A renda das famílias está menor. O valor das dívidas, não. Pelo menos uma em cada três famílias de Vitória está com as contas atrasadas, segundo dados da Fecomércio.
A pandemia do novo coronavírus fez com que a gestão financeira, que já era difícil de ser realizada, ficasse ainda mais complicada, segundo os especialistas. Em alguns casos, o único jeito de conseguir manter a casa é entrar na inadimplência. Com isso, o que ficará depois da crise é uma herança de dívidas.
Uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), publicada em julho, também mostrou que 35% das pessoas acreditam que sua situação financeira vai piorar depois a pandemia e 40% que ficará igual ao que era antes. Apenas 19% tinham uma visão mais otimista de que a situação vai melhorar.
A preocupação com o futuro incerto é ainda maior para quem tem até o ensino fundamental (42%) e também para aqueles que recebem até dois salários mínimos (40%).
O economista e especialista em finanças pessoais Laudeir Frauches lembra que as pessoas já estão tendo dificuldade de pagar as contas. "Elas estabelecem certas prioridades do que deve ser pago primeiro: alimentação, gás, luz e água. O restante acaba sendo arrastado. Além disso, muitas vezes, as pessoas podem estar adiando o pagamento de dívidas para guardar dinheiro para um pagamento emergencial, como remédio ou plano de saúde", comenta.
No mês de julho, 46,1 mil famílias de Vitória estavam com alguma conta atrasada, de acordo com um levantamento da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio). O número é 14% maior do que em janeiro deste ano.
A pesquisa ainda mostrou que mais de 101, mil famílias (77,5%) estavam endividadas na capital do Estado. Desse total, aproximadamente 21,03 mil (16%) não terão condições de pagar os boletos nos próximos meses.
RENDA DAS FAMÍLIAS ENCOLHEU
Se adaptar à nova realidade que a pandemia impõe é um desafio para as famílias. Apenas no Espírito Santo, 579 mil trabalhadores ainda tiveram redução de salário, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad-Covid do IBGE, de junho. No país, aproximadamente 29,5 milhões de brasileiros estão nessa mesma situação.
214 MIL
PESSOAS DESEMPREGADAS NO ESPÍRITO SANTO
Para agravar o quadro, em junho, mais de 214 mil pessoas estavam desempregadas no Espírito Santo. O número representa um a cada dez entre os 1,9 milhão de trabalhadores que fazem parte da força de trabalho estadual. Com isso, a taxa de desocupação chega a 10,8%. Já o país somou no trimestre móvel, até maio, quase 12,7 milhões de desempregados e a taxa de desocupação é ainda maior (12,9%).
O economista e especialista em educação financeira Mário Vasconcelos explica que algumas famílias tiveram sua renda reduzida devido ao desemprego. Mas, enquanto isso, muitas outras tiveram a fonte do sustento da casa reduzido por causa da suspensão do contrato ou de redução da jornada.
"Eles tinham um orçamento a cumprir para manter a casa e agora recebem menos do que precisariam para conseguir arcar com suas despesa. A renda foi reduzida, mas as despesas permanecem as mesmas"
O economista lembra que a inadimplência já estava elevada antes da pandemia, mas ela vem aumentado à medida que o desemprego cresce. "No início do ano, tínhamos melhorado esse indicador devido à liberação do décimo terceiro salário. Com ele, algumas famílias conseguiram equilibrar suas contas. Mas, entre fevereiro e março, ela aumentou novamente", explica.
Vasconcelos ainda aponta que quando as pessoas estão inadimplentes, uma série de consequências negativas ocorrem com ela. "A família fica sem recursos para pagar suas contas e com isso vai entrar no cadastro negativo e também reduzir a nota do cadastro positivo para tomada de crédito", comenta.
O vice-presidente da Fecomércio, João Elvécio Faé, complementa que não é só a pessoa física que está endividada, mas os lojistas também sentiram o impacto. Ele afirma que, com o fechamento das lojas, durante os primeiro meses da pandemia nos Estados, quem não tinha reserva financeira teve que fechar as portas.
O maior índice de endividamento e inadimplência na Capital capixaba está concentrado nas famílias mais pobres, segundo os dados da Fecomércio. Dessa forma, quanto menor a renda da família, mais endividada ela está. Enquanto 18,8% das que recebem mais de 10 salários mínimos estão inadimplentes, o percentual de pessoas com renda inferior a 10 salários mínimos na mesma situação é de 39,9%.
O economista e especialista em finanças pessoais Laudeir Frauches explica que, de fato, a pandemia é a principal responsável pelo endividamento das famílias. "Uma das coisas que mais faltam nas famílias brasileiras é a educação financeira. As pessoas foram estimuladas ao consumo, com a liberação de crédito, e muitas delas passaram a adquirir coisas que não precisavam com o dinheiro que não tinham", explica.
O especialista aconselha que neste momento, mais do que nunca, as famílias precisam se atentar para onde o dinheiro está indo. "É muito difícil falar em mexer no orçamento doméstico porque muitas pessoas não têm renda nenhuma. Mas isso é essencial em momentos como o atual. A contenção de despesas é um aprendizado doloroso que a pandemia está colocando", diz.
Ele aconselha a anotar as despesas fixas do mês (água, energia elétrica, alimentação e telefone e internet) e tudo o mais o que está sendo gasto. Além disso, colocar no papel o que a família recebe. Assim, é possível saber para onde o dinheiro está indo e como reduzir os custos.
MULHERES CRESCEM NA GESTÃO DOS RECURSOS FAMILIARES
De acordo com o sociólogo, cientista político e presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), Antônio Lavareda, durante a pandemia as mulheres perderam mais postos de trabalho do que os homens.
Porém, segundo o especialista, elas saem mais empoderadas desse período. Isso porque aumentou a participação delas como gestoras dos orçamentos domésticos.
Na administração do orçamento doméstico, as mulheres são 56% das entrevistadas, contra 44% dos homens. Já em relação ao gerenciamento da poupança e investimentos da família elas são 45% e eles 47%.
"Além do papel de gestoras do orçamento e da poupança familiares, as mulheres absorveram, na sua maior parte, o aumento da carga de trabalho doméstico em meio à pandemia"
Os dados são do segundo levantamento Observatório Febraban, feito entre os dias 7 e 15 de julho, com 1,5 mil chefes de família, homens e mulheres responsáveis pelo sustento da casa (isoladamente ou de forma compartilhada), de todas as regiões do país.