Publicado em 27 de janeiro de 2024 às 14:49
Após o pedido da Gol para entrar em recuperação judicial nos Estados Unidos, começa a circular no mercado de aviação a expectativa de que a Azul possa vir a público afirmar que tem interesse em adquirir ativos da concorrente.>
Procurada pela reportagem, a empresa não respondeu se pretende declarar algum apetite pela Gol, mas o gesto não surpreenderia o setor, já que a Azul sempre manifestou esse desejo nas ocasiões em que suas rivais passaram por situação semelhante -- ainda que não tenha conseguido chegar perto de abocanhar uma das grandes concorrentes.>
O movimento mais ostensivo da Azul aconteceu em 2019, quando a Avianca Brasil entrou em recuperação judicial.>
Na época, a Azul assinou um acordo não vinculante superior a US$ 100 milhões para adquirir ativos da companhia, incluindo os cobiçados slots (autorizações de pouso e decolagem) da rival no aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, para voar o rentável trecho Rio-São Paulo, além de contratos de leasing de aviões.>
>
O projeto, porém, se perdeu em meio a disputas que racharam o setor com questionamentos na Justiça e reclamações de que a companhia não poderia vender slots porque eles não seriam ativos, mas concessões, que, portanto, deveriam ser redistribuídas.>
Por fim, a Azul desistiu da oferta e seu CEO, John Rodgerson, acusou Latam e Gol de atrapalharem a transação com o objetivo de evitar a concorrência na ponte aérea, depois que a dupla entrou no páreo pela aquisição com uma proposta sincronizada, também frustrada.>
Pouco tempo depois, quando a pandemia colocou os aviões no chão e a Latam precisou recorrer ao chapter 11 (como é chamado o processo de proteção contra falência na Justiça americana), a Azul fez uma nova investida.>
Porém, Rodgerson viu frustrada sua tentativa de fazer uma oferta hostil pela rival, porque a Latam apresentou seu plano de recuperação judicial a tempo de manter a exclusividade na negociação com credores.>
Segundo especialistas no setor, o cenário atual é bastante diferente das outras ocasiões, e a hipótese de uma investida da Azul, desta vez, encontraria mais dificuldades.>
As estatísticas da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) estimulam otimismo pela recuperação da demanda perdida na pandemia da Covid-19, com 112,6 milhões passageiros movimentados em 2023, o melhor resultado desde 2020.>
No entanto, o setor ainda lamenta a escalada do preço do combustível --impulsionada pela Guerra da Ucrânia-- e sofre pressão do governo para reduzir os preços das passagens.>
Esse cenário afeta não só a Gol, que enfrenta hoje um momento de endividamento mais delicado e cuja recuperação judicial foi aceita pela Justiça americana na sexta-feira (26), mas também as outras companhias, que já precisaram reestruturar suas dívidas. Só a Gol declarou dever R$ 40 bilhões.>
Especialistas no setor avaliam que faltaria capital se a Azul quisesse fazer um gesto na direção da Gol e teria de levantar com terceiros.>
Para o ex-diretor-presidente da Anac Marcelo Guaranys, hoje sócio do Demarest Advogados, a incompatibilidade das frotas poderia tornar o negócio menos atrativo no caso de um eventual interesse da Azul pela Gol.>
"É natural ver um movimento de tentativa de aquisição de uma pela outra num momento de fraqueza de uma. É uma forma mais fácil de fazer crescimento. Agora, tem de lembrar que a Gol opera [aviões da] Boeing, e a Azul opera Embraer e Airbus", afirma ele.>
O negócio fica mais interessante quando as duas empresas operam as mesmas famílias de aviões, o que lhes permite unificar custos como treinamento, base de manutenção e certificação.>
O crivo do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) seria outro obstáculo. Segundo Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e ex-presidente do Cade, é difícil afirmar se a hipótese de unir Gol com Azul seria possível ou impossível.>
"Toda fusão requer uma análise técnica específica para verificar o impacto sobre concentração de mercado, barreiras de entrada etc. É um roteiro de análise minucioso. Eu diria que seria uma operação de concentração que exigiria uma análise complexa", afirma.>
Pelos dados da Anac de dezembro, a participação da Gol no mercado doméstico foi de 33,3%, enquanto a Azul ficou em 27,5%.>
André Castellini, da Bain&Company, também ressalva que não se pode prever como seria o desfecho no Cade, mas avalia que, para um investidor, independentemente de quem fosse, seria interessante consolidar.>
"O único problema que a Gol está tendo é que o endividamento é muito alto e está vencendo, mas a operação em si, o resultado operacional, o modelo de negócio, são muito bons", afirma.>
Conforme os dados da companhia, sua receita operacional líquida atingiu recorde histórico de R$ 4,7 bilhões no terceiro trimestre de 2023. Em dezembro, a taxa de ocupação alcançou 82,7%, alta de 4,8% ante igual período do ano anterior.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta