O mundo de negócios é implacável e uma empresa em cada cinco não sobrevive ao primeiro ano, mais de 70% não passam a marca de 10 anos. Mas em outros casos, meses se transformam em décadas, as décadas se acumulam e se transformam em um século inteiro. No Espírito Santo, companhias tradicionais reforçam que sua capacidade de adaptar, evoluir e enfrentar as tempestades do mercado são o segredo do sucesso.
A Grafitusa, por exemplo, já está em atividade há 103 anos. E se hoje é uma das líderes do segmento, é porque, ainda nos primeiros anos do século XX, um pintor desenvolveu uma alergia a tinta a óleo.
“Meu bisavô foi um imigrante italiano que veio para o Brasil. Ele era um pintor de interior e teve uma alergia a tinta e não pôde mais continuar. Então ele abriu uma tipografia, por volta de 1920. Meu avô deu continuidade e, após sua morte, meu pai assumiu. Ele tinha pouco mais de 20 anos. Agora, eu e meu irmão somos a quarta geração da família envolvida nos negócios”, conta a diretora comercial da marca, Cris Samorini.
A constância na gestão, ela avalia, foi um dos fatores que contribuíram para a que a empresa se mantivesse ativa ao longo dos anos. A administração foi familiar desde o princípio e a meta sempre foi fazer o negócio prosperar.
“Ao longo dos anos solidificamos esse compromisso, mas nossa evolução também se deu por meio de investimentos, sempre com tecnologia de ponta, vendo o que há de mais atual na indústria gráfica global. E às vezes ‘por obrigação’. Nesse tempo, a indústria naturalmente precisou passar por evoluções e nós evoluímos junto”, explicou.
Para a executiva, que atualmente é presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), é preciso estar sempre de olho nas mudanças e inovar para não perder relevância. “É claro que o mercado abriu para outras pessoas também, mas aproveitamos as oportunidades nos momentos certos, sempre cumprindo com nossas obrigações, e isso nos fez ter uma participação constante no segmento.”
A longevidade também é uma característica familiar à Móveis Conquistas, que já está há 41 anos no mercado, conforme explicou o empresário Joanir Smarçaro. Ele relata que tudo começou em uma pequena marcenaria de fundo de quintal em Linhares.
“As vendas eram de porta em porta. A gente ia na casa, pegava as informações, fabricava e entregava. Da marcenaria, passamos à loja e hoje estamos aí no comércio. Já são 12 lojas no total, com marcas diferentes. Na Grande Vitória, são duas, em Vitória e Vila Velha. Também temos o centro de distribuição na Serra."
Ele reforça, porém, que a chave para o sucesso é ter planejamento de longo prazo. “A maioria das empresas entra no negócio e no dia seguinte quer estar grande. A gente trabalha no passo a passo, com crescimento contínuo. Quando se tenta avançar demais de uma vez, acaba sendo preciso dar uma freada no meio do caminho.”
Como regra geral, ele avalia que uma empresa deve que estar preparada para os momentos bons e ruins e reforça que realizar um trabalho sério ajuda a suavizar quaisquer dificuldades eventuais.
“Tenha uma boa equipe, um bom produto. Faça um atendimento completo. E saiba que os períodos difíceis passam. A gente sempre passou por eles. Mas, nos bons momentos, é preciso se preparar para os ruins, entender que a vida não é só maravilhas.”
Gerente comercial da Construtora Épura, que está há 40 anos no mercado, Fabiano Martins, pontua que o Brasil é um país desafiador e, na sua percepção, para conseguir a longevidade como empreendedor é preciso saber medir riscos, mantendo alguma cautela, mas sem estagnar.
“Acho que o caminho é esse. E ter sempre o foco no cliente, na pessoa que vai adquirir o produto. Quando a gente olha o ramo imobiliário, por exemplo, em que o produto é um lugar em que a pessoa vai morar, pensar em cada detalhe é fundamental. Além disso, é preciso entender que o negócio não é de curto prazo.”
Ele considera que a construção civil como um todo ainda precisa avançar bastante, principalmente em relação à tecnologia voltada para as obras. Contudo, reforça que o cliente de hoje não é o mesmo de 40 anos atrás e acompanhar essas mudanças é fundamental.
A revenda da feira de BH virou 40 anos de história
Uma empresa precisa dedicar-se às tarefas que se propõe a fazer. É o que destaca Gilcéa Prudêncio, da Caxuxa Modas, que atua há 45 anos em Vitória.
“Tudo começou comprando sandalinha e bolsinha de palha na feira de Belo Horizonte e vendendo aqui no verão. Depois, trabalhamos em uma sala alugada em um prédio e chegamos a ter três lojas, antes de decidirmos que era mais interessante focar em uma, que é essa de Jardim da Penha.”
Gilcéa reforça que, mesmo com planejamento, é importante fazer essa análise de tempos em tempos, verificar o que se pretende e quais são os rumos que o negócio está tomando, para fazer ajustes eventuais. “E, sobretudo, ame o que faz, se dedique, tenha fidelidade com os clientes e, claro, uma boa equipe.”