5 de novembro de 2015. A data pode dizer pouco para alguns e parecer distante para outros, mas para os capixabas afetados direta ou indiretamente pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, este dia marcou o fim de uma vida que ainda não voltou à normalidade. Pescadores, vendedores de peixe, proprietários de pousada, comerciantes, ribeirinhos e até moradores que poderiam parecer à margem da tragédia sentem até hoje as dores e as dificuldades que podem assolar também a população de Brumadinho.
“A gente acaba se colocando no lugar de quem está sofrendo com esse novo crime social e ambiental, pensando no que eles vão passar e o que as pessoas afetadas vão sofrer para poderem ser minimamente recompensadas, porque até hoje, três anos depois de Mariana, 40% da nossa comunidade ainda não foi reconhecida como vítima”, afirmou Messias Caliman, presidente da Associação de Comerciantes de Regência, distrito de Linhares, no Norte do Estado, onde fica a foz do Rio Doce.
Também proprietário de um camping, ele acompanhou de perto a queda brusca do turismo na região. “Na época, Regência estava registrando um crescimento de 20% ao ano. Só eu, recebia de 100 a 130 pessoas no verão. Depois do acidente, passei dois anos sem receber um cliente. Só agora o público está começando a voltar para cá”, analisou Messias, garantindo que inúmeros restaurantes, pousadas e comércios locais encerraram as atividades por causa de Mariana.
Como um filme repetido para aqueles que vivem nos municípios atravessados pelo Rio Doce, no Espírito Santo, a avalanche de lama que atingiu Brumadinho durante a última sexta-feira (25) gerou, além de empatia, um forte sentimento de desesperança. “Achei que as leis ficariam mais rigorosas e que esse tipo de tragédia jamais voltaria a acontecer”, disse o pescador Jackson Cosme, que não exerce a profissão desde 2015.
Vivendo apenas de auxílio e ainda lutando para receber a indenização e o lucro cessante da Fundação Renova, ele também lembrou do discurso do presidente da Vale, Fabio Schvartsman, em 2017. “Eu acreditei quando ele disse ‘Mariana nunca mais’. Hoje tudo mudou. Não tem nada descartado. Pode demorar dois, três ou dez anos, mas eu acho que em alguma hora outra barragem vai ceder”, afirmou revoltado.
Também com sentimento de descrédito e tristeza, Valdemiro Jesus da Rocha teve a peixaria em que trabalhava fechada e hoje atua como ambulante. “Fiz isso durante toda a minha vida. São mais de 40 anos. Hoje vendo peixe em cima do meu carro, mas eles não são mais do Rio Doce, porque quando conseguem pescar, ninguém confia. Agora só vendo os de água salgada e mesmo assim não é muito”, explicou.
Com dois filhos e dois netos, ele também sofre com a queda na renda, que de acordo com que declarou baixou cerca de 80%. “Hoje recebo o auxílio mensal e uma cesta básica. Juntos eles somam cerca de R$ 1.550. É complicado, porque a gente tem família”. Se tivesse que resumir o que a tragédia daquele dia 5 de novembro de 2015 significou, Valdemiro diria: “O que aconteceu foi um desastre para toda a vida”.
INDENIZAÇÕES
Na tentativa de reparar os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, a Fundação Renova afirmou que desde 2015 já foram desembolsados R$ 1,3 bilhão em indenizações e auxílios financeiros a mais de 26 mil pessoas. Bem como explicou que a determinação dos valores pagos às vítimas foram discutidos com comunidades impactadas, representantes do poder público e entidades técnicas.
De acordo com o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), que guia o funcionamento da entidade, o auxílio tem o valor de um salário-mínimo, acrescido de 20% por dependente, e nenhum dos 42 programas estabelecidos pelo documento sofrerá qualquer alteração por causa do rompimento da barragem em Brumadinho.
No episódio mais recente da disputa entre as vítimas e a Fundação Renova, a Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) ficou bloqueada por mais de 30 horas. De acordo com a organização, mais de mil pessoas protestaram contra a suspensão do pagamento do lucro cessante, que é um valor previsto para reparar os prejuízos causados pelo fim da pesca no Rio Doce.