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Opinião da Gazeta

Chuvas no ES: cidades falham até mesmo em medidas simples

Municípios não têm plano de riscos nem veículos altos para resgatar moradores. Como não é possível negociar com as chuvas, não há outra saída a não ser investir em soluções

Publicado em 21 de Maio de 2019 às 18:54

Públicado em 

21 mai 2019 às 18:54

Colunista

Imagens de drone mostram os alagamentos que ainda atingem a Grande Cobilândia, em Vila Velha Crédito: Internauta/Hemerson Oliveira
Antes de conseguir se recuperar das perdas provocadas por uma enchente no ano passado, em que viu tudo que tinha ser destruído pela água, a dona de casa Daniele Santos acordou na manhã do último sábado (18) com mais uma inundação carregando o colchão doado em que dormia. Era um pesadelo, e era real. Até ontem, a moradora de Jardim Marilândia, que está grávida, não podia voltar para casa, ainda alagada. A região de Vila Velha, a mais atingida pelas chuvas, escancara o quanto ainda precisa ser feito para evitar dramas como o de Daniele e tragédias ainda piores. Desta vez, ao menos não houve mortos.
Para qualquer um que acompanhou as notícias sobre os efeitos das chuvas, o sentimento era de indignação. Para os que viram suas casas invadidas, era também de abandono. Mesmo em Vitória, onde os danos foram menores, várias ruas ficaram alagadas por horas. A prefeitura, no entanto, afirmou que choveu muito mais do que o esperado e que não há nada que possa ser feito. Faz parecer que Vitória tem o melhor sistema de gestão das águas do mundo.
Quem detém esse título é a Holanda. É um caso extremo, mas elucidativo. Com dois terços da população vivendo abaixo do nível do mar, o país está preparado para eventos climáticos tão fora da curva que, segundo projeções de computador, aconteceriam a cada dez mil anos. Não haveria muito o que ser feito, mas ainda assim há tempo e dinheiro sendo investidos em aprimorar a proteção. Em Vitória, a administração caiu em contradição ao reconhecer que há pontos a serem melhorados, mas não especificou investimentos.
Nossas prefeituras não apenas falham em questões estruturais (estações de bombeamento, comportas, elevatórios), como também deixam a desejar em medidas mais simples. Vila Velha não dispunha de veículos altos e barcos para resgatar moradores ilhados, muitos acamados. Precisou da ajuda do Exército para, mais uma vez, remover grávidas de uma maternidade inundada. O Plano de Redução de Risco, que deveria indicar áreas vulneráveis e apontar soluções, deveria estar pronto desde 2012, mas não existe.
Serra e Cariacica até possuem plano, mas não souberam informar dados básicos, como quantas pessoas vivem na área de risco. Parece absurdo, mas mesmo obras vultosas de infraestrutura acabam acarretando prejuízos imensos à população. A Rodovia Leste-Oeste, importante para a logística do Estado, canalizou as águas das chuvas e ampliou uma área de alagamento já histórica.
Os caminhos para prevenir enchentes não são baratos e, com os caixas das cidades no vermelho, o desafio é sem dúvida ainda maior. Mas como não é possível negociar com as chuvas, não há outra saída a não ser investir em soluções, que incluem medidas simples, como plantar mais árvores e impedir a ocupação desordenada do solo. Só com planejamento é possível evitar que outras Danieles percam tudo repetidas vezes. Cidades do futuro são construídas no presente.

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