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Nilson Pereira Baptista
"Toda mudança de era histórica é marcada por uma pandemia"
Pesquisador do Núcleo de Estudos do futuro da PUC-SP,  ele observa ainda que nesta fase de mudança o mundo passa  por um período de grande turbulência. "E é o que estamos vivendo", destaca.

Publicado em 03 de Janeiro de 2021 às 08:24

Publicado em

03 jan 2021 às 08:24
Nas fases em que ocorrem as mudanças de eras históricas - como na Pré-História, Antiguidade, Idade Média, Moderna e Contemporânea - o mundo passa por um período de turbulência incomum. Essas transições são ainda precedidas por uma grande pandemia, como relata Nilson Pereira Baptista, pesquisador do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da PUC de São Paulo. “E é o que estamos vivendo,  um mundo turbulento, estranho, com coisas do passado se manifestando com imensa força, com o futuro já se aproximando em alta velocidade”, pondera.
Essa é uma das reflexões apresentadas em seu livro “Covid-19: antes e depois”, escrito durante o período de isolamento decorrente da pandemia do novo coronavírus, que ganhou o mundo após ser detectada na cidade chinesa de Wuhan, no final de 2019. Um trabalho que tentou entender a história de aproximadamente 4 mil anos que a China possui, a forma como ela superou a doença. E ainda como se comportaram as pandemias anteriores, o que trouxe uma descoberta. “Não existe originalidade na pandemia que vivemos, todas, até as bíblicas, foram marcadas por muitas fake news”, revela.
Na avaliação do futurista, a Covid-19 é uma grande catalisadora de mudanças, ao levantar discussões sobre assuntos sensíveis, dentre eles o nosso estilo de vida, o desrespeito ao meio ambiente, o tipo de governo e sistema econômico que queremos ter na nova era. “A pandemia nos permitiu esta reflexão. Estamos em casa, trancados, ameaçados por um vírus que não somos capazes de enxergar a olho nu, mas que está tirando de muitos de nós a vida, e não nos levando para uma nova era”. Confira abaixo mais detalhes da entrevista:

O que o motivou a escrever sobre o assunto?

Participo do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF), da PUC de São Paulo, e tinha o convite para escrever um artigo científico. Na prática, comecei a pesquisar, para conhecimento pessoal, sobre pandemias passadas, tentando entender como a China, segunda potência econômica mundial, chegou a este momento, e resolvi trazer essas informações para o presente, tentando imaginar como a pandemia irá influenciar nesta continuidade do século XXI, tendo como foco a transição de era histórica que vivemos.

Estamos entrando em uma nova era?

Uma nova era é sempre marcada por uma mudança. Viemos da Pré-História, com o advento da escrita, passamos para a Idade Antiga. Com a queda do Império Romano do Ocidente, ingressamos na Idade Média. Logo depois, com a queda de Constantinopla tem-se o início da Idade Moderna, que se encerra com a Revolução Francesa, dando início a Idade Contemporânea, que é a que vivemos e que, no futuro, deverá receber outro nome. A mudança de era é um indicativo de natureza histórica. O que ocorre é que toda vez que está acontecendo uma mudança de era histórica, o mundo vive um período de turbulência incomum. E nós estamos vivendo neste mundo turbulento, estranho, com coisas do passado se manifestando com imensa força, com o futuro já se aproximando em alta velocidade. Foi o que aconteceu, por exemplo, próximo à queda do Império Romano do Ocidente, com a sociedade vivenciando um conjunto de certezas ruindo, não de uma hora para outra, mas ao longo do tempo. Fato que se repete na Idade Média para a Moderna, com reis que eram meros senhores feudais se tornando grandes figuras, e depois caindo - na entrada da Idade Contemporânea - porque a burguesia queria assumir o poder. Nasce a democracia, tendo o capitalismo como seu o sistema econômico, assim como o mercantilismo era o sistema econômico para o absolutismo.  

E como  a pandemia entra neste contexto?

Outro ponto importante é que, sempre que ocorrem mudanças de era, elas são precedidas de uma grande pandemia. Antes da queda do Império Romano do Ocidente, teve a peste antonina, no século II, ano 165 após Cristo, que matou o imperador Marco Aurélio, uma varíola terrível. Essa história se repete na mudança para a Idade Média, antes de Constantinopla cair, tem a peste justiniana. E antes da Idade Moderna ocorreu a famosíssima peste negra, que considero a maior causa do fim da Idade Média. Agora, no limiar de uma nova era, temos a Covid-19, com esta força que lembra a gripe espanhola - e que não resultou em uma mudança de era -, mas que em termos de como a doença se comporta, me parece muito equivalente, com dois surtos em 1918 e 1919, muito parecido com o que já estamos vivendo. Outra coisa em comum são as fake news.

Não existe pandemia sem fake news?

A atual pandemia não tem originalidade nenhuma.  Não vejo nenhuma diferença em termos históricos em relação ao que aconteceu no passado, a não ser a doença em si. Nas outras pandemias  elas eram marcadas pelos mesmos sintomas, com as pessoas sempre morrendo da mesma forma. Na Covid, a diferença é que ela vai de nenhum sintoma até a morte, o que não aconteceu em outras pandemias, e isso é inédito. Mas vamos voltar no tempo, mais ou menos entre 1.100 a 1.050 Antes de Cristo. Acontece uma epidemia na região de Israel, na Idade Antiga, no tempo do profeta Samuel, período anterior ao rei Davi. Os filisteus roubaram a Arca da Aliança. Na época ocorreu uma peste bubônica, provavelmente na Filistéia. E a culpa foi de quem? De Deus, que causou a doença. Os filisteus, convencidos pelos israelitas de que a peste tinha sido causada pelo roubo da arca, a devolvem a Israel, que é contaminado pela peste. Na arca devolvida estavam ratos, e a doença que estava restrita, se espalha.

Isto ocorreu em outras?

Na peste negra houve uma sucessão de fake news. Primeiro ela deveu-se ao excesso de pecados humanos, depois aos judeus contaminando poços de água para matar cristãos, outra motivação foi a mudança do papado de Roma para Avignon, na França. Houve ainda a flagelação para agradar a Deus e a peste acabar, faziam isto e depois matavam a maior quantidade de judeus possível para acabar com a peste. Outra conclusão foi de que a peste era causada por odores e seriam combatidas por odores fétidos. Assim, visitavam latrinas públicas para sentir o cheiro horroroso e não pegar a doença, algo muito parecido com o uso de hidroxicloroquina para evitar a Covid.   E agora? Uma delas é a de que os chineses inventaram a Covid-19, algo que ouço, inclusive, de pessoas que estudaram e viajaram o mundo. Ainda me pergunto com qual interesse a China, que teve o seu intenso comércio internacional prejudicado pela pandemia, e que vai enfrentar um ano difícil em 2021, teria ganho com esta doença? Ainda não descobri a resposta.

No seu livro, o senhor relata que esta é uma pandemia que já se sabia que aconteceria.

Ela já era esperada nesta época do século XXI. No meu livro falo quem previu com clareza, até o ano. O que ocorre é que nós já vínhamos assistindo a uma série de epidemias - gripe aviária, gripe suína, Sars/Mers, dentre outras que causam síndrome respiratória - e que nos induzia a pensar que uma delas se transformaria em uma pandemia, como ocorreu com a Covid-19. Mas avalio que estas pandemias são causadas pelo desrespeito ao meio ambiente.

Por quê?

Um exemplo: uma pessoa adentra florestas em um nível que não deveria praticar, tem contato com vírus que o corpo humano não está preparado para combater e, assim, nascem as doenças. Quando insistimos nestas ações de desrespeito, pagamos um preço elevado. Segundo as teses mais aceitas, o pangolim (que lembra o tatu brasileiro) teria sido a espécie hospedeira intermediária que transmitiu pela primeira vez o coronavírus para seres humanos. É um animal que tem a carne muito apreciada na China, e partes deles, como couro e escamas, são usadas na milenar medicina chinesa. É caçado e vendido no mercado de Wuhan. É um animal rasteiro e teria sido contaminado pelas fezes por uma espécie de morcego asiático, que é hospedeiro de cerca de 500 espécies de vírus do tipo da Covid, o Sars-Cov. O pangolim é um dos mamíferos mais caçados do mundo, um dos bichos mais ameaçados no planeta e, ainda assim, é caçado. É o que citei sobre os momentos de turbulência, enquanto vivemos com o pé no futuro, imaginando o domínio da inteligência artificial e, ao mesmo tempo, estamos entrando na floresta para caçar pangolim. Esta é a transição histórica. A China é um país altamente tecnológico, não dá para duvidar, mas tem lá pessoas que comem morcego, usam um bicho ameaçado, como medicamento.

São tradições milenares.

O Japão nos ensinou a respeitar a tradição e evoluir sem praticar determinados atos. Os imperadores chineses comiam cérebros de macacos vivos com uma colher. Isto é impensável no século XXI, mesmo sendo tradição. Não sou hipócrita, já comi carne de caça em uma época sem consciência. Hoje não me ofereça que não vou aceitar, a não ser que seja criada para fim comercial. É uma questão de se adaptar ao nosso tempo.

Porque é preciso entender a história da China para entender a pandemia?

A China viu nascer várias pandemias em seu território. A peste negra teve origem na região Norte, na Mongólia. O exército estava sitiando uma cidade que era um protetorado europeu, com descendentes italianos, estava infectado e contaminaram os moradores da cidade. Ao fugirem, os italianos levaram a doença para a Europa. Foi na China e Índia que se começa a ideia de vacina, com a variolação. O que me chamou atenção foi a forma como a China tratou a Covid, de maneira muito eficiente. Lá a doença começou e logo acabou. E isso foi possível pelo sistema de governo chinês. Muita gente diz que não gosta da China, mas aprecia o modelo local de governança, com uma economia capitalista e um governo autoritário. Agora, o capitalismo nunca combinou com governo autoritário, que pede a democracia representativa, e que é algo que está sendo questionado no mundo inteiro. Não são só nós, brasileiros, que estamos insatisfeitos com os nossos políticos. O que leva a pergunta: a democracia é algo bom para a nova era? Vamos entrar com a democracia na nova era? Então, a Covid funciona como um catalisador desta discussão.

Como?

Os chineses encontraram a melhor solução, é isto que vamos ter que encampar? O meu livro pergunta isto e não ouso responder. Particularmente não gosto de nenhuma espécie de autoritarismo, mas há certas coisas que me incomodam, como a pobreza. Ela me choca profundamente. A China, em 2021, vai anunciar o fim da pobreza extrema, apesar de todo o retrocesso. O que leva a outro questionamento: o chinês comum está preocupado se o governo é autoritário, democrata, parlamentarista, presidencialista, capitalista, comunista, ou está interessado em passar a ter uma vida melhor? Repito, a Covid funciona como catalisadora destas grandes interrogações. E é o que marca também a transição de era. Então a gente se pergunta, como vai ser a nova era, que tipo de governo vamos ter? Hoje temos a democracia representativa, mas nada tem a ver com a democracia ateniense,  que posteriormente evolui para o estilo romano, com senado e para a democracia atual. Mas existe, a cada era, um tipo de governo que é preponderante. E nós estamos nos perguntando qual será o governo da era futura que se aproxima a passos largos?

As mudanças também vão ocorrer na forma de viver e trabalhar?

Na forma de viver e, sobretudo, porque está ligada à nossa vida, na forma de trabalhar. Nós dois somos o exemplo clássico. Antes da pandemia eu te chamaria para uma conversa pessoal, sem computador. Volto a afirmar, a pandemia não esta funcionando como elemento de mudança, mas catalisador das mudanças. Há muito falamos de um novo tipo de trabalho, que as relações de trabalho estão mudando. Muitos autores, inclusive o Domenico de Masi, que escreve sobre o ócio criativo, fala que teremos que nos habituar a um tempo em que trabalharemos muito pouco. Nada disso acontece hoje em dia porque ainda estamos na fase de transição. Mas o que se imagina no futuro é que o ser humano trabalhe cada vez menos e não vá a um local de trabalho, mas trabalhe de onde estiver. Isso a pandemia já causou.  Mas há outras discussões.

Quais?

Estamos observando que, para determinadas ações, não podemos ser tão democráticos, fazer o que quer. A vacinação no Brasil, por exemplo, há o debate se deve ser compulsória porque há o risco de contaminar outras pessoas. Mas te obrigar a tomar a vacina é um atentado a sua liberdade pessoal. Mahatma Gandhi não deixou aplicar uma injeção de penicilina que salvaria sua esposa, ação que era contrária aos seus princípios, e ela morreu de pneumonia. Hoje já não somos tão liberais. O bem comum é colocado acima das liberdades individuais. Quem trouxe a discussão a baila? A Covid-19. Situações que levaram a liberdade individual, cultivada por séculos no Ocidente, a ser questionada na pandemia. Por isso insisto que ela é uma grande catalisadora, ao levantar discussões sobre assuntos tão sensíveis, e que vamos refletir, porque temos que chegar na nova era melhores que estamos.

O senhor é membro do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP. O que é o passado, presente e o futuro?

Costumo dizer que o presente, que é o único tempo que nos realmente temos, não passa de um ponto de intersecção entre a curva do passado e a curva do futuro. O passado é a nossa história, o que vamos utilizar para refletir, e é o que não temos feito  como espécie, com muita sabedoria. O futuro não nos pertence e sequer existe. Quando adentramos o futuro, ele se torna presente. É sempre um natimorto. Por isso acho importante que se use o conhecimento do passado para que este pontinho, que é o presente, seja o melhor possível da sua história, a cada momento, e assim projete um futuro melhor. Um futuro, segundo estimam alguns futuristas mais otimistas, em que terá que se preocupar mais com seu ócio do que com seu trabalho, onde todas as coisas serão gratuitas, em mundo de fartura. Mas como vamos entrar nesta nova era? Como um ser humano egoísta, que só pensa em si próprio, que quer explorar riquezas? Nós somos uma única espécie humana, primatas superiores. Mas o fato de conseguirmos raciocinar não nos dá o direito de subjugar as outras espécie e desrespeitar o meio ambiente. E nos deve servir de alerta.

Por quê?

Nós somos a espécie mais predadora do planeta e isto deveria nos servir de alerta, porque outros seres com esta característica terminaram muito rapidamente, vide os dinossauros. A pandemia nos permitiu essa reflexão. Estamos em casa, trancados, ameaçados por um vírus que não somos capazes de enxergar a olho nu. Um vírus que, perto da complexidade que é um ser humano, não é nada, com uma estrutura simplória. Mas ele está  está tirando de muitos de nós a vida, e não nos levando para uma nova era.

O que esperar no pós-Covid?

Um futurista nunca trabalha com um único cenário. Olhando o passado, diria que não estou muito confiante que o ser humano adentre uma nova era melhor que agora, até porque é uma espécie lenta em suas transformações, do ponto de vista histórico. Os cronistas da Idade Média avaliavam que após a peste negra haveria um tempo de um ser humano religioso, apegado a coisas do espírito. A pandemia acabou e a turma caiu na farra, em um período de imensa devassidão de costumes, de toda sexualidade anormal e intensa, de muito roubo e saque. Tudo diferente do que imaginaram que aprenderiam com o sofrimento. 

O que o senhor tem observado?

Tenho visto que as reflexões aumentaram, até países inimigos se ajudando, as trocas na área da Ciência, que hoje não existe sem compartilhamento, e acho que, quando sairmos desta pandemia, vamos ter que pensar que sozinhos não venceremos uma nova pandemia. Então, será que a Covid não está mostrando que existem excelentes possibilidades para o futuro? O meu lado otimista faz um cenário de que aprendemos muito com a Covid, de uma  forma intensa e veloz, e que seria no mínimo uma burrice perder as lições. Tenho esperança, mas as coisas não acontecem na velocidade que desejamos, mas no passo histórico que o ser humano dá em cada época. Espero que do meu livro tirem algum conhecimento para reflexão, porque este é o papel do conhecimento, seja ele qual for, nos proporcionar a possibilidade de refletir para melhorar.

Covid-19: antes e depois

O autor do livro é Nilson Pereira Baptista, mestre em gestão empresarial pela UTAD/Portugal, pesquisador do NEF - Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP, pós-graduado em Análise de Sistemas pela PUC/RJ, consultor, instrutor e auditor interno de grandes empresas nacionais e internacionais atuando em sustentabilidade, gestão de stakeholders e sistemas de gestão baseados em normas internacionais. O livro foi editado pela Lisbon International Press.

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