A sociedade brasileira é quem se saiu verdadeiramente vitoriosa das ruas, quando se faz um balanço das manifestações governistas de domingo passado e as de oposição, no último dia 15. Na essência, as pautas dos manifestantes pró-Bolsonaro que tiveram de fato relevância no domingo não se diferem tanto daquelas consideradas de oposição, levadas a campo com a motivação da defesa da educação.
A imensa maioria dos brasileiros que ocuparam o espaço público nesses dias foram movidos por um sentimento de que é possível um país melhor e mais justo, ainda que os caminhos para se chegar até lá não sejam os mesmos. É nesse ponto que as duas manifestações se distinguem, e a democracia é a garantia de que o pensamento único não seja a ordem vigente, como seria praxe em regimes autoritários. Necessita, sim, de articulação e busca de consenso.
Portanto, como parte indissociável desse jogo democrático, é importante levar em consideração que quando se pede a punição para a corrupção, o combate ao crime, o fim dos privilégios ou a reforma previdenciária não se está distante das reivindicações de educação e saúde de qualidade para todos, num ambiente com mais justiça social. A ideologia separa, acaba distorcendo ainda mais o jogo de espelhos social. As diferenças existem, mas tanto à direita quanto à esquerda são as aberrações que tendem a ser descartadas. No domingo, por exemplo, bandeiras pelo fechamento do Congresso ou do STF mostraram-se menos tremulantes do que aquelas que pediam soluções possíveis pela via política, amparadas por um desejo de moralização institucional. É a mesma nulidade de quem, no campo oposto, prega o fim do capitalismo. São discursos extremos que não se sustentam na multidão.
Quem ocupou as ruas no domingo ou há duas semanas possui, portanto, anseios válidos, que devem estar presentes no debate público. Todos querem uma saída para a crise, que deve ser sempre institucional e republicana. É preciso, contudo, superar certa ingenuidade, como a hostilização da política, com decisões de mão única que só atendam aos seus próprios interesses. Nenhuma democracia funciona assim. As manifestações permitem um aprendizado: o importante, hoje, é que o Planalto tenha capacidade de mediar essas diferenças, buscando o melhor para o país.