Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cultura

Novo tributo ameaça encarecer livros e quebrar editoras que já agonizam

Governo confirma intenção de acabar com alíquota zero do mercado editorial

Publicado em 07 de Agosto de 2020 às 13:38

Redação de A Gazeta

Publicado em 

07 ago 2020 às 13:38
Pilha de revistas
Editores concordam que o novo tributo vai encarecer os livros e pôr em xeque a sobrevivência das editoras menores Crédito: Sergejs Rahunoks/Freepik
Foi um dos maiores escritores brasileiros, o então deputado constituinte Jorge Amado, quem apresentou a emenda que garantiu na Constituição de 1946 que os livros seriam imunes de impostos, assim como jornais e periódicos. Mantida na Carta de 1988, a norma parecia assegurar que não se pagaria mais tributos para produzir material para leitura. Mas, nas últimas semanas, o fantasma da taxação voltou a rondar o mercado editorial.
A reforma tributária encaminhada pelo ministro Paulo Guedes ao Congresso prevê que, na substituição de tributos como PIS e Cofins pela Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços, a CBS, se eliminem as isenções que valiam para as contribuições antigas. A ameaça ao livro volta porque, apesar de imune a imposto, ele ainda está sujeito às chamadas contribuições sociais, tributos com destinação específica -e só paga alíquota zero de PIS e Cofins por força de uma lei de 2004.
Editores concordam que o novo tributo vai encarecer os livros e pôr em xeque a sobrevivência das editoras menores, que já trabalham com margem apertada de lucros e veriam seu produto ser tributado em 12% de uma hora para outra. A diversidade que oxigena o setor editorial estaria sob risco de dar lugar a um mercado de poucas empresas, que conseguiriam repassar o novo custo aos preços de capa.
O Ministério da Economia confirma a intenção de acabar com a isenção do livro, ressaltando que não se trata de nova taxação, mas de um benefício que não será mantido. "A CBS tem como pressuposto a não concessão de benefícios", diz o ministério, em nota. "Nesse sentido, foram eliminadas as hipóteses de alíquota zero (eram mais de cem) antes previstas. Assim, foi também eliminada a alíquota zero que se aplicava nas operações com livros."
A resposta que Guedes deu a uma pergunta do deputado Marcelo Freixo, do PSOL, em uma audiência pública no Congresso na última quarta, ilustra sua forma de abordar o assunto.
"Nós temos de auxiliar justamente os mais pobres, os mais frágeis. Então, vamos dar o livro de graça para o mais pobre, e não isentar o deputado Marcelo Freixo, que pode muito bem pagar um livro. Eu também, quando compro meu livro, preciso pagar meu imposto. Uma coisa é você focalizar a ajuda, outra é você, a título de ajudar os mais pobres, na verdade isentar gente que pode pagar", disse o ministro.
"Acho que talvez seja mais fácil convencer os parlamentares que o Executivo", afirma Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, sobre as estratégias que a indústria tem adotado para se contrapor à volta da tributação.
O sindicato e outras sete entidades assinaram um manifesto, publicado quarta (5), que elenca diversos argumentos em defesa da causa, como o que atribui à isenção tributária a queda do valor médio do livro em 33% de 2006 a 2011 e o aumento de 90 milhões no número de exemplares vendidos.
"O tamanho da economia do livro é desproporcional à contribuição que ele traz para a sociedade", argumenta Pereira. A alíquota zero, segundo ele, representa "uma aposta num Brasil moderno, inclusivo, com vontade de ascensão". "O livro é o instrumento perfeito para o crescimento pessoal."
O país tem uma carência histórica de investimento do Estado em políticas para leitura, aponta o editor. "Se você taxar o livro nesse momento, o que está fazendo é um desinvestimento. Não investe e ainda retira o dinheiro."
A deputada Fernanda Melchionna, do PSOL, que lidera a Frente Parlamentar do Livro, da Leitura e da Escrita, diz que prepara uma emenda ao projeto de reforma, que vincula a isenção do livro a contrapartidas que abarquem todos os eixos da Política Nacional de Leitura e Escrita.
"Paulo Guedes tem uma política de salvar os grandes e liquidar os pequenos", afirma a deputada, acrescentando que mesmo livrarias e editoras médias podem ser consideradas pequenas empresas. "O que a reforma faz é onerar o setor de serviços e desonerar os bancos, quando o movimento tinha que ser o contrário."
Segundo o advogado Rubem Perlingeiro, que elaborou um parecer jurídico fundamentando a isenção dos livros, a ideia da imunidade constitucional e da Política Nacional do Livro, de 2003, é permitir que a literatura circule livremente. "Criar um tributo para o livro, seja com que nome for, é tentar distorcer o espírito da Constituição."
O economista Bernard Appy, um dos mentores da PEC 45, a proposta de reforma tributária que tramita na Câmara desde o ano passado, tem uma outra visão. Mesmo reiterando que seu projeto não mexe na tributação de livros e mantém a imunidade, ele afirma que essa taxação não é errada.
"Quem consome livro, na grande maioria, são pessoas de alta renda. Então a rigor, quando você desonera o livro, desonera aquilo que uma pessoa de alta renda consome."
Diante de uma pergunta sobre os riscos de a taxação provocar um aumento de preços que torne o livro um produto ainda mais elitizado -indo de encontro a qualquer proposta de popularizar a leitura-, ele diz que o ponto de vista é razoável.
"Por outro lado, tem que pensar que a maior parte da demanda do livro hoje é de pessoas que continuariam comprando se o livro fosse mais caro", acrescenta. "Com os recursos que são arrecadados, você pode fazer uma política que seja melhor para cultura do que manter a não tributação de livros."
O mercado editorial brasileiro, que já encolheu 20% desde 2006 e ainda sofreu o baque da pandemia, se vê agora diante de mais uma turbulência para apertar os cintos.
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Compra on-line; Black Friday; e-commerce; compra virtual; comércio eletrônico
O consumidor mudou mais nos últimos cinco anos do que nas duas décadas anteriores
Grupo de alunos teve a oportunidade de fazer um voo até Guarapari
Alunos da rede pública voam de avião pela 1ª vez em aula no Aeroporto de Vitória
Flávio Bolsonaro foi para os Estados Unidos depois de perder as eleições
Veja linha do tempo: da fuga de Flávio até a divulgação da carta golpista

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.