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Vitor Vogas

Disputa morna no ES é ruim para todos

Eleição no Estado é marcada por pouco debate ou, vá lá, por um debate muito pouco empolgante, o que gera um quadro frustrante

Publicado em 10 de Setembro de 2018 às 22:13

Públicado em 

10 set 2018 às 22:13
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Crédito: Amarildo
Na eleição presidencial, temos visto um enfrentamento de projetos radicalmente diferentes e uma tensão até exagerada que às vezes transborda para a violência, como no atentado a Jair Bolsonaro. Enquanto isso, na eleição ao governo do Estado, temos observado até aqui uma campanha muito morna.
Um dos candidatos, Renato Casagrande (PSB), largou muito na frente e, segundo as últimas pesquisas dos institutos Futura e Ibope, estabilizou-se com mais de 70% das intenções de votos válidos. Com a ausência de Paulo Hartung (MDB) no pleito ou de algum candidato competitivo do grupo do governador, frustrou-se aquela expectativa, alimentada desde 2014, de um bom confronto de perfis dos candidatos, de resultados de governo, de propostas por área e o mais importante de tudo: de projetos políticos para o Espírito Santo.
O resultado é uma eleição marcada por pouco debate ou, vá lá, por um debate muito pouco empolgante, o que gera um quadro frustrante. Afinal, não poderia haver melhor momento para se debater o Espírito Santo. É agora, no período eleitoral, que as forças políticas capixabas deveriam estar discutindo a fundo o Estado que querem entregar daqui a quatro anos e como pretendem chegar lá. Sem uma disputa verdadeira, essa discussão tem sido superficial, repetindo as eleições de 2006 e de 2010, quando Hartung e Casagrande esmagaram, respectivamente, Sérgio Vidigal (PDT) e Luiz Paulo (PSDB) no 1º turno, a partir da formação de uma ampla coligação e da defesa da tese de uma “unidade política” que se confundia com unanimidade.
Novamente, essa ausência de disputa e consequente ausência de debate são ruins para o Estado, para a população capixaba e para a própria democracia. O cientista político Fernando Pignaton sublinha o lado negativo de uma eleição que pode virar praticamente um referendo, a se confirmar a tendência indicada hoje pelas pesquisas.
“Essa falta de debate é preocupante. A decisão até o momento está sendo tomada muito por cima. Está sendo uma decisão muito de cúpula. O fato de Casagrande ter toda essa coligação e todo esse tempo de TV dá a impressão de que a eleição foi mesmo decidida lá em julho e não pela vontade popular, do mesmo jeito que as eleições de 2006 e de 2010. Nós que temos aspirações democráticas vínhamos lutando para que o processo representasse um embate real de projetos e uma disputa verdadeira, como foi a eleição passada. Esta, para nossa surpresa, é um processo sem disputa. Isso dificulta a discussão de projetos, pois, quando se tem dois lados em disputa, gera-se um interesse maior dos eleitores”, opina Pignaton.
De acordo com o cientista político, esse cenário empobrece o momento que deveria ser o ápice do exercício democrático de enfrentamento de ideias e de projetos. “A eleição a governador ainda não discutiu os caminhos para o Espírito Santo e o projeto que vai governar. Está sendo amarrada no favoritismo de uma personalidade e não em um consenso em torno de um projeto. Isso empobrece a democracia e é pouco educativo. Se tivéssemos duas ou três candidaturas que fossem para o embate de projetos, seria muito mais enriquecedor para a democracia e prepararia a sociedade e os próprios candidatos para as contradições de alguns projetos.”
Uma eleição decidida sem disputa, portanto, será ruim para todos. Até para Renato Casagrande. Ou sobretudo para ele.
Novo monocentrismo
Para o cientista político Fernando Pignaton, a atual eleição ao governo estadual guarda uma grande ironia: nas fases preparatórias, foi muito movida por um impulso de descentralização política, sinalizando uma passagem do monocentrismo representado por Hartung para um quadro de policentrismo (com Hartung, Casagrande, Rose de Freitas e outras forças em disputa). Mas pode acabar resultando em uma “recentralização”, um novo quadro de monocentrismo, agora em torno de Casagrande.
“Tudo nosso”
Para o cientista político, um sinal disso é que, por incrível que pareça, apesar de a coligação de Casagrande agrupar 18 partidos, o governador e a vice são da mesma sigla, o PSB – algo que não se via no Espírito Santo desde a eleição de Hartung em 2002, tendo Lelo Coimbra como vice. Ironicamente, os dois se elegeram naquele ano pelo PSB de Casagrande. Em 1990, Albuíno Azeredo elegeu-se governador pelo PDT, tendo como vice Adelson Salvador, também do PDT.
Manato saca a arma
No horário eleitoral, Manato (PSL) começa a dar sinais de que não vai mais deixar Casagrande correr solto. No seu programa exibido na segunda-feira (10), a apresentadora pergunta: “Será que o capixaba vai eleger um governador delatado na Lava Jato?”. A referência é à delação de Sérgio Neves, ex-superintendente da Odebrecht em Minas Gerais e no Espírito Santo, que veio à tona em abril de 2017. Em depoimento à PGR, Neves declarou que pagou R$ 1,8 milhão em caixa 2 para a campanha do ex-governador em 2010.
Pneu volta a rodar
Velho aliado de Magno Malta, o empresário Xyco Pneus é candidato a deputado federal pelo PRTB, mas se apresenta como Chico Pneu (no singular).

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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