Greve dos caminhoneiros abriu espaço para oportunismo político?
André Pereira*
As medidas tomadas pelo governo Temer diminuíram a margem de manobra do Estado para dar soluções ao conflito distributivo, agudizado pelo ajuste imposto. Por isso, a greve dos caminhoneiros abriu uma janela de oportunidades para que atores com poder de pressão consigam se reposicionar diante das perdas sofridas. Isto ocorre num momento de vitória de um projeto neoliberal em termos de políticas econômicas e conservador em termos de políticas sociais, mas sem liderança indiscutível.
Assim, diante de um governo frágil, sem margem de manobra, numa fase de alto conflito distributivo, com enorme desgaste das instituições, criou-se um clima que leva a base social do projeto vencedor a clamar por saídas que flertam com o autoritarismo.
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Os operadores dos meios repressivos (militares, policiais, promotores, juízes) são convocados pelos conservadores a uma intervenção. Este cenário é ideal para que uma liderança “de fora” (outsider) se projete nas eleições ou, o que seria pior, realize experimentos de força que tomem o poder ou obrigue o aparelho repressor a agir.
Como a crise econômica e o conflito distributivo não seriam resolvidos de forma simples e rápida, o único caminho que se desenha é o de demonização dos “culpados” (esquerda, comunistas, corruptos, políticos), perseguição exemplar e midiática, com fechamento político em nome da eficiência deste combate. Não seria necessariamente uma ditadura formal, mas funcionaria com instrumentos de exceção. Estamos diante de um precipício. Se pularmos nesse abismo, vamos afundar.
* O autor é doutor em Ciência Política e professor do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)