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"Aborto de cérebros", diz Marcelo Tas sobre cortes na educação

Jornalista e apresentador de TV esteve na Rede Gazeta para palestra sobre educação na era digital e definiu os cortes de verbas na educação como "aborto de cérebros"

Publicado em 26/09/2019 às 10h43
Atualizado em 26/09/2019 às 18h04
Marcelo Tas no Encontro de Pais e Mestres na Rede Gazeta. Crédito: Divulgação
Marcelo Tas no Encontro de Pais e Mestres na Rede Gazeta. Crédito: Divulgação

Com um currículo que inclui trabalhos como jornalista, apresentador, coordenador de criação de programas de TV, professor e até engenheiro, Marcelo Tas esteve em Vitória nesta quinta-feira (26) para participar do Encontro de Pais e Mestres 2019, promovido pela Rede Gazeta. Durante o bate papo, Tas falou sobre "Inovação: A criatividade na era digital". Depois, ele ainda conversou com o Gazeta Online sobre os rumos da educação no Brasil e definiu os cortes de verbas do Governo na educação como "aborto de cérebros". 

A ideia do Encontro de Pais e Mestres 2019, que teve início às 9 horas desta quinta (26), foi apresentar um evento que proporciona um espaço para diálogo sobre educação entre especialistas, pais e professores. Para lançar o Guia do Ensino, que será encartado na primeira edição semanal de A Gazeta, o bate papo contou com uma abordagem ampla, com a participação do público. 

Como estimular a criatividade nos estudos? E de que forma a internet pode auxiliar nesse processo?

Criatividade tem a ver com curiosidade e isso deve ser a isca para qualquer tipo de estudo. Toda vez que alguém te convida: “Vamos fazer uma prova de química?”, você instantaneamente tem uma reação negativa porque a memória que você tem de química é semelhante a uma injeção, uma coisa dolorida (risos).

Mas se você perguntar: você já pensou que na hora que você acorda e faz café da manhã existem vários elementos químicos ali acontecendo? Você já teve curiosidade de entender como faz o pneu do carro que você usa? Então, curiosidade é o que nos move e a educação tem que ser movida pela curiosidade, seja usando as novas tecnologias ou não.

Quando o assunto é educação: celular, redes sociais e jogos podem ser aliados ou vilões? É a favor do uso de celular na sala de aula, por exemplo?

Para mim, não é uma questão de ser contra ou a favor. A pergunta poderia ter sido: Você é a favor do uso de facas dentro de sala de aula? Sabe, se a faca for usada para cortar um fio elétrico e construir um robô, por exemplo, sou a favor. Mas a faca também pode ser usada para ferir um coleguinha. Depende muito.

Um celular hoje é uma ferramenta é um equipamento extremamente sofisticado. Dentro dele estão pulsando muitas coisas e algumas podem ser muito nocivas para o aprendizado. Pode apenas distrair a classe. Ao mesmo tempo, como ele é uma ferramenta muito poderosa, ele pode conter uma plataforma, um aplicativo, um jogo ou até algo simples como um grupo de WhatsApp, que ajude o aluno em uma atividade. Então a resposta seria: Se for necessário, sim, sou a favor. Mas ele (celular) precisa ser necessário, ou será só mais uma distração.

Após meio século de isolamento tecnológico, finalmente estamos aprendendo novas maneiras de comunicarmos. Porém muita gente demoniza a era da internet - principalmente para crianças e adolescentes. É preciso tanto medo?

É necessário o medo para poder vencê-lo. Porque se você não reconhece o medo, você não avança. É muito importante que se fale do medo, para que a gente conviva com o medo e finalmente faça o que precisa ser feito: ter coragem para enfrentar esse medo. O medo existe porque a mudança não é pequena, é gigantesca. Então é importante sentir medo. Quem não sente medo está mal informado. Passado o susto, temos que pensar: o que fazer com esse medo? É importante conhecer o uso dessas novas ferramentas para que a gente possa usá-las bem e que elas sirvam para educar, para o propósito da escola.

Assim como o fogo, que é uma tecnologia que nós demoramos também para dominar, é importante nas escolas. Usar o fogo para aprender química, ou até uma atividade lúdica, como uma festa junina. Você vai fazer uma fogueira, precisa dominar a tecnologia do fogo para não botar fogo na escola. Então, o medo faz parte do aprendizado. Tem muitos pais que tem medo disso. E é ao contrário. É importante as crianças saberem usar as ferramenta e, principalmente, monitoradas e assistidas por pais e professores.

Eu, na minha casa, por exemplo, tenho uma origem do campo, minha família era toda de agricultores. Um dos momentos de aprendizado que meus filhos mais gostaram na vida foi o uso do facão. E alguns amigos meus da cidade, quando os filhos deles foram passar o fim de semana comigo, ficaram apavorados, me ligaram: “eu vi a minha filha com o facão na mão!”. Eu falei: sim, esse é o grande momento das férias dos meus filhos, porque eu ensino eles usarem o facão com segurança. Antes, eles aprendem todas as técnicas de segurança. Depois pra que usar o facão, você não vai sair por aí derrubando mato a toa. E isso pra eles é uma grande libertação. Eles entenderem uma tecnologia, aprenderem a usar aquela tecnologia e isso dá pra eles, inclusive um grau de autonomia, de confiança, que é muito importante em qualquer aprendizado.

Você é conhecido por trabalhar passando informações com humor, de que forma essa maneira de comunicação na internet pode auxiliar na educação das crianças? É mais fácil educar/aprender com leveza e humor?

É mais eficiente aprender com humor. Mas é mais difícil produzir um conteúdo com humor. É bom deixar isso muito claro. Os humoristas são muito bem pagos. Se você observar os maiores salários da televisão mundial são de humoristas, porque é muito difícil fazer humor.

E humor ajuda muito na educação porque ele é uma espécie de lubrificante da comunicação. Ele deixa a comunicação mais direta, fluida, ele causa um relaxamento na pessoa que tá recebendo o conteúdo, a pessoa se abre quando ri, fica receptiva. Ao contrário da pessoa que tem medo, de química, como falei antes, ela se fecha.

Mas é preciso ter cuidado para não passar do ponto. Principalmente quando você não tem muita habilidade na construção de conteúdos. É importante saber usar o humor, mas na dosagem certa.

Sabemos que ainda existem muitos casos de bullying na educação. De que forma a diversidade nas redes pode ajudar alunos na construção de um mundo mais empático dentro das escolas?

A diversidade é fundamental. Talvez seja a virtude mais importante para este fim. E nós temos que ter consciência que hoje nós vivemos em um mundo onde somos empurrados para ambientes cada vez menos diversos. Os algoritmos querem que nós fiquemos dentro de bolhas onde todos pensam parecido. Isso é muito ruim.

A cultura em geral, inclusive no no Brasil, é machista, racista, classista… Precisamos ir além dela, melhorar e aperfeiçoar essa cultura. Porque senão nós vivemos em ambientes com pouca diversidade de classe social, principalmente - por conta da desigualdade social no Brasil; de raça - porque infelizmente as populações afrodescendentes, indígenas e imigrantes ainda são vítimas de um preconceito ou um criminoso racismo histórico que ainda existe no país.

Então, é importante cuidar para que nossos filhos e as pessoas que cuidam da educação estejam em ambientes com diversidade e de gênero. Porque a mulher também, ao longo da história, foi muito renegada a um segundo plano. O país ainda tem um caráter machista muito evidente. Por isso, temos que estar muito atentos a diversidade. Porque de certa maneira nós vivemos meio anestesiados em ambientes onde a gente não percebe que não existe diversidade e você acha que está tudo bem. Não está tudo bem. diversidade é uma coisa importantíssima para buscar o tempo todo.

Como fazer com que esses elementos digitais não prejudiquem a educação e afastem ainda mais a relação entre crianças e adultos?

Tem que olhar o resultado sempre. Se o resultado não é satisfatório, não está funcionando. E os elementos digitais podem acelerar ou por um desastre ou por um sucesso ou por um sucesso. É importantíssimo estar de olho no que está causando E ter em mente que a única diferença de quem já nasceu nesse ambiente e quem recebeu esse ambiente já grandinho, é o medo de errar.

O adulto que recebe hoje um novo equipamento, ele o trata com muito respeito, solenidade e até um certo deslumbramento “olha o meu celular”. Quem já nasceu nesse ambiente isso nem é assunto. A não ser que ele seja influenciado pelos pais (risos). Geralmente os jovens não ficam se gabando por ter um celular, eles usam, simplesmente. Então temos que aprender com eles a usar esses equipamentos, especialmente, sem medo de errar. A grande trava do adulto é o medo de errar e por medo de errar você não aprende.

Pra mim é uma falácia de que as novas gerações sabem mais que a minha sobre os equipamentos. Ninguém nasceu sabendo. É que por não ter medo de errar, eles saem errando e aprendendo rápido. E nós, por sermos solenes, e por ficarmos escondidos enquanto estamos errando, nós demoramos mais tempo para aprender. Eles não tem medo de pagar mico, então: adultos, paguem mico para aprender mais rápido.

E quem não aprende, fica para trás, porque é uma nova realidade...

Fica para trás e os degraus sobem muito rápido. Se você ficar parado, as atualizações das coisas vão ficando cada vez mais difíceis. É o que eu gosto de dizer: coloque o pezinho nessa água, já! Mesmo que seja numa velocidade lenta. Porque aí você vai perceber que tem muita água pra navegar. Se você ficar parada esperando a hora de estar pronto para isso, essa hora nunca vai chegar porque nenhum de nós está pronto.

Veja o exemplo do Bill Gates, que é um cara que perdeu o bonde uma vez na vida. O cara que inventou o sistema operacional talvez mais popular do mundo perdeu o bonde da internet e a empresa dele quase foi para o buraco.

Mas se reinventou porque teve a humildade de reconhecer que perdeu um passo da atualização do processo e hoje tem um líder que entender que não é mais uma empresa de sistema operacional, mas uma empresa que resolve problemas de várias naturezas. Então, se até o Bill Gates um dia já foi um cara desatualizado, não tenha medo de assumir isso e fazer como ele: se reinventar.

Temos acompanhado os cortes de verbas na educação. O que você acha disso?

É um crime. O Brasil já cometeu vários erros ao longo da sua história. O erro na educação é um crime. O ato que deixa um efeito perverso, que não é sentido num primeiro momento, mas ele é um desastre ambiental de cérebros de crianças - que estão perdendo oportunidades, de bolsistas e pesquisadores - de coisas que já estavam em movimento, e que são decepadas e abortadas. Por isso que eu fico indignado com um Governo que é contra o aborto, mas não é contra o aborto de cérebros, que é o que está acontecendo com o corte na educação.

O que nós estamos vendo é uma epidemia de aborto de jovens que vão embora do Brasil, de pesquisadores que perdem anos de pesquisa - e pra retomar essas pesquisas não será automaticamente, mesmo que os recursos voltem já na semana que vem, isso já se perdeu num tempo em que Índia, China, Coreia, Argentina - que é um país sempre em crise, mas que cuida da educação, Chile - que é um país pequeno e não tão rico quanto o Brasil, estão em índices educacionais muito na nossa frente.

Então enquanto nós ficamos aí tristes porque perdemos uma partida de futebol com a Argentina, nós deveríamos estar mais preocupados com a goleada que estamos levando deles na educação há muito tempo e que com esses cortes agora isso só vai se aprofundar.

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