Mesmo de longe e sempre que posso, leio algumas matérias e colunas de A Gazeta para ficar informado do que acontece no meu Estado. Entretanto, ultimamente tenho ficado um tanto quanto inquieto com algumas frases desconexas usadas por políticos para promover uma intencional confusão acerca da obra de Paulo Freire. Queria alargar o debate e rasgar essa bolha imaginária criada de que Paulo Freire só é um grande educador no Brasil e que as universidades brasileiras reproduzem suas teorias por puro viés ideológico.
Estou em período de estudos no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, em Portugal. Por aqui, pesquisadores do mundo inteiro (eslovacos, espanhóis, ingleses e franceses) têm curiosidade e até sustentam teses e dissertações com a reflexiva narrativa de Paulo Freire. Para além da maneira inovadora de alfabetizar adultos, Freire tem contribuição significativa no desenvolvimento do pensamento crítico e da intervenção do aprendiz em sua realidade.
Aqui na Europa, ele é lembrado em congressos, bancas e simpósios em que estes temas são tratados. A obra “Pedagogia do Oprimido” foi considerada em 2016 um dos 100 livros mais citados no mundo e o 2º mais citado no campo da educação. A London School of Economics, por meio do professor Elliot Green, também revelou que esse é o terceiro livro mais citado no mundo na área das ciências sociais e humanas.
E para quem ainda diga que seus discursos são “sem sentido”, é importante lembrar que, ao receber seu 41º título de Doutor honoris causa, na Universidade de Lisboa, em janeiro de 1996, ele fez um discurso tão emblemático que teve que ser memorado em um livro escrito pelo próprio reitor da época, António Nóvoa, um dos intelectuais mais influentes em educação na Europa.
Uma pesquisa simples, em qualquer base de dados em universidades estrangeiras com a tag Paulo Freire mostrará a grandeza desse intelectual. Eu, para além dos números, posso afirmar com bastante tranquilidade: Paulo Freire também vive nos institutos e universidades no exterior.
Chegou a hora de para de dar murro em ponta de faca e compreender a envergadura de Freire, que com uma obra que completa 50 anos continua sendo atual e assertivo.
*O autor é professor e mestre em Ensino pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa