Publicado em 8 de outubro de 2022 às 14:43
Embora a economia global tenha se recuperado dos estragos provocados pela pandemia de coronavírus, o crescimento mundial ainda não ganhou tração. E pior: os choques detonados pela guerra entre Rússia e Ucrânia e a alta de juros adotada pelos principais bancos centrais devem dificultar o cenário daqui em diante.>
Levantamento do Itaú com as 28 maiores economias mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) global terminou o segundo trimestre deste ano 3,9% acima do observado no quatro trimestre de 2019, o último antes da pandemia. O problema é que a tendência de crescimento desses países está 2,5% mais baixa. Na prática, quer dizer que cresceram, mas num ritmo fraco desde o início da crise sanitária.>
"A maioria dos países voltou ao nível pré-pandemia e retornou mais ou menos no período que a gente acreditava, em 2021, alguns até voltaram em 2022. Foram poucos os que não se recuperaram", afirma Guilherme Martins, economista do Itaú BBA. "Mas a tendência do PIB da maioria dos países está abaixo (do observado) no período de pré-pandemia. Economias que cresciam bastante estão crescendo menos.">
São três grandes fatores que explicam esse cenário de desempenho mais fraco.>
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O primeiro é a política "covid zero" praticada nos países da Ásia, sobretudo na China. Nos períodos em que há um aumento de casos da doença, os governos locais voltam a adotar duras medidas de distanciamento social com o objetivo de evitar o aumento de contágios. O segundo tem a ver com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que provocou diversos choques, como a disparada do barril do petróleo no mercado internacional.>
Por fim, o aumento da inflação global tem levado os principais bancos centrais do mundo a apertar a política monetária. Juros mais altos encarecem o consumo para as famílias e o investimento para as empresas, prejudicando o ritmo da atividade econômica. Não à toa, parte dos analistas não descarta recessão para Europa e Estados Unidos.>
No mês passado, por exemplo, Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) subiu as suas taxas de juros em 0,75 ponto porcentual pela terceira vez seguida. Os juros foram para a faixa entre 3% e 3,25%. A autoridade monetária dos EUA também indicou que o aperto monetário deve prosseguir. Na leitura dos economistas, as taxas norte-americanas podem chegar a 5%.>
"É um cenário que mostra que a superação da crise provocada pela covid foi muito mais rápida do que a de outras recessões, mas o quadro piorou depois da guerra entre Rússia e Ucrânia e das sinalizações mais duras de banco centrais, particularmente do Federal Reserve", diz Bráulio Borges, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). >
QUADRO RECESSIVO>
Em razão das dificuldades da economia global, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, antecipou nesta semana que o órgão deve rever as suas previsões de crescimento para 2023 em relatório a ser divulgado na próxima semana. Com percepção semelhante, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passou a projetar um crescimento de apenas 2,2% para o mundo em 2023. Em junho, previa 2,8%. Para este ano, manteve a sua estimativa em 3%.>
"É um número que flerta com uma recessão moderada, porque a gente tem de lembrar que a população mundial aumenta 1,1% ao ano", afirma Bráulio Borges, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Um PIB mundial que cresce 2,2% - como prevê a OCDE - traz um ganho muito pequeno em termos per capita.">
A OCDE vem piorando sucessivamente as suas projeções para o desempenho da economia mundial, lembra Bráulio. No fim do ano passado, a organização previa avanço do PIB do mundo de 4,5%, em 2022, e de 3,5% em 2023.>
"Era um cenário vislumbrado não só pela OCDE, mas por boa parte dos analistas no final de 2021 e no começo deste ano. É mais ou menos o que o mundo cresceu de 2015 até 2019, antes da pandemia", afirma o pesquisador.>
CAPITAL HUMANO>
Não é só no curto e no médio prazos que o crescimento global pode ser mais fraco do que o esperado diante desse cenário mais complicado.>
Se nada for feito, os analistas dizem que os impactos da pandemia na qualidade do ensino devem afetar o desempenho da produtividade, comprometendo até o futuro da economia.>
"As crianças ficaram muito tempo fora da escola, mais no Brasil do que em outros países. A gente viu os dados mostrando quedas muito severas do nível de aprendizado das crianças nesse biênio da pandemia", diz Bráulio.>
Na leitura dele, é possível que haja "uma geração perdida" se os países não desenvolverem políticas públicas educacionais para superar esse período de piora na qualidade da educação.>
"Se nada for feito, haverá um dano de capital humano e que vai se refletir lá na frente sobre a produtividade da economia mundial e a capacidade de inovação. Corremos o risco de ver uma geração perdida", afirma o pesquisador do Ibre. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.>
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