“Pena que acabou, vou embora... mas planejando a próxima, se assim Deus permitir”. As palavras registradas em uma rede social são de Danielli Martins, pouco antes de retornar ao Espírito Santo após viagem de férias com a família ao Nordeste do país. Ela, o marido e um bebê não chegaram a seu destino, em Viana, porque o carro em que estavam foi atingido por uma carreta que transportava granito. Outro filho do casal está em estado grave.
O acidente na BR 101 na noite de segunda-feira (10) carrega diversos ingredientes de uma tragédia, e alguns deles não têm nada a ver com destino ou acaso, mas sim com falhas bastante humanas, na fiscalização das cargas, dos veículos e das estradas.
Os comprimidos de anfetamina encontrados na carreta, se comprovado o uso, talvez sejam o mais grave desses fatores humanos.
Usada com frequência por caminhoneiros para aguentar longas jornadas, a substância pode se tornar ainda mais comum nas estradas, já que um projeto de lei do presidente Jair Bolsonaro inclui a proposta de que não seja mais obrigatória a realização do exame toxicológico para motoristas profissionais. É a autorização, em lei, para que condutores trafeguem alterados, colocando vidas em risco.
A impunidade também encontra trânsito livre com outras duas mudanças recentes na fiscalização. O caminhoneiro que evadir, obstruir ou dificultar a fiscalização durante transporte de cargas terá um belo alívio no bolso.
A multa, que era de R$ 5 mil, foi reduzida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres e agora custa 11% do valor anterior, apenas R$ 550. Além disso, a autarquia também suspendeu um acordo que permitia que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) emitissem multas de infrações regulamentadas pela ANTT, como o transporte clandestino de cargas.
Excesso de peso, desvios de balança e eixos adulterados são problemas frequentes que, mais do que meras infrações, configuram condutas criminosas, com consequências óbvias. No ano passado, uma operação da PRF e do Ministério Público do Estado desbaratou uma quadrilha acusada de adulterar eixos. O cálculo era de que mais de 2 mil acidentes poderiam ter sido causados por veículos modificados de forma fraudulenta.
A morte trágica da família se soma a esse número assustador, em que o transporte de rochas tem um triste protagonismo. Há eventos que os capixabas não apagam da memória, como a colisão entre uma carreta, um ônibus e uma ambulância que deixou 23 mortos. Três meses depois, outro caminhão que levava granito bateu em um micro-ônibus, matando 11 pessoas, em Mimoso do Sul.
Ambas as tragédias ocorreram em 2017 na BR 101 e nas duas foram constatadas irregularidades. O atraso na duplicação da rodovia, que se arrasta desde 2013, é outro agravante. É uma combinação fatal que não pode encontrar respaldo na falta de fiscalização, na burocracia e em mudanças disparatadas do Código de Trânsito.