A noite chega e encontra a rua vazia. Sozinho, encostado no muro da Terceira Ponte, João* aproveita o momento e queima sua pedra de crack. Ao contrário da maioria dos moradores de Vitória que se isolaram em suas casas, ele não teme a contaminação pelo novo coronavírus. “Covid não pega em nós, não”, desabafa.
Assim como João*, dezenas de moradores de rua e usuários de drogas na Grande Vitória vivem a epidemia do crack, em meio à pandemia do coronavírus, do jeito que sempre viveram: embaixo de pontes, marquises, em grupos, sob o efeito das drogas, compartilhando seus objetos, equipamentos e espaços.
Percorrendo os municípios de Vila Velha e Vitória nas últimas semanas, foi possível constatar que muitos daqueles que se acostumaram a viver na invisibilidade estavam se recusando a enxergar o inimigo invisível, que no Estado já contaminou, até sexta-feira (07), quase 90 mil pessoas e tirou outras 2.698 vidas.
É o caso de Pedro*, que relatou que, ao estar exposto na rua, todos os dias, o corpo cria resistência a determinadas doenças, incluindo a Covid-19. “A gente fica a noite inteira no sereno, toma chuva e não acontece nada”, conta.
Outro que se sente imune à doença é Manuel*. Ao apontar o corpo, relembra as agruras que vivenciou, conta que não faz uso de crack e mostra uma garrafa de cachaça: “O problema está ali”, revela. Apesar de possuir um apartamento, diz que prefere ficar na rua.
Não é o único cujo uso de algum tipo de droga o afastou dos familiares e o levou a uma vida de perdas sucessivas. João* explica que tinha família, cujos laços se romperam ao longo dos anos. Já foi internado, tentou o tratamento algumas vezes, mas sem êxito. “Voltei para a droga”, desabafa.
É a mesma busca pela pedra que tem feito César caminhar pelo país. Oriundo do Mato Grosso, estava no Rio Grande do Norte quando decidiu vir para o Espírito Santo. Nós o encontramos na Praia do Suá. Ele relatou que não se importava em ser fotografado usando crack, mas lamentou não ter a pedra naquele momento.
DIA A DIA INSEGURO
Apesar das orientações das equipes de saúde e assistência social dos municípios para que evitem aglomerações, vários grupos de moradores em situação de rua e de usuários de crack foram vistos juntos. Alguns compartilhavam seus objetos. Parte deles usava máscara, que era retirada para o uso da droga.
Lançam mão do fato de que não conheceram nenhum morador de rua com a doença para reforçar a teoria de que estão imunes ao novo coronavírus. “Não sei de ninguém”, diz Pedro*. Mas em Vitória, 80 pessoas em situação de rua passaram pelo teste e 17 positivaram para a Covid-19. Um deles morreu.
Mesmo com a “suposta sensação de imunidade”, pessoas com suspeita da doença são afastadas do grupo. Foi o que aconteceu em Vila Velha, com um morador de rua que supostamente teria se contaminado, o que não foi confirmado.
Mas no cenário da pandemia, os riscos vão além do vírus. Em Vitória, desde a decretação da pandemia, em 11 de março, houve vários ataques aos moradores de rua. Em Jardim da Penha, um deles, de 25 anos, foi baleado no início deste mês. Em julho, um outro havia sido queimado enquanto dormia no bairro Itararé.
Ainda em julho, desta vez em Vila Velha, três deles foram atingidos por disparos de balas no bairro Ibes, em um local conhecido como Favelinha do Ibes, onde se aglomeravam. Segundo testemunhas, dois homens passaram e começaram a atirar sem um alvo específico.
Não é à toa que, para essa parte da população - muitos foram resistentes até a tomar vacina contra a gripe -, a doença causada pelo novo coronavírus é apenas mais um risco, em meio a tantos vividos no dia a dia.
RESISTÊNCIA
Em quatro municípios da Grande Vitória - Cariacica, Serra, Vila Velha e Vitória - vivem cerca de 1.350 pessoas vivendo nas ruas. A maior parte delas faz uso de crack e outras drogas. A única cidade da Região Metropolitana que não conta com este tipo de população, segundo informou a prefeitura, é Viana.
Durante o período da pandemia, as prefeituras relatam terem oferecido atendimento de atenção à saúde e assistência social, com a distribuição de kits de higiene, alimentação e vacinação contra gripe. Mas encontraram muita resistência, principalmente em relação à mudança de comportamento para evitar os riscos de contágio.
Em Vitória, que tem 496 pessoas vivendo nas ruas entre janeiro a julho deste ano, Karina Lelemand, gerente de Atenção à Saúde, relata que foi um desafio, principalmente em relação à mudança de comportamento em função de um vírus altamente contagioso, que já matou milhares. “Foi muito difícil porque eles andam e dormem sempre juntos, socializam objetos comuns. E, mesmo com a distribuição de kits de higiene, é um complicador. Eles procuram minimizar o risco, mas ele existe”, relata.
Em tendas instaladas em dois pontos da cidade - trabalho desenvolvido em parceria entre as secretarias de Saúde e Assistência Social - são oferecidas refeições e feitas abordagens sobre a etiqueta respiratória, a necessidade do uso da máscara e da higienização para evitar o contágio. “Muitos não prestam atenção no que falamos, mas as equipes fazem o monitoramento para identificar aqueles que apresentam sintomas respiratórios, que são encaminhados para as equipes médicas”, relata Karina.
Em Vitória foi instalado um Centro de Quarentena que oferece abrigo para que moradores de rua com sintomas da Covid-19 tenham condições de passar pelo período de isolamento. Na Capital, 17 deles testaram positivo para a doença e foi registrado um óbito.
MEDO DE MORRER
Em Vila Velha cerca de 250 pessoas vivem nas ruas. Cerca de 95% deles fazem uso de algum tipo de droga. Segundo Giovana Sarcinelli, coordenadora do Consultório na Rua da cidade, desde o início da pandemia a sua equipe observou um crescimento da população de rua, principalmente vindos de Cachoeiro de Itapemirim, Guarapari e até de outras cidades da Grande Vitória. Há ainda aqueles vindo de outros estados, como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Sul da Bahia.
É a fuga da Covid-19 e da violência. “Estão vindo para o Estado e para Vila Velha, correndo da violência, do desemprego, da dificuldade causada pela pandemia. Na Grande Vitória também há um ciclo de migração vindos de cidades que eles consideram mais perigosas. E como aqui temos um pouco menos de população de rua, apostam em maiores facilidades, como fila menor para alimentação”, explica Giovana.
Segundo ela, no mês de abril houve uma redução expressiva do número de moradores em situação de rua na cidade. “Os que eram encontrados perguntavam o que estava acontecendo, porque as pessoas sumiram das ruas, o comércio fechou, e os grupos que davam alimento tinham sumido. Explicamos o que era a pandemia, a doença e como deveriam se comportar para evitar a contaminação”, conta Giovana.
Ela também recebeu relatos de muitos moradores que temiam serem assassinados. “Muitos falavam que estavam com medo, e pensavam que estavam querendo matá-los”, acrescenta. Em Vila Velha todos foram vacinados contra a gripe, mas foi um desafio. “Eram muito resistentes”, explica.
Na cidade, não houve registro de contaminação pela Covid-19 entre a população de rua, segundo a prefeitura. Giovana observa que, embora o risco seja grande entre eles, pela condição de viverem na rua, por outro lado, fazem parte de um grupo fechado, o que pode restringir um pouco mais a circulação do vírus. “Eles ficam entre eles, não vão em supermercado, calçadão, convivem pouco fora de grupo. Pode ter uma lógica pela exclusão social e por ficarem mais protegidos da violência em grupo”, pondera.
REDUÇÃO APÓS PANDEMIA
Em Cariacica, cidade com 262 pessoas em situação de rua, houve uma redução desta população durante a pandemia, como relata Valdecy Mindas, gerente de Proteção Social Especial. “Logo que começou a pandemia, observamos uma diminuição nos atendimento e agora é que a movimentação entre eles foi retomada”, relata.
Em 2020, de janeiro a junho, foram efetuados 331 atendimentos de moradores em situação de rua. No mesmo período, nos anos de 2018 e 2019, foram realizados 520 e 465 atendimentos respectivamente.
Segundo Mindas, houve uma avaliação das pessoas que estavam em abrigo e na rua para a checagem de casos suspeitos da doença. Foram encontrados dois deles, mas não houve registro da Covid-19 ou de óbitos na cidade entre a população de rua. No que se refere à origem, a maioria dos que estão em situação de rua na cidade são da Grande Vitória (180), outros 25 são do interior do Espírito Santo, e 49 de outros estados, principalmente Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Na Serra, 345 pessoas foram cadastradas como em situação de rua de janeiro a junho de 2020. Um total de 110 estão nos abrigos, outras 82 foram reintegradas à família. Segundo o município, a média de pessoas em situação de rua na Serra é de 160 pessoas/mês, sendo que 80 delas frequentam e são acompanhadas pelo Centro-POP.
Cerca de 193 dos que vivem na rua são usuários de crack e outras drogas. Estão nas ruas da Serra pessoas de Vila Velha, Vitória, Cariacica, Fundão e Linhares, que lideram o ranking. Também há os que vieram da Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo a prefeitura, a população de rua é monitorada periodicamente pelas equipes médicas da Secretaria de Saúde, por meio do Consultório na Rua, implantando neste ano.
RETRATO DAS RUAS
VITÓRIA
- Cadastrados de janeiro a julho: 496
- Usuários de crack: 418, entre janeiro a julho (sendo 265 homens e 153 mulheres)
- Sexo: 265 homens e 153 mulheres
- Covid-19: 80 testados, 17 contaminados e um óbito
VILA VELHA
- Cadastrados de janeiro a junho: 250
- Cadastrados de 2015 a junho de 2020: 636, sendo que apenas 564 cadastros estão ativos
- Usuários de drogas: 95% fazem uso de algum tipo de substância
- Sexo: 151 mulheres e 413 homens
- Idade: A maioria tem idade entre 30 e 44 anos
- Educação: maioria possui até a 8ª série
- Covid-19: 1 caso suspeito, sem óbitos
SERRA
- Cadastradas de janeiro a junho: 345 pessoas em situação de rua
- Usuários de crack ou outras drogas: 193 pessoas
- Sexo: 79 eram mulheres e 266 homens
- Idade: maioria tem entre 18 e 39 anos
- Origem: Vila Velha, Vitória, Cariacica, Fundão e Linhares, além de outros Estados, como Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro
- Educação: 156 tinham ensino fundamental incompleto; 49, médio incompleto; 47, médio completo; 30, ensino fundamental completo; 17 eram analfabetos
- Covid-19: não há registros de óbitos, nem casos suspeitos
CARIACICA
- Cadastrados: 262
- Atendimentos de janeiro a junho: 331
- Sexo: 236 homens e 26 mulheres
- Idade: maioria entre 30 e 59 anos
- Educação: maioria com ensino fundamental incompleto
- Origem: Cariacica, Guarapari, Fundão, Serra, Vila Velha, Vitória, Viana, além de outros estados, como Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Há relatos também de outros países, como Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai
- Covid-19: houve dois casos suspeitos, mas que testaram negativo
(*) Os nomes usados nessa reportagem são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.