Tragédia anunciada. Assim foi definida pelo leitor Guilherme Neto uma carreta que transportava rochas sem qualquer tipo de amarração em uma rodovia do Estado. Os flagrantes de imprudência se acumulam, com pedras empilhadas, tráfego na contramão e o que mais a falta de fiscalização permitir. Infelizmente, os acidentes também se avolumam, e o mais recente deles, na Serra, tirou a vida de três pessoas de uma família e deixou um menino de 11 anos lutando para sobreviver em um hospital.
Ao ouvir o que autoridades e mercado têm a dizer sobre a insegurança no transporte de rochas no Estado, ficam evidentes a inércia para resolver questões urgentes e o jogo de empurra sobre as responsabilidades, incondizentes com a relevância do setor de rochas para a economia do Espírito Santo.
Especialistas apontam que as medidas para garantir mais seguranças a esse tipo de transporte devem atacar em três frentes: melhorias na via, fiscalização efetiva e atenção ao caminhoneiro. Nenhuma delas caminha a contento. A duplicação das rodovias no Estado engatinha. Na BR 101, por exemplo, nem de 8% do previsto em contrato de concessão foi entregue no tempo estipulado.
Quanto à fiscalização, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) alega déficit de agentes. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que regulamenta o setor, também não dá conta do fluxo de carga que atravessa o Estado – e uma parceria entre esses dois órgãos foi rompida, inviabilizando ainda mais a eficácia das ações. O Dnit está em silêncio desde a semana passada, quando foi cobrada por este jornal sobre duas balanças interditadas.
A terceira frente de batalha, que mexe com a rotina do motorista, é aquela em que acontece um jogo de empurra criminoso. A legislação permite que caminhoneiros trabalhem até 12 horas por dia, o que é exaustivo, e de quebra deixa brechas sobre o controle da carga horária. As empresas, por outro lado, em vez de preencherem as lacunas da lei com bom senso, apenas culpam o Estado, que deveria “fazer a lei e mostrar como fazer”.
Para coroar, uma força-tarefa criada em 2017 com Ministério Público, PRF, ANTT, Polícia Militar e Dnit pouco avançou além de “diversas reuniões”. Diante da falta de atitude de órgãos públicos, empresas e sindicatos, fica impossível qualificar ocorrências nas estradas como meros acidentes.