Em qualquer lugar do mundo em que os serviços públicos são tratados com mais seriedade, as péssimas condições de trabalho e de atendimento da Unidade de Saúde de Jardim América, em Cariacica, seriam coisa do passado após o surto de um médico, revoltado com a situação calamitosa presenciada diariamente. Em 15 de maio do ano passado, Aurédio José Couto não suportou a pressão e explodiu, promovendo um pequeno quebra-quebra com cadeiras, prateleiras gavetas. Um comportamento indefensável. Mas, diante da falta de respeito com profissionais e, principalmente, com os pacientes que dependem da saúde pública, foi possível ao menos compreender o que levou aquele profissional a ter um dia de fúria. Novamente, imperdoável.
Imperdoável também é que, um ano depois, o médico - que ficou 115 dias afastado das funções após o episódio - continue tendo que se deparar diariamente com o mesmo descaso. Em entrevista concedida a este jornal na terça-feira, afirmou que a situação está ainda pior do que há 12 meses e demonstrou um nível de bom senso que anda faltando às autoridades. “Agora eles já sabem como está e não dão atenção. E isso aqui é uma unidade de saúde há um quilômetro de Vitória. Já imaginou como está a unidade de Caçaroca, de Flexal? Lá em Nova Rosa da Penha?”, apontou.
Como o médico fez questão de frisar, o atendimento em uma unidade de saúde existe justamente para evitar que pacientes com sintomas menos graves sigam diretamente para uma unidade de pronto atendimento ou a um hospital. Não deveria ser surpresa para os gestores da saúde pública, portanto, que a superlotação dos PAs da Grande Vitória tenha se tornado uma rotina. No de Alto Lage, na terça-feira (14) a espera chegava a cinco horas, efeito de baixas recentes no quadro médico, o que por si só é um mau presságio para a saúde pública. Se o atendimento é falho e ineficiente no nível municipal, continuará sem êxito nos seguintes. O caos fica inevitável.
O médico deixou evidente que não se encontra a cura num ambiente como o da unidade de saúde em que trabalha. “Aqui é lugar de pegar doenças, e não de tirá-las”, sentenciou. É também a própria dignidade das pessoas que adoece. O descaso com a saúde pública é uma enfermidade crônica brasileira. Sabe-se que não existe remédio milagroso, mas os gestores não podem continuar agindo como se já tivessem desligado os aparelhos.