A crise de confiança brasileira é evidente e vai muito além da péssima relação do cidadão com as instituições ou com o governo, impulsionada principalmente pela corrupção. Está cada vez mais arraigada também às conexões pessoais mais básicas.
A consequência é perversa. Uma nação deficitária em capital cívico não tem fôlego para avanços estruturantes pelo simples fato de não conseguir prover o ambiente com estímulos à cooperação social. A descrença é generalizada e poda iniciativas empreendedoras que poderiam colocar o país num novo rumo de prosperidade.
Mas o que é esse capital cívico? É justamente a confiança social, a sustentação baseada em valores comuns para a manutenção de uma segurança compartilhada por todos que, defendem estudiosos, é capaz de fazer crescer os níveis de riqueza e bem-estar de um povo. Essa ação cooperativa propiciada pelo capital cívico catapulta o comportamento proativo, eliminando até mesmo o peso do Estado. E se há uma doença que ainda se espalha por todos os setores no Brasil é o tamanho descomunal dessa máquina. Uma hipertrofia estatal insustentável e ineficiente, amparada por uma rede burocrática que só consegue produzir mais desconforto e descrédito, num ciclo infinito.
O Estado desconfia demais das empresas, é rigoroso onde não deveria. Penaliza quem se arrisca (o que não deveria jamais ser um risco) a empreender, exigindo o cumprimento de obrigações tributárias que poderiam ser simplificadas com um pouco mais de boa vontade política. Como disse o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco em artigo recente, “é como se o Estado estivesse ali, jamais para melhorar o ambiente de negócios e trabalhar pela comunidade, mas para oprimir empresas privadas que existem apenas para pagar impostos e obedecer”. A mesma desconfiança ainda rege as relações de trabalho. Uma reestruturação passa pela consolidação de padrões éticos alinhados com essa visão, na qual o Estado deixe de ser mero tutor, hostil a qualquer inovação, e estabeleça vínculos com seus cidadãos.