Publicado em 26 de junho de 2019 às 11:07
Ninguém vai mais sair de rei ou pirata ou jardineira. O ano é 2027, e a folia mais importante do país não é mais o Carnaval, e sim a Festa do Amor Supremo, onde corpos dançam contra a luz enquanto esperam a vinda do messias e sua promessa de amor eterno. Estamos em uma rave de Cristo.>
Assim começa "Divino Amor", o novo filme do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro - narrado por uma voz de criança que vai nos acompanhar. Num futuro próximo, os evangélicos penetraram de tal forma nas instituições e nos costumes que o Brasil agora é outro.>
Veja o trailer de "Divino Amor":>
O diretor do aclamado "Boi Neon" entrega uma ficção que inverte a distopia. Em vez de representar o indivíduo massacrado pelo poder, a protagonista é uma agente do próprio aparato público. Dira Paes encarna Joana, burocrata que cuida de divórcios e trabalha para dissuadir casais da separação. Na visão dela, sua vida é a utopia realizada.>
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O país ainda é laico, mas Joana usa o Estado como espada de sua cruzada. Leva as pessoas que atende para um grupo de apoio de casais. Lá, uma instrutora lê o trecho mais famoso da carta de São Paulo aos coríntios - aquele que diz que o amor tudo sofre, crê, espera e suporta.>
Parte da terapia consiste em um marido transar com a mulher do outro, mas destrocarem na hora do orgasmo. É o suingue do Senhor. Mas, como em antigas maldições bíblicas, Joana e seu marido, vivido por Julio Machado, não conseguem ter um bebê. Suplicam a Deus, mas ele se cala.>
"Venho de uma família de classe média baixa da periferia do Recife. Para mim, foi muito significativo ver a paisagem do meu bairro se modificando a partir de uma igreja evangélica e ver meus amigos de infância se convertendo", diz Mascaro. "Vindo dessa origem, me incomodava a falta de conexão com esse assunto quando comecei a dialogar com a classe cultural brasileira.">
O longa "Divino Amor" expressa um dilema democrático - na briga política, há quem tente difundir valores não pela construção de consensos, mas pela instrumentalização do Estado e a briga no campo da cultura.>
A rave pentecostal da abertura é isso. A cada manifestação das artes ou dos costumes profanos corresponde uma contraparte evangélica - no caso do filme, até a suruba tem a sua versão santa.>
"Eles percebem no filme que a sexualidade é fundamental para a manutenção da família cristã. E é importante pensar em práticas de erotismo para alimentar isso", afirma Mascaro.>
No fundo, o que o diretor imagina é um Brasil em que a guerra cultural tenha sido vencida pelos evangélicos. Todo o visual remete a isso.>
"É uma religião muito sofisticada, complexa e eficiente. Tem um projeto hegemônico. Ela é capaz de se apropriar da cultura pop, da sedução e de práticas que a gente considera de esquerda para radicalizar ainda mais uma agenda conservadora", afirma Mascaro.>
Em seus outros longas, o diretor já se revelou um esteta. Neste, ele imagina como a dominação cultural evangélica se expressaria em imagens. O resultado é uma mistura de estilos, que o diretor diz vir tanto da pornochanchada quanto da ficção científica --tudo com neon, a exemplo do olhar eletrizante que lançou sobre o universo das vaquejadas em seu longa anterior.>
"Não foi por nenhum fetiche que o neon chegou também a esse filme. É uma >
religião que não tem imagem ou objeto sacro, a estratégia foi pensar a evolução simbólica dela com a luz como alteradora de estados de consciência", diz Mascaro.>
Mas, em um momento na qual as obras de arte pretensamente políticas se convertem em meros panfletos ou pregação para convertidos, Mascaro vai por outro caminho.>
O mais óbvio a se esperar, por exemplo, seria algo próximo à série "O Conto da Aia", com mulheres submetidas à lei do cão. Mas, embora haja repressão aqui e ali, em "Divino Amor" elas são fortes. A protagonista é quem tem o trabalho de escritório, seu marido fica em casa e trabalha como florista. E é ele o infértil.>
"Na série, o engajamento com a personagem é imediato. Você quer que ela ganhe do Estado. No meu caso, é uma anti-heroína, muita gente não concorda com o que ela faz.">
É um longa até generoso com os evangélicos, mas que não evita críticas. No futuro imaginado, Joana vai de carro a um drive-thru da fé atrás de conforto--é só entrar com o carro que há um pastor lá dentro pronto para oferecer conselhos.>
Joana vai perceber que há uma razão para as regras da democracia existirem quando o establishment recusar apoio a ela. O caso da burocrata que dificulta o acesso ao divórcio serve de lição para que se defenda os direitos dos inimigos --se não há liberdade para alguns, no capítulo seguinte pode não haver liberdade para ninguém.>
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