Em 1971, o The New York Times teve acesso a uma série de documentos sobre os planos reais do governo norte-americano para a Guerra do Vietnã. As mais de 7 mil páginas dos Pentagon Papers (nome dado pelo jornal) mostravam que os EUA, de Truman a Nixon, sabiam que não tinham chance de ganhar a guerra, mas sustentavam o combate e a morte contínua de jovens soldados principalmente por um interesse político: conter o avanço da China comunista. Acontece que a guerra já durava seis anos e o número de mortos só subia, o que colocava a população contra o governo, que agiu rápido para proibir que o The New York Times continuasse com as histórias.
Após o NYT ser proibido de publicar as matérias, um jornal bem menor, o Washington Post também teve acesso aos documentos, e é aí que começa The Post: A Guerra Secreta, filme dirigido por Steven Spielberg que chega hoje aos cinemas do Estado embalado pela indicação ao Oscar de Melhor Filme.
O filme tem foco na dupla Katherine Graham (1917 - 2001) e Ben Bradlee (1921 - 2014), vividos respectivamente por Meryl Streep (em sua 21ª indicação ao Oscar) e Tom Hanks. Graham era presidente do Washington Post, a primeira mulher no comando de um jornal de grande circulação nos EUA, mas não contava com a confiança de seus pares, que acreditavam que ela não fazia jus aos legados do pai e do marido.
Bradlee, por sua vez, era o editor-chefe da publicação e começava ali uma trajetória de extrema importância na imprensa americana - já foi retratado em Todos os Homens do Presidente (1976), filme que tem ligação direta com The Post.
O conflito começa quando Bradlee tem acesso aos documentos e luta para publicá-los apesar das recomendações do departamento jurídico, dos acionistas do jornal e das ameaças do governo Nixon e olha... quem já viveu dentro de uma redação sabe que esse é um conflito e tanto.
CONVOCAÇÃO
Em tempos de fake news e de governo Trump atacando os veículos de imprensa, o filme de Spielberg funciona quase como um chamado do diretor à imprensa norte-americana. Esse aspecto é até reforçado pelo paralelo comportamental talvez involuntariamente traçado entre Nixon e Trump; uma gravação telefônica real de Nixon constrói as semelhanças.
Por mais que Steven Spielberg seja lembrado como um diretor de grandes bluckbusters, ele é um gênio na arte da narrativa. Isso faz com que The Post cresça à medida que seu clímax se aproxima. O diretor parte do micro e chega ao macro de maneira que uma história de personagens se torne algo grandioso.
Esse poder narrativo faz com que The Post, ao contrário de Spotlight (com quem despertará óbvias comparações), seja um filme interessante não apenas para jornalistas, uma vez que a protagonista, no final das contas, é a luta de Graham e Bradlee pela liberdade de imprensa o jornal, afinal, não deve servir aos governantes, mas aos governados.