São mais de 30 trabalhos lançados, premiações diversas, e cerca de sete milhões de álbuns vendidos ao longo de 36 anos de carreira. Os números colocam o Titãs como uma das bandas mais prósperas do rock brasileiro, acima de qualquer questionamento. Ainda assim, mesmo sem precisar provar nada a ninguém, Branco Mello, Tony Bellotto e Sérgio Britto se juntaram a uma talentosa equipe para uma empreitada inédita: a produção da ópera-rock"Doze Flores Amarelas" (ouça o disco inteiro no fim da matéria).
O projeto foi pensado pela primeira vez há cerca de três anos para suprir uma demanda dos próprios integrantes, interessados em arriscar e trilhar caminhos diferentes mesmo após quase quatro décadas de banda. Na época, Paulo Miklos estava de saída, e o grupo ganhou o reforço do guitarrista Beto Lee e também do baterista Mário Fabre.
Foi algo espontâneo, falávamos sobre um projeto novo, sobre o que poderíamos fazer... Aí pensamos em contar uma história com canções, e a ópera-rock é exatamente isso. Vimos uma oportunidade de falar sobre assuntos que não costumamos falar, de interpretar pela voz dos personagens. No fim, foi muito instigante. Uma experiência rica e diferente para nós, explica Sérgio Britto, responsável por vocais, teclado e baixo.
A escolha do tema, outro desafio para a banda, foi cirúrgica: em quase 30 faixas, o grupo conta a história de três jovens universitárias que utilizam um aplicativo para achar alguma festa interessante. Na noite do evento, as três são violentadas sexualmente por cinco homens, e o fato se desdobra em consequências para todos os envolvidos. Na ópera-rock, as três são chamadas Marias, e se juntam ao final da trama para bolar uma vingança.
ROTEIRO
Para desenvolver os argumentos de Doze Flores Amarelas, o Titãs teve a contribuição do produtor Rafael Ramos, além do dramaturgo Hugo Possolo e do jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva.
"É um assunto muito em voga (o assédio). Um tema antigo, que continua em alta, infelizmente, e que vai demorar para ser resolvido. Embora sejamos homens, é um assunto que diz respeito a todos nós. Cabe a mim fazer a minha parte. Isso nos tocou e nos motivou a escrever e a falar sobre", diz Britto.
COESÃO
Além do discurso relevante, a banda apresenta um trabalho técnico diverso, mas muito coeso, que vai do rock bem direto (como "A Festa", "Hoje" e "Me Chamem de Veneno"), a pitadas de jazz, soul e r&b ("Fim de Festa", faixa-título e "Pacto de Sangue").
Britto diz que o fato de apostar em uma nova abordagem, principalmente para quem já compõe há tantos anos, é benéfico por trazer "um gás" diferente aos músicos envolvidos.
"Dá um frescor e um entusiasmo que talvez não tivéssemos se fosse com um disco normal de carreira. Estamos frenéticos, tivemos mil ideias, pensamos em mil arranjos. Mas, sobretudo, trabalhamos de maneira febril e entusiasmada. Um pouco por causa do tema, e também pela dificuldade de transpor isso para a música", detalha.
Nos palcos, as três Marias ganham as vozes de Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck. A performance requer ainda mais empenho dos integrantes, que mesmo depois de tanto caminho percorrido, mostram-se dispostos a apresentar um trabalho honesto a seu público.
"Nos preparamos muito. Trabalhamos com constância, sem prazos, porque somos daquela banda que quanto mais trabalha, melhor o resultado. É isso: trabalhamos bastante para fazer algo bem feito", conclui Britto.
No total, já foram sete apresentações, incluindo a gravação do DVD, em maio. A mídia tinha previsão de lançamento para 13 de julho, Dia do Rock, mas a novidade foi adiada para setembro, quando Branco Mello retorna do tratamento de um tumor na laringe.
OUÇA
Doze Flores Amarelas
Titãs. Universal Music, 29 faixas.
Disponível nas principais plataformas de streaming.