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Opinião da Gazeta

Escola perdeu chance de educar alunos ao expor cartazes machistas

Instituição de Vila Velha promoveu um imenso desserviço à causa feminina que pretensamente encampou

Publicado em 20 de Março de 2019 às 22:42

Públicado em 

20 mar 2019 às 22:42

Colunista

Cartazes foram expostos em escola de Vila Velha Crédito: @Jescabohen | Twitter
O primeiro bimestre de 2019 foi o mais violento em registros de feminicídios nos últimos quatro anos no Espírito Santo. Em janeiro e fevereiro, nove mulheres foram assassinadas por serem mulheres – sem contar as dezenas que escaparam por pouco de seus algozes, como Jane Cherubim, espancada pelo então namorado, no dia 4 deste mês. O dado da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) mostra que ainda há um longo caminho para acabar com a violência de gênero no país. Mas, tristemente, uma escola de Vila Velha provou que está na contramão dos esforços para frear o machismo, ao exibir cartazes que culpam as vítimas pelo assédio e as agressões sofridas.
Os painéis produzidos por alunos do 1º ano do ensino médio da EEEFM Padre Humberto Piacente, sob orientação de uma professora de História, foram parar nas redes sociais porque os próprios estudantes se sentiram incomodados. Lá, nas redes, foram motivo de críticas contundentes e merecidas. Um dos cartazes apresenta “lições” de como as mulheres devem se vestir para não serem assediadas, como se a mera escolha de peças de roupas fosse chancela para abusos sexuais. Outro prega que elas devem “ter mais consciência antes de se envolver com alguns homens”, sem levar em conta que 76,4% das mulheres que sofreram violência doméstica foram vítimas de alguém conhecido, como pai, marido, namorado.
Confrontado por reportagem deste jornal, o colégio tentou justificar o injustificável. Afirmou que os cartazes são parte de um projeto de valorização da mulher. E a emenda saiu pior do que o soneto, ao acrescentar que a primeira das duas partes do trabalho pedagógico era sobre “o que as mulheres devem fazer para não serem desvalorizadas”, como se cada vítima merecesse a violência que sofreu. Teriam os responsáveis pelo projeto a coragem de perguntar à diarista Marciane Pereira dos Santos o que ela fez para ser queimada pelo ex-marido, em setembro passado, na Serra? Ou listariam para o pai de Andrielly Santos, 20 anos, os possíveis comportamentos que ela adotava que a fizeram ser morta pelo namorado com o fio de um carregador de celular, em março de 2018?
A escola tentou desviar-se das críticas alegando que os cartazes representavam a opinião dos alunos. Com isso, eximiu-se também da responsabilidade de educar. Ao disseminar conteúdos misóginos em ambiente escolar, a instituição promove um imenso desserviço à causa que pretensamente encampa. O fim da violência de gênero passa longe de dizer ao público feminino como se vestir. A saída é combater o machismo, que está mais do que provado ser a raiz do problema. O Brasil não caminhará um milímetro para mitigar os índices de assédio, abuso, agressão e feminicídio sem uma mudança cultural. E essa mudança precisa começar justamente no seio da família e das escolas. As críticas ao colégio de Vila Velha mostram que a sociedade está atenta a retrocessos. Que sirva de lição.

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