Espaços dedicados à prática esportiva, criação de uma rua compartilhada no entorno da Igreja do Rosário com espaço de convivência, circuito gastronômico, jardim sensorial, mirante, áreas de valorização do comércio local e colônia de pescadores e a até a volta de um bonde para circular internamente pelo sítio histórico.
Essa é a Prainha que foi idealizada por um grupo de alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Entretanto, a prefeitura já tem outros planos para a área, com obra inclusive com ordem de serviço autorizada, com área exclusiva para grandes eventos, como shows e apresentações culturais.
Para a prefeitura, a revitalização do sítio histórico está se arrastando há décadas com "projetos mirabolantes". O projeto em curso é considerado pela administração factível e funcional e visa a preparar a área para eventos culturais e lazer, com previsão de ficar pronta no início de 2024 (saiba mais abaixo).
Segundo a professora orientadora do trabalho, Luciene Pessoti de Souza, o plano de reabilitação da Prainha é baseado em seis pilares: mobilidade urbana, tipologia arquitetônica, uso do solo, morfologia urbana, sistema de espaços livres e patrimônio ambiental urbano. Ela afirma que o projeto realizado pelos estudantes nem sequer foi aceito para ser apresentado para a prefeitura.
A ideia proposta pelos alunos não engloba apenas a área do Parque da Prainha, mas sim toda a região do sítio histórico, dando destaque ao entorno da Igreja do Rosário. O projeto prevê a construção de uma rua compartilhada com muitos espaços de vivência no entorno, restauração de fachadas históricas e também uma mudança na mobilidade do bairro, reduzindo a velocidade dos carros, dando ênfase ao caminhar, uso de bicicleta e também ao retorno do bonde fazendo um transporte interno no sítio histórico.
Para elaborar a proposta para a Prainha, os estudantes da Ufes ouviram moradores e comerciantes da região, e o resultado final foi bem recebido pela Associação de Moradores do Centro de Vila Velha, onde fica a Prainha. Também houve audiência pública em março para apresentar o plano, mas a prefeitura não quis conhecer a proposta.
De acordo com a professora Luciene, a Ufes, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-ES) e a Associação de Moradores tentaram apresentar o projeto para a administração municipal, mas não foram recebidos pela prefeitura. Por sua vez, a administração municipal afirmou que houve reuniões com representantes da Prainha.
Depois dessa primeira fase, o trabalho vai continuar com um projeto de extensão que deve durar mais um ano. "Os alunos vão continuar detalhando os projetos com a comunidade e vamos fazer uma entrega no final", afirma a professora.
"A ideia do projeto é ter uma rua compartilhada em todo entorno da Igreja do Rosário, integrando a praça com o parque, recuperando a relação da igreja com o mar e sendo um espaço de convivência"
A presidente da Associação de Moradores do Centro de Vila Velha, Maíra Sassi, disse que há dois anos a comunidade quer que algo seja feito no local para fomentar o turismo. Ela diz que a proposta da prefeitura nunca foi discutida com a comunidade e que só souberam dos planos pelo que foi divulgado em redes sociais. Ela ressalta que os moradores da região não querem que a Prainha seja um espaço para grandes shows, visto que traz transtornos para quem mora no local.
"A proposta da Ufes foi discutida com a comunidade e tem muito a ver com o que queremos, que é modernidade, mas sem perder a civilidade e o caráter de sítio histórico. E também fomenta o comércio sustentável, turismo, artesanato, lixo zero e acaba virando atrativo. Mesmo assim, poderiam acontecer alguns shows", destaca Maíra.
O que tem no projeto?
- Museu a céu aberto
- Centro de educação ambiental e patrimonial
- Circuito gastronômico
- Pista de skate
- Quadra de futebol
- Quadra de vôlei
- Playground
- Centro de apoio ao motorhome
- Estacionamento
- Centro de eventos
- Cinema projetado
- Entreposto de pescados
- Associação de Pescadores de Vila Velha
- Peixaria
- Jardim Sensorial
- Centro de apoio ao turista com artesanato local
- Mirante
- Bondinho com rota interna e circular
Projeto para Prainha por estudantes da Ufes
Prefeitura vai fazer obra de R$ 8 milhões
Já a Prefeitura de Vila Velha apresentou em janeiro um plano de requalificação para a Prainha e a ordem de serviço para início das obras foi assinada no final da Festa da Penha, ainda em abril. Em parceria com o governo do Estado, serão investidos R$ 8.458.802,72 na nova readequação da área de 42.592 metros quadrados.
Na ideia da prefeitura para o espaço, está prevista a construção de área exclusiva para grandes eventos, como shows e apresentações culturais, pista de caminhada e corrida, parquinho das crianças, área gastronômica, fonte interativa de águas dançantes, academia, ampla área de piquenique e circulação, além de banheiros de alvenaria.
Por sediar eventos da cidade, a reforma vai abranger ampla área de food e beer trucks — caminhões de comida e cerveja —, compondo o espaço para alimentação, infraestrutura para motorhome, parquinho infantil, academia popular e plataforma multi estação, espaço pet cercado, grandes áreas gramadas para a realização de piqueniques.
A prefeitura foi questionada, mais de uma vez, sobre os motivos de não ter recebido as entidades para conhecer a proposta de revitalização da área elaborada por estudantes da Ufes, junto à comunidade. E respondeu da seguinte forma: "Há décadas a revitalização da Prainha está se arrastando por projetos mirabolantes, com altíssimos custos, não funcionais".
Em nota, a Prefeitura de Vila Velha reitera que as obras que já estão em execução são de um projeto factível e funcional, com orçamento em caixa. Acrescenta ainda que a reforma atende diversos segmentos e foi debatida com a comunidade durante dois anos de gestão, em que várias sugestões foram contempladas e aprovadas por moradores e pelo Conselho de Patrimônio Municipal.
IAB é contra proposta da prefeitura
Para o Instituto de Arquitetos do Brasil do Espírito Santo (IAB-ES), o projeto proposto pela prefeitura não dialoga com o território e com a paisagem histórica. O IAB-ES afirma que o principal uso proposto é voltado para shows, sem considerar o impacto na vida cotidiana dos moradores. "Trata-se de uma 'arena de shows a céu aberto'. Há poucos espaços para prática de esportes, lazer contemplativo, lazer para diferentes grupos sociais e idades, pouca integração de modais", diz a nota do IAB.
A entidade também criticou o fato de a prefeitura não ter feito um amplo debate sobre o uso e as funções a serem implementados na Prainha. e por ter desconsiderado seus impactos no sítio histórico e seus bens culturais, ambientais e paisagísticos.
"O projeto não foi desenvolvido por equipe multidisciplinar, com a participação de historiadores, sociólogos, geógrafos e especialistas na área de patrimônio cultural e ambientalistas, além de representantes da sociedade civil", afirma o IAB-ES.