executou, ele deu a ordem”, explicou a delegada.
O desaparecimento de Vitória foi registrado em 15 de outubro do ano passado.
Conforme Gabriela Enne, a investigação também identificou que o grupo criminoso impunha regras aos moradores do Morro do Romão, com ameaças e intimidações contra quem contrariasse as determinações dos integrantes.
“Eles ficam impondo como esses moradores devem se comportar e, caso não se comportem dessa forma, eles teriam consequências. E foi assim que aconteceu com Vitória”, disse a delegada.
A operação buscou enfraquecer essa estrutura e interromper as atividades criminosas na região. O delegado Luiz Gustavo Ximenes explicou que as investigações apontaram que eventos realizados nas comunidades eram usados para arrecadar dinheiro e movimentar o tráfico de drogas.
De acordo com as apurações, o grupo criminoso mantinha equipes de olheiros em pontos estratégicos e mirantes das comunidades. Eles utilizavam rádios comunicadores e grupos de WhatsApp para acompanhar a movimentação de policiais.
As apurações também apontaram que integrantes do grupo ostentavam armas de fogo, faziam ameaças de morte e utilizavam explosivos contra moradores para impor regras e manter o controle das comunidades.
De acordo com a delegada, a organização criminosa possui diferentes lideranças, responsáveis por pontos de venda de drogas na região. Dois homens apontados como líderes, conhecidos pelos apelidos de Messi e Tio Patinhas, foram presos durante a operação.
A principal liderança do grupo no Morro do Romão, segundo a polícia, está foragida no Rio de Janeiro e responde a outros procedimentos por suspeita de envolvimento em homicídios.
A delegada afirmou que o avanço das investigações sobre o desaparecimento de Vitória teria contribuído para a fuga do suspeito, que deixou a região após as primeiras incursões policiais.
A polícia também procura um homem apontado como um dos executores do homicídio investigado. Segundo a delegada, ele fugiu após o crime.
Durante a operação, policiais encontraram uma espécie de alçapão usado como rota de fuga para criminosos. Um homem foi detido no local.
Um vídeo (veja acima) mostra um buraco feito na laje de uma casa, que dá acesso ao terraço. Segundo a corporação, ao lado da residência há um beco que poderia ser usado por criminosos para fugir.
Segundo o chefe da Divisão de Escolta e Recaptura (DERP) da PPES, Pedro Bravim, a residência era toda gradeada. Na cozinha, porém, havia o alçapão que dava acesso ao terraço e permitia chegar a outras casas da região.
Ainda durante a ação foi apreendido um caderno com a movimentação do tráfico de drogas. Entre os pagamentos são citados advogado, Messi e Tio Patinhas.
A Polícia Civil ainda descobriu que integrantes do grupo adquiriram câmeras para acompanhar a movimentação de moradores e policiais em pontos estratégicos da comunidade.
Parte dos equipamentos e das caixas utilizadas para a instalação do sistema foi apreendida durante a operação.
A operação contou com 15 mandados de prisão e 20 de busca e apreensão. Ao todo, 11 pessoas foram presas, segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil.
A ação contou com o apoio da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), do Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc), do Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) e de outras unidades da Superintendência de Polícia Especializada (SPE), além da Polícia Penal do Espírito Santo (PPES) e da Polícia Militar (PMES).