O que a tragédia de Brumadinho tem a ver com a guerra do tráfico na Grande Vitória? Ambas descendem da ineficiência estatal, a mãe de todas as agruras brasileiras. Não é exagero. A lama que cruzou o caminho de centenas de pessoas em Minas Gerais, na mais letal catástrofe ambiental da história do país, é o símbolo mais recente do descaso governamental, de um Estado que parece se comprazer pela própria indolência. Não se distingue, nesse sentido, das mortes testemunhadas diariamente, saldos de um conflito social que se fortalece na apatia estatal.
Não é o caso de eximir as responsabilidades da Vale, de forma alguma. Elas são bem claras, e não é difícil unir as pontas. Um Estado ineficiente e burocrático é incapaz de impor regras que sejam efetivamente cumpridas. Licenças ambientais e outros carimbos acabam existindo para perpetuar o poder de uma elite burocrática, não para evitar tragédias ambientais e humanas.
É algo que alimenta a cultura da gambiarra, do jeitinho, perfeitamente aceita por certa casta empresarial, apegada ao livre trânsito nas esferas mais altas do poder. São os amigos do rei, que sempre entram nesse jogo de cartas marcadas para vencer. A derrotada é sempre a população, carente de serviços e amparos que deveriam ser garantidos por esse Estado. O que resiste, contudo, é o privilégio de alguns escolhidos, grupos bem organizados que sabem levantar o tom quando se sentem ameaçados.
Saúde, educação e segurança são alguns dos setores mais sensíveis da sociedade. Áreas capazes de garantir uma existência com mais dignidade, equiparando as oportunidades. O ponto de partida para mais justiça social. É com isso que o Estado brasileiro precisa começar a se preocupar, deixando as perfumarias de lado. Nossa democracia, infelizmente, ainda não conseguiu neutralizar os favorecimentos institucionalizados por décadas de política de compadrio. Mas é dada a hora da mudança.
Só assim, assassinatos à luz do dia deixarão de ser rotina, com as autoridades garantindo a ordem. Só assim, mortes sem sentido como as de Brumadinho não continuarão assombrando a realidade, transformada em pesadelos vívidos e recorrentes. O Brasil, cansado de ser o país do futuro que nunca chega, precisa deixar definitivamente esse Brasil no passado.