Publicado em 27 de abril de 2018 às 02:30
Desde os 16 anos, Maria das Dores Macedo de Sousa trabalha como doméstica. Hoje, com 53 anos de idade, 37 dedicados à profissão, há dois meses ela teve pela primeira vez na vida a Carteira de Trabalho assinada, quando sua patroa teve um filho e a convidou para ocupar o posto de forma fixa.>
Já tinha trabalhado fixo em casa de família, mas nunca com carteira assinada. Essa era uma vontade minha. Agora que tenho, acho que me dá mais segurança, além de INSS, férias, e ter horário certo. Ficou melhor para todos, comenta.>
Passados cinco anos da PEC das Domésticas, promulgada em abril de 2013, 21 mil trabalhadores da categoria, assim como Maria, passaram a ter acesso ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no Espírito Santo, um crescimento de 800%.>
Hoje, dia em que é comemorado o Dia Nacional da Doméstica, A GAZETA mostra que a categoria tem sim avanços para celebrar, mas ainda há desafios que precisam ser superados.>
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Comparando dados do cadastro do FGTS, gerido pela Caixa, e da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, o número de trabalhadores domésticos com acesso ao fundo no Estado saltou de 2,6 mil em 2013 para 23,6 mil no ano passado. Com isso, a proporção de domésticas com direito ao benefício foi de 2,4% para 20,3% do total de trabalhadores.>
Esse cenário fez a renda média mensal desses trabalhadores ir de R$ 604 em 2013 para R$ 825 em 2017. Apesar do avanço, a informalidade ainda é alta, uma vez que quatro em cada cinco domésticas não têm carteira assinada, o que ainda faz com que a média salarial seja menor que o salário mínimo, hoje em R$ 954.>
IGUALDADE>
Segundo o presidente do Instituto Doméstica Legal, Mário Avelino, os números no Estado são parecidos com o do resto do Brasil. Para ele, a PEC de 2013 juntamente da lei complementar e da criação do eSocial, em 2015, trouxeram igualdade para esses trabalhadores.>
Quebrou-se uma cultura escravagista de que doméstica não tinha carga horária nem direitos. O trabalho doméstico foi regulamentado e elas, que são a maioria, passaram a ter direitos como FGTS, INSS, férias, 13º salário, seguro acidente de trabalho, e seguro-desemprego, explica o especialista, que lembra avanços para o empregador. Ele tem mais segurança jurídica e uma chance menor de sofrer um processo trabalhista.>
Avelino destaca que o maior número de formalizações aconteceu em 2016, a partir do eSocial e da obrigatoriedade do FGTS, já que antes de 2015 o recolhimento era facultativo. Já a queda na proporção da formais no ano passado, para ele, é fruto da crise. O número de informais cresce numa situação assim, por causa do desemprego, é natural, frisa.>
Essa percepção de igualdade é sentida pela doméstica Rúbia Margareth Cardoso, 51, que sempre trabalhou na área. Ela teve a carteira assinada há pouco mais de dois anos e hoje comemora a maior estabilidade. Melhorou muito pois agora posso tirar férias, tenho 13º e, se precisar, tem o seguro. Além do horário certo. Com isso, a gente fica mais tranquilo e dá mais gosto trabalhar.>
EMPRESÁRIOS ENXERGARAM NA LEI OPORTUNIDADE>
Com a vigência da chamada PEC das Domésticas em 2013 e a sanção da Lei Complementar 150, em 2015, as domésticas passaram a ter os mesmos direitos de todos os trabalhadores.>
Entre eles, os principais foram a jornada de trabalho limitada a 44 horas semanais, pagamento de horas extras (50% se exceder horário em dias normais e de 100% em dias de descanso), adicional noturno, banco de horas, seguro-desemprego de três parcelas de salário mínimo, adicional de viagem, FGTS obrigatório sobre 8% do salário pago, seguro acidente de trabalho e multa de 40% em caso de demissão sem justa causa.>
A regulamentação da profissão, com todos os direitos dos trabalhadores, saltou aos olhos de empreendedores, que viram nas novidades uma chance de expandir os negócios de forma a ajudar empregadores que são pessoas físicas a formalizar seus funcionários sem dificuldade e burocracia.>
Uma dessas visionárias foi Vera Lúcia Oliveira Santos, que possui desde 2009 uma agência de empregos voltada para trabalhadores domésticos. Com as mudanças na legislação, ela ampliou em 2015 a atuação da Top Agência, que passou a se chamar Top Serviços Virtuais, oferecendo, além do agenciamento, a gestão de RH dos empregados.>
Ficou complicado para o empregador, que é uma pessoa comum, administrar. Então, a gente faz tudo, agencia, faz a documentação, o controle de RH, e só encaminha para eles fazerem os pagamentos. Nossa missão é deixar essa relação mais fácil, conta ela, que se orgulha em dizer que a agência já contratou nos últimos anos três mil domésticas, todas com a carteira assinada.>
Com a obrigatoriedade estabelecida na lei de que as domésticas devem bater ponto, a agência de Vera criou um aplicativo para fazer o controle. Elas batem o ponto no celular quando chegam no local de trabalho. O aplicativo tem geolocalização e só permite que o ponto seja batido no local de trabalho.>
A doméstica Arcilene Dias, 41 anos, que foi contratada pela empresa, aprova o sistema de ponto. Assim, a gente não tem preocupação, a empresa cuida de tudo. Hoje, com carteira assinada, ela se sente segura. Como agora meus direitos estão garantidos, dá para respirar mais tranquila, diz.>
ÁREA PROMISSORA>
Para driblar a crise, a contadora Sandra Peres também viu na nova legislação do trabalho doméstico uma chance de expandir o nicho de mercado da sua empresa, a WS Assessoria Contábil, que existe desde 2009.>
Quando, em 2013, veio a lei que colocou o FGTS para domésticos como facultativo, nós começamos a fazer o atendimento de empregadores, tomando conta dessa parte burocrática. A partir de 2015, com a obrigatoriedade a partir do eSocial, intensificamos isso e temos hoje uma área na contabilidade só de departamento pessoal de empregadas, comenta.>
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