Há quanto tempo a Grande Vitória não é beneficiada com um projeto estruturante, com obras de grande porte, capazes de reduzir significativamente os transtornos de um trânsito cada vez mais intenso? A pergunta é pertinente porque é inevitável que qualquer contratempo nas vias arteriais seja gatilho para parar a Capital e bloquear seus principais acessos, com impactos dramáticos também nos demais municípios. Não há como escapar, como vimos durante a semana, quando alguns incidentes foram emblemáticos do caos: num mesmo dia, um caminhão tombou na subida da Curva do Saldanha, no Centro de Vitória, enquanto outra carreta parada em “L” interrompeu o fluxo na Rodovia Serafim Derenzi. Vitória, como se fosse possível, ficou ainda mais ilhada. Situação comum também quando, por necessidade, a Terceira Ponte é fechada.
Há 50 anos, este jornal já se preocupava com as consequências da precariedade da infraestrutura para o futuro da Região Metropolitana. Em 1969, a Ilha se ligava ao continente por duas pontes: a da Passagem e a Florentino Avidos. Uma terceira, a de Camburi, havia ruído no ano anterior e permanecia inutilizada. Em uma reportagem da época, foram feitas projeções sobre novas conexões, pois já havia a necessidade de projetos em face do desenvolvimento do Estado. Dez anos depois, a Segunda Ponte era inaugurada. Em 1989, foi a vez da colossal Terceira Ponte. Em 1996, com o projeto da Ayrton Senna concluído, encerrou-se o ciclo das grandes obras que ampliaram as vias de acesso a Vitória. A Nova Ponte da Passagem, entregue em 2009, foi a substituição de uma estrutura que já estava ali antes, portanto não se enquadra nesse contexto, assim como a ampliação da Ponte de Camburi.
Os últimos 20 anos foram prósperos em anúncios plenamente alardeados, mas que não conseguiram sair do papel. Houve o projeto de uma quarta ponte - pensada inclusive para receber o também falecido BRT - ligando Vitória e Cariacica, que não se concretizou. Também falou-se muito sobre um túnel conectando Bento Ferreira a Glória. Naufragou. E assim seguimos, sem nenhuma perspectiva relevante.
Fica evidente que a ousadia do passado ficou para trás quando se aborda o planejamento do transporte público. Até mesmo o Sistema Transcol, atualmente defasado e digno de críticas, foi um marco na integração da Grande Vitória no fim dos anos 80. Nada tão significativo foi realizado desde então. O sistema aquaviário deixou de existir na virada do milênio e sua retomada se transformou numa assombração, da qual gestores adoram falar, mas ninguém vê avançar. E também vale lembrar o metrô de superfície que virou folclore capixaba.
Faltam principalmente visão gerencial e engajamento. Há sempre a viabilidade de parcerias público-privadas para grandes empreendimentos dessa natureza, alternativas existem. Mas a Grande Vitória continua sem sair do lugar, principalmente quando comparada com outros centros urbanos no país. A constatação é a de que não só estamos cada vez mais parados no trânsito: paramos também no tempo.