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Minha História

Padre Kelder: 'A igreja é mãe dos movimentos sociais'

Formado em Contabilidade e Direito, ele conta que no seminário viu sua vida mudar

Publicado em 12 de Maio de 2018 às 22:50

Redação de A Gazeta

Publicado em 

12 mai 2018 às 22:50
Conhecido por sua postura combativa em relação aos direitos humanos e sempre com discurso forte a favor das minorias, o padre Kelder Brandão, hoje pároco da paróquia Santa Tereza de Calcutá, em Itararé, Vitória, tem sua história marcada na atuação em comunidades da periferia. Formado em Contabilidade e Direito, ele disse que foi no seminário que viu sua vida mudar. E, desde então, dedicou sua atuação como padre à defesa das minorias principalmente porque, a violência sempre esteve presente na realidade das comunidades pelas quais passou ao longo de quase 20 anos de ministério.
Padre Kelder sempre atuou em comunidades de periferia da Grande Vitória Crédito: Marcelo Prest | GZ
"Minha história começa no lugar mais lindo do mundo: Buenos Aires, no interior de Guarapari, onde vivi até os 12 anos. Sou o sétimo de nove filhos. A minha segunda irmã morreu aos onze dias de vida, o que foi um sofrimento pra mamãe e nós trazemos essa marca. Acho que, por isso, eu me identifico tanto com o sofrimento das pessoas, com a dor das mães. Aos nove anos tive o que considero meu chamado ao ministério, ouvi um hino (Entre nós está – atualmente gravado pelo padre Fábio de Melo) e fiquei pensando quem era esse Jesus pobre e humilde.
Em 1986, passei no vestibular de Ciências Contábeis e em 87 para Direito. Fiz os dois cursos simultaneamente. Cursando Direito eu não conseguia entender como a vida de um ser humano poderia se resumir a uma folha de papel. Eu via as pessoas dentro de camburões, enjauladas como se fossem animais ferozes. Aquilo me dava muita angústia.
Em 1994, entrei no seminário. Logo no começo, fui enviado para a paróquia de Feu Rosa, Serra. Lá tive contato com algumas lideranças ligadas aos direitos humanos, aí fui construindo minha trajetória. No seminário descobri que meu nome significa porão. Isso me deu uma alegria tão grande! Em tempos de guerra, porão é onde as pessoas se refugiam. A partir daí passei até a cultivar uma certa espiritualidade, no sentido de poder ser um amparo nesse período de violência.
Eu sempre atuei em comunidades da periferia. Primeiro em Feu Rosa, depois em algumas comunidades da paróquia de Campo Grande, Cariacica. Em 2005, fui enviado para Jacaraípe, na Serra. Lá, certa vez, pouco antes da missa, um senhor me abordou e disse que perto da igreja havia acontecido um homicídio. Era a primeira vez que eu ia celebrar naquela igreja, então não suspendi a missa. Na hora da homilia, expliquei que, em respeito à vida perdida, faríamos silêncio. Três dias depois fui informado que a missa foi avaliada de forma negativa. Disseram ‘esse pessoal vive fazendo coisa errada, morre e a gente que fica sem homilia’. Isso não é fé cristã! A partir daquele dia assumi o compromisso de dar visibilidade à questão da violência.
No final de 2009 eu assumi a paróquia de São Pedro. Lá, eu vi a violência a olho nu. Teve uma semana que eu passei por seis pessoas assassinadas na rua, estava tropeçando em cadáveres. Não dá para ser católico e conviver com essa realidade. Até que, em 2014, aconteceu aquele episódio da missa celebrada de corpo presente (quando padre Kelder rezou na rua, em frente ao corpo estendido de um homem morto a tiros, na Avenida Serafim Derenzi). Passei por uma carga emocional muito forte, foi muito intenso.
Padre Kelder rezou missa no meio da rua, em Vitória, em frente a corpo de jovem assassinado a tiros, em 2014 Crédito: Marcos Fernandez | Arquivo | GZ
Posso dizer que o que aconteceu durante a greve da Polícia Militar (em fevereiro de 2017) foi um marco na minha vida. Existe um padre antes da matança e outro depois.
Eu tenho comprometimento com direitos humanos e com todos os movimentos que potencializam a vida e que almejam mais justiça social. Acho nojento dizer que os problemas do mundo são causados pelo tráfico. O que mata é a injustiça social. Jovens de classes média e alta também traficam. Por que só morrem os da periferia? Determinados segmentos da sociedade são sacrificados para que outros possam continuar tendo sua paz, continuar viajando pra Miami. Fazer megaoperação em morro pra prender jovem é muita canalice. É dizer que o Estado tem força de segurança pra manter o pobre nos morros. Ficam aqui como se estivessem nos quilombos, do Brasil escravocrata. Existe uma ilusão para despertar uma sensação de segurança. Basta ver a onda de violência em Central Carapina (Serra), Morro da Piedade (Vitória), Porto de Santana (Cariacica)...
A Igreja tem um papel institucional muito forte, porque ela é meio mãe desses movimentos sociais. É um papel fundamental na promoção das entidades que traduzem em ações concretas aquilo que está no evangelho.
Eu sempre digo que quero ser um bom padre. O que me move não é a militância política, não é o ativismo. Mas eu vejo que não é possível ser um bom padre sem fazer determinadas ações. O que me move é o amor à Igreja e, sobretudo, tento ser fiel a Deus. Se, por decorrência a isso, eu me torno militante, ou ativista, eu não sei.”
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